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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Qual é o objetivo do jejum religioso?

por Ángel Manuel Rodríguez
traduzido por Walter Mendes*


Qual é o objetivo do jejum religioso? Para algumas pessoas que eu conheço, ele parece quase um ritual que nos traz méritos diante de Deus.

Sua pergunta trata de uma prática religiosa que parece não ser tão comum na igreja e na vida do membro individual quanto costumava ser. Vamos dar uma olhada nas passagens e narrativas da Bíblia em que essa prática é mencionada.

1. Prática e tipos de Jejum


O jejum não significa necessariamente abstenção total de comida e bebida. Em alguns casos, houve abstenção total por um período prolongado de tempo; mas nesses casos o próprio Deus parece ter sustentado a pessoa (Êxodo 34:28; cf. Mateus 4:2). Alguns jejuaram por curtos períodos de tempo sem comer e beber (Ester 4:16; Atos 9:9). Mas tudo indica que um jejum normal permitia o consumo de água a fim de evitar o risco de desidratação (Levítico 23:14), especialmente num clima quente, além da abstenção de comida apenas durante as horas claras do dia (2 Samuel 1:12; 3:35) – algo parecido com o moderno jejum muçulmano durante o Ramadã. Tudo indica também que jejuar durante a noite era algo pouco comum (Ester 4:16). A Bíblia também menciona jejuns parciais, que consistiam no consumo de quantidades limitadas de comida mais simples (Daniel 10:2,3).

A duração do jejum variava. Lemos sobre jejuns de 40 dias (Deuteronômio 9:9), sete dias (1 Samuel 31:13), três dias (Ester 4:16), um dia (2 Sm. 3:35) e, ao que tudo indica, um jejum de apenas uma noite (Daniel 6:18). Havia jejuns comunitários: Deus ordenou aos israelitas que jejuassem durante o Dia da Expiação (Levítico 16:29); em algumas ocasiões, os líderes pediam ao povo para jejuar (Juízes 20:26; 2 Crônicas 20: 3); ou os profetas convocavam um jejum (Joel 2:12,13). Mas o jejum privado era uma prática mais comum.

2. Conceitos associados ao jejum


O jejum está intimamente relacionado a orações de cura e libertação (Salmo 35:13) e à adoração (Atos 13: 2). Mas também é praticado no contexto de uma calamidade presente ou futura (Ester 4: 1-4), de luto (2 Samuel 1:12), na escolha de líderes da igreja (Atos 13: 2,3), como um sinal de arrependimento (Jonas 3: 5) e como uma expressão de devoção a Deus (Lucas 2:37). Jesus condenou a ostentação no jejum, que buscasse impressionar os outros com a própria espiritualidade. Ele incentivou o jejum privado (Mateus 6:16-18).

3. Significado básico do jejum


É difícil encontrar um objetivo fundamental para o jejum presente em todas as suas formas, mas um chega bem próximo do ideal. Tudo indica que o jejum é a expressão externa do total comprometimento e dependência interna da pessoa no poder de Deus de preservar e resgatar. As Escrituras descrevem o ser humano como uma unidade individual de vida autoconsciente inseparável do corpo. Os sentimentos e emoções não são meras experiências internas que temos à parte do corpo; eles estão intrinsecamente relacionados com nossa corporalidade e se expressam através de nosso corpo. Não existe maneira alguma de expressar sentimentos, emoções e religiosidade a não ser por meio de nossa existência corporal.

Deus deve ter informado a Adão e Eva que eles teriam de cooperar com Ele na preservação de suas vidas por meio da ingestão de alimentos (Gênesis 1:29). A falta de vontade de comer, ou de comer alimentos apropriados, indicaria falta de vontade de submeter-se a Seu plano para eles (Gênesis 2:9). Tal atitude seria a expressão física/corporal de um espírito de rebelião. Consequentemente, o jejum indicaria uma falta de vontade de cooperar com Deus na preservação de nossa vida.

Contudo, a Bíblia indica o jejum como uma expressão legítima de devoção e compromisso com Deus. Nesse caso, a privação de alimentos não é uma forma de rebelião, mas um reconhecimento de que a vida pode ser, no fim das contas, preservada apenas por nosso Criador e Redentor. Ao jejuar, entregamos nossa vida totalmente aos cuidados e misericórdia de Deus. Isso expressa um compromisso total e absoluto, uma entrega amorosa e confiante de nossa vida a Deus como o único que pode nos resgatar da opressão do pecado.

Finalmente, ao jejuar nos identificamos com os necessitados e oprimidos e permitimos que Deus nos use para enriquecer a vida deles (Isaías 58:6-7).

Um ritual que nos traz méritos diante de Deus? Não há nada de meritório em entregar-se a Ele. O jejum é, na verdade, um reconhecimento da nossa dependência de Deus.

________
*Traduzido do texto original "What is the purpose of religious fasting?", de Ángel Manuel Rodríguez.

Direitos reservados ao Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia.

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terça-feira, 16 de junho de 2015

Argumentos equivocados no debate sobre ordenação de mulheres

por Pr. Matheus Cardoso


O Instituto de Pesquisa Bíblica da Igreja Adventista do Sétimo Dia preparou alguns materiais neutros apontando vários argumentos ilegítimos usados a favor e contra a ordenação de pastoras. {Um tema que será levado a debate e voto na 60º Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em San Antônio (no Texas, EUA), de 2 a 11 de julho de 2015.} Confira se você já não ouviu algum:

Argumentos equivocados CONTRA a ordenação


"A ordenação de mulheres [ou de pastoras; também ao longo de todo o texto] é inaceitável porque seus defensores usam formas de teologia liberal e abordagens críticas à Bíblia."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque estaria ligada ao apoio do estilo de vida homossexual."
"A ordenação de mulheres é inaceitável por causa da agenda feminista militante e do domínio das mulheres."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque, apesar de discutir o assunto por mais de 40 anos, a igreja nunca a aceitou oficialmente."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque se opõe à compreensão tradicional do papel e das funções das mulheres. Ela milita contra as relações familiares que são descritas [na Bíblia] em termos de submissão."
"A ordenação de mulheres é inaceitável por razões práticas. Novidades criam ansiedade e desestabilizam a situação."

Argumentos equivocados A FAVOR da ordenação


"A ordenação de mulheres é necessária por causa de um consenso cultural e da sociedade."
"A ordenação de mulheres é necessária porque, já que outras igrejas decidiram ordenar pastoras, os adventistas não devem ser os últimos a fazê-lo."
"A ordenação de mulheres é necessária porque os primeiros adventistas possivelmente apoiavam as mulheres no ministério e talvez tenham ordenado algumas mulheres."
"A ordenação de mulheres é necessária porque é antiético não ordenar mulheres."
"A ordenação de mulheres é necessária porque mudanças acontecem regularmente e essa é inevitável."
"A ordenação de mulheres é necessária por razões práticas."


"Em áreas nas quais a Bíblia não contém mandamentos explícitos, os adventistas NÃO aderem a nenhuma das seguintes abordagens: (1) o que as Escrituras não proíbem é permitido [...] e (2) o que as Escrituras não permitem é proibido."

"Parece que, depois que a Comissão de Estudo sobre a Teologia da Ordenação concluiu seus trabalhos, o debate alcançou um novo nível, que, em nossa opinião, é prejudicial à igreja. [...] Temos a impressão de que a discussão não mais é bíblico-teológica, mas que indivíduos e grupos estão criticando e condenando fortemente uns aos outros. Em teologia [assim como em filosofia], nos referimos a isso como argumentos ad hominem [o que é uma falácia, isto é, um argumento ilegítimo]. [...]

"O debate sobre ordenação não tem nada a ver com os ensinos bíblicos mais fundamentais. Esse tema não pertence ao núcleo das crenças adventistas. Portanto, é ainda mais preocupante [...] ver pessoas envolvidas no debate repelindo, ofendendo e condenando um ao outro porque estão em lados diferentes do debate sobre ordenação."

Leia os artigos completos:


"Some Wrong and Right Reasons in the Women’s Ordination Debate", de 
Ekkehardt Mueller.

"The Biblical Research Institute and the Issue of Women’s Ordination to the Pastoral Ministry"
de Ekkehardt Mueller.



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10 Grandes razões contra a ordenação de homens ao pastorado*

Ben Witherington, autor do blog que 
publicou este texto originalmente.
por Ben Witherington
traduzido por Walter Mendes**

(Uma salva de palmas a Jason Jackson*** por isso).

10. Lugar de homem é no quartel.

9. No caso de homens com filhos, seus deveres podem desviá-los das responsabilidades de pai.

8. A constituição física mostra que os homens estão mais adequados a tarefas como cortar cana e caçar onças no meio do mato. Não seria "natural" para eles realizar outras formas de trabalho.

7. O homem foi criado antes da mulher. É óbvio, portanto, que o homem era uma versão preliminar de teste. Dessa maneira, eles são um mero ensaio, não o "gran finale" da criação.

6. Os homens são emocionais demais para serem sacerdotes ou pastores. Pode-se comprovar isso facilmente vendo o comportamento deles num jogo de futebol e assistindo a corridas de Fórmula 1 ou lutas de MMA.

5. Alguns homens são bonitos. Eles vão tirar a atenção das mulheres no momento de adoração.

4. Ser um pastor ordenado é alimentar a congregação. Mas isso não é um papel tradicional dos homens. Pelo contrário: ao longo da história, as mulheres têm sido consideradas não só como mais qualificadas do que os homens na tarefa de alimentar outras pessoas, mas também como atraídas com mais frequência do que eles para esse tipo de atividade. Isso faz delas a escolha óbvia para a ordenação.

3. Homens são propensos demais a agir com violência. Nenhum homem de verdade quer acertar as contas usando outro meio que não seja lutando com as próprias mãos. Por isso, eles seriam modelos ruins de comportamento, além de seres perigosamente instáveis em posições de liderança.

2. Homens ainda podem se envolver nas atividades da igreja, mesmo sem ser ordenados. Eles podem assentar pisos e revestimentos, consertar o forro e fiação do templo, ficar de vigias no estacionamento e talvez até reger o coral no programa do Dia dos Pais. Limitando-os a esses papéis tipicamente masculinos, eles ainda podem ser de grande valia na vida da Igreja.

1. No relato do Novo Testamento, a pessoa que traiu Jesus foi um homem. Por isso, sua falta de fé e sua punição posterior permanecem como um símbolo do lugar de submissão que todos os homens deveriam ocupar.

______
Notas:

*Alerta: Este é um texto carregado de ironia e não tem o propósito de combater a ordenação de pastores homens. Ele apenas procura responder à seguinte pergunta: "Como ficariam os argumentos contra a ordenação de mulheres se usássemos a mesma lógica para falar contra a ordenação de homens?"


**Traduzido do texto original em inglês "Top 10 Reasons Why Men Shouldn’t Be Ordained".


***Ao que tudo indica, este Jason Jackson é um leitor que compartilhou o texto com o autor do blog linkado na nota anterior.

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domingo, 14 de junho de 2015

16 fatos interessantes sobre ordenação de mulheres na Igreja Adventista do Sétimo Dia


por Pr. Matheus Cardoso

1 – A IASD tem pastoras, pelo menos, desde 1872.
2 – Proporcionalmente, havia mais pastoras na época de Ellen White do que hoje.
3 – Ellen White jamais disse algo negativo sobre a existência de pastoras.
4 – Ellen White fez muitas declarações positivas sobre mulheres no ministério.
5 – A ordenação de mulheres tem sido discutida na IASD pelo menos desde 1881. E, a partir desse ano, Ellen White recebeu o salário de um pastor ordenado.
6 – A partir de 1884, Ellen White foi listada como “ministro ordenado" (em inglês, “ordained minister” – gênero neutro) no anuário da Associação Geral (Yearbook). Ela possuiu credenciais ministeriais a partir de 1871, e recebeu certificado de ordenação em 1883 e em outros anos, como 1887, 1899, 1909 e 1913. (No entanto, é verdade que Ellen White jamais foi ordenada por mãos humanas. Em 1911, ela escreveu: “Na cidade de Portland, [em 1845,] o Senhor me ordenou como Sua mensageira, e ali meus primeiros labores foram dedicados à causa da verdade presente” [Filhas de Deus, p. 252]).
7 – O debate atual na IASD não diz respeito à ordenação de mulheres em si. A Associação Geral estabeleceu a ordenação de diaconisas em 1975 (reafirmada em 1985 e 2010).
8 – O voto na assembleia da Associação Geral, em julho deste ano, não estará relacionado à existência de pastoras. Desde 1990, a Associação Geral autoriza mulheres a serem ministros “comissionados”.
9 – Atualmente, a IASD possui mais de 320 pastoras, incluindo mais de 120 na América do Norte {em algumas regiões dos Estados Unidos, além de outras na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China}. A igreja continuará a ter pastoras, independentemente do resultado da votação deste ano.
10 – Pastoras “comissionadas” já exercem, nas igrejas locais, os mesmos papéis e funções que os pastores “ordenados”: ambos os grupos pregam; dão estudos bíblicos; batizam; realizam casamentos, dedicação de crianças e funerais; oficiam a ceia; lideram reuniões administrativas etc.
11 – A distinção entre pastoras “comissionadas” e pastores “ordenados” não tem a ver com “ser o cabeça” (em inglês, “headship”). “Cristo, não o ministro, é o cabeça da igreja” (Ellen G. White, Signs of the Times, 21 de janeiro de 1890).
12 – Tanto pastores quanto pastoras são dedicados numa cerimônia de oração e imposição de mãos. A diferença é que o certificado dos pastores diz “ministro ordenado”, enquanto o certificado das pastoras diz “ministro comissionado”.
13 – Em 1975, um comitê de estudiosos adventistas, estabelecido pela Associação Geral, não encontrou obstáculos teológicos para ordenar mulheres ao ministério pastoral.
14 – Em 1976, o Instituto de Pesquisa Bíblica da sede mundial da IASD concluiu: “Se Deus chama uma mulher, e o ministério dela é frutífero, por que a igreja deveria se recusar a oferecer seu reconhecimento oficial?”.
15 – Em 2014, o Comitê de Estudo da Teologia da Ordenação, estabelecido pela Associação Geral, chegou ao consenso de que a Bíblia pode ser usada, de maneira legítima, para apoiar a ordenação e a não ordenação de mulheres ao ministério pastoral, e de que os defensores de ambas as posições estão plenamente comprometidos com a teologia e a missão da IASD. Dois terços dos membros do comitê concluíram que a Bíblia e os escritos de Ellen White permitem a ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
16 – Em 2014, a Associação Geral e os líderes das Divisões mundiais declararam, com unanimidade, que a questão não pode ser decidida teologicamente (isto é, pelo estudo da Bíblia {ela não proíbe, nem manda ordenar mulheres}), mas será decidida administrativamente (tendo em vista a unidade e a missão da igreja).

Para saber mais sobre o tema, acesse: http://teologiadaordenacao.blogspot.com.br/

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sobre a ordenação de mulheres ao pastorado


por Walter Mendes

Em resposta a uma foto que publiquei no Facebook em favor da ordenação de mulheres ao pastorado adventista, um amigo me recomendou assistir a um vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube. Como quase todos os adventistas sabem, a ordenação de mulheres ao pastorado será votada em julho próximo no Texas (EUA) durante a 60ª Conferência Geral 2015 da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O que se segue abaixo são uma resposta aos argumentos apresentados no vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube.

Em primeiro lugar, o pastor cita o texto paulino de 1 Timóteo 2:12-13, em que lemos que a mulher não deve exercer autoridade sobre o homem:

"E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva."
– 1 Timóteo 2:12-13, ARA

Mulheres têm tido um papel fundamental no ensino da Bíblia e pregação do evangelho na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde sua fundação em 1863. A começar pelo ministério de uma de seus 3 fundadores, a saber a americana Ellen G. White. Elas ensinam crianças, jovens e adultos nas Escolas Bíblicas Sabatinas, além de pregarem regularmente nos púlpitos de diversas igrejas locais.

Há mulheres anciãs (presbíteras, conforme a nomenclatura de outras igrejas) em diversas igrejas locais mundo afora, incluindo no Brasil. Há mulheres pastoras em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China, mas elas (ainda) não são ordenadas oficialmente dentro do Adventismo. Contudo, diaconisas são ordenadas oficialmente na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde 2010.

Se a interpretação bíblica do pastor do vídeo está correta, devemos então rejeitar o ministério e as publicações de Ellen G. White, uma mulher que exerceu e exerce autoridade sobre os homens adventistas desde 1844. E isso não é força de expressão: a história do Adventismo mostra que ela já confrontou presidentes de associações locais e da Conferência Geral em seus dias para que abandonassem erros pessoais e administrativos.

Igualmente deveríamos ser coerentes como outras igrejas evangélicas fazem ao interpretar literalmente esse texto, não permitindo que a mulher tenha qualquer cargo na Igreja exceto o de professora de crianças na Escola Bíblica. Uma mulher que pregue na igreja local, tenha qualquer cargo de liderança em qualquer departamento ou seja professora de qualquer classe de Escola Sabatina está exercendo autoridade sobre os homens debaixo dela.

Segundo ponto: é verdade que Paulo diz que os anciãos e pastores devem ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3:12; Tito 1:5-9), outro argumento bíblico usado pelo pastor do vídeo. Mas o assunto em questão é que o líder cristão não deve ser polígamo – algo comum nos tempos do Novo Testamento. Não se trata de uma qualificação 'sine qua non' que exclua a liderança feminina, permitindo o ancionato ou pastorado apenas para homens cristãos. Do contrário, devemos ser coerentes e descartar a prática adventista de separar homens solteiros e viúvos para o ancionato ou o pastorado – pois essa é a leitura mais literal do texto.

Terceiro, Deus não criou Adão e Eva para que um dominasse sobre o outro, como sugere o pastor no vídeo. O texto de Gênesis é bem claro ao dizer que ambos carregavam em si a imagem de Deus (1:26-27) e que a mulher seria uma auxiliadora do homem (2:18) – uma igual a ele. É muito bonito a forma como Ellen G. White explica esse texto no "Patriarcas e Profetas", págs. 18-19:

"O próprio Deus deu a Adão uma companheira. Proveu-lhe uma 'adjutora' — ajudadora esta que lhe correspondesse — a qual estava em condições de ser sua companheira, e que poderia ser um com ele, em amor e simpatia. Eva foi criada de uma costela tirada do lado de Adão, significando que não o deveria dominar, como a cabeça, nem ser pisada sob os pés como se fosse inferior, mas estar a seu lado como igual, e ser amada e protegida por ele. Como parte do homem, osso de seus ossos, e carne de sua carne, era ela o seu segundo eu, mostrando isto a íntima união e apego afetivo que deve existir nesta relação." 

A submissão da mulher ao homem veio apenas com a entrada do pecado em Genesis (3:16), não sendo parte do propósito original de Deus. Paulo diz em Gálatas 3:28 que na nova ordem trazida por Jesus não há diferença entre homem e mulher, entre judeus e gentios, entre escravos e livres. Defender o contrário é defender um machismo disfarçado em busca de respaldo na Palavra de Deus.

"Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus."
– Gálatas 3:26-28, NVI

Em quarto lugar, há certas coisas que podemos admitir sem que isso signifique reinterpretar a Bíblia ou deixar a ética de Deus num campo vago, como diz o pastor no vídeo. Primeiro fato negado pelo pastor no vídeo: a Bíblia foi influenciada pela cultura em que ela foi escrita sim e existe um ideal de Deus que não foi plenamente atingido no Novo Testamento. Por exemplo, os cristãos não devem aceitar hoje a poligamia (por mais que não houvesse um mandamento contra ela no AT) nem a escravidão (mesmo que ela não fosse combatida com todas as letras no NT). Tais práticas vão contra o ideal de Deus no Éden e contra o espírito do Evangelho, mesmo que não haja um mandamento expresso contra a poligamia e a escravidão.

Segundo fato negado pelo pastor no vídeo: certas normas foram dadas apenas a uma situação local do povo de Deus. Igualmente acreditamos que não são válidas para hoje ordens como aquelas para o uso do véu na igreja (1 Coríntios 11:3-16), para as mulheres ficarem caladas na igreja (1 Coríntios 14:34-35) ou para nos saudarmos com “ósculo santo” (Romanos 16:16; 1 Coríntios 13:12; 16:20; 1 Tessalonicenses 5:26; 1 Pedro 5:14). Esse “ósculo santo” seria um beijo no rosto de saudação entre homens e entre mulheres, tal como é feito na Argentina ou na França. Apesar de estarem em diversas cartas do Novo Testamento, tais ordens não são princípios universais a serem seguidos por todos os crentes de todas as épocas e todas as culturas.

Em quinto lugar, chega a ser intelectualmente desonesto e blasfemo à Palavra de Deus comparar um princípio moral, universal e explícito na Bíblia como a guarda do sábado com uma questão cultural, local e sem respaldo a favor ou contra nas Escrituras como a ordenação de mulheres, como faz o pastor desse vídeo. Além de ignorar princípios elementares de interpretação da Palavra de Deus, o pastor do vídeo ignora que os adventistas sempre fizeram a separação entre princípios e mandamentos de aplicação universal e ordens de aplicação restrita e cultural.

Por exemplo, os adventistas guardam o sábado conforme exigem os Dez Mandamentos (Êxodo 20:8-11), mas não apedrejamos nem condenamos quem acenda fogo nesse dia (Êxodo 35:3; Números 15:32-36) – a Bíblia manda fazer as duas coisas. Igualmente não deixamos de condenar o adultério (Êxodo 20:14) pelo fato de não apedrejarmos os adúlteros (Levítico 20:10) – a Bíblia ensina ambas as coisas. Também não deixamos de ensinar o dízimo aos membros em nossos estudos bíblicos (um princípio que cremos ser universal) apesar de a Bíblia descrever que o dízimo era entregue em 90% dos casos na forma de animais, vegetais e vinho (Levítico 27:30-33; Deuteronômio 12:17-18; 14:22-27; 2 Crônicas 31:4-7) levados ao sacerdote no templo – uma ordem local e temporal.

Sexto, é completamente desonesta a forma como o pastor do vídeo associa um possível voto a favor da ordenação de mulheres ao risco de uma futura ordenação de pastores gays ou pastoras lésbicas. Primeiro, não há relação alguma entre uma coisa e outra, como se uma levasse necessaria ou inevitavelmente à outra. Numa lista de 21 igrejas citadas por nome num site contra a ordenação de mulheres, podem ser contadas 11 igrejas que ordenam mulheres, mas não ordenam pastores gays ou pastoras lésbicas.

Além disso, podemos mencionar no mesmo caminho de ordenar mulheres mas não GLBT as igrejas batistas da Alemanha e da Suíça (Bund Evangelisch-Freikirchlicher Gemeinden e Bund Schweizer Baptistengemeinden), bem como diversas igrejas batistas americanas filiadas à Southern Baptist Convention (algumas apenas), à American Baptist Churches USA, à North American Baptist Conference, à Alliance of Baptists, à Cooperative Baptist Fellowship (CBF) National Baptist Convention e à Progressive National Baptist Convention. Sem contar diversas igrejas como as menonitas, morávias, presbiterianas (exceto a PCUSA), pentecostais e reformadas nos EUA e Europa que também ordenam mulheres sem ordenar ou querer ordenar pastores gays ou pastoras lésbicas.
Para encerrar esse ponto e partir para a conclusão, lembro que a IASD ordena pastores homens e pastoras mulheres em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China sem defender ou discutir a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.

Finalmente, a IASD possui doutrinas bíblicas fundamentais estabelecidas (entre as 28) sobre matrimônio e família e sobre a criação. Além de uma declaração oficial clara contra a prática do homossexualismo. Isso não acontece com as denominações citadas no vídeo que apoiam/defendem a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.
Ao contrário dos anglicanos, luteranos evangélicos, episcopais e metodistas unidos dos EUA, citados no vídeo, os adventistas do sétimo dia não somos uma denominação com um histórico de décadas de liberalismo teológico nem menosprezo ao método gramático-histórico – a abordagem adotada por nós e outras igrejas conservadoras na interpretação da Bíblia. (As denominacões citadas no vídeo e abertas a pastores gays e lésbicas usam o método histórico-crítico.)

As Divisões Norte-Americana e Trans-Europeia citadas no vídeo não reinventaram a roda ao fazer sua interpretação pró-ordenação, nem estão se desviando da interpretação correta ou tradicional da IASD. Elas apenas estão seguindo o método de estudo e interpretação das Escrituras segundo a declaração aprovada e votada pela Comissão Executiva da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, na sessão do Concílio Anual no Rio de Janeiro, Brasil, 12 de outubro de 1986.

O que está em jogo na votação a favor ou contra a ordenação de mulheres não é uma divisão entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Querem os Adventistas Rebeldes, mas entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Defende nosso Costume e Tradição Humana.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Deus estava lá no inferno

Cartaz do filme, (EUA/Inglaterra, 1957)
por William G. Johnsson*

Há muitos anos, um filme famoso narrou a história de um excêntrico coronel britânico que comandou as suas tropas, todos prisioneiros dos japoneses, na construção de uma ponte ferroviária na Tailândia. O filme recebeu o título de A Ponte do Rio Kwai.

Tanto o filme quanto o livro que o inspirou foram baseados em fatos reais, mas se desviaram um pouco da realidade. O que de fato aconteceu em Chungkai, o campo de concentração localizado na fronteira da Tailândia, é mais emocionante e mais maravilhoso do que qualquer coisa retratada no filme. Ernest Gordon, oficial escocês que esteve lá e sobreviveu contrariando todas as expectativas, escreveu o verdadeiro relato dessa história em Through the Valley of the Kwai [Pelo Vale do Kwai].

Com a queda de Cingapura na Segunda Guerra Mundial, o exército japonês assumia o controle do sudeste da Ásia com muita rapidez. Estavam tomando conta da Nova Guiné e prestes a controlar a Austrália. Um prêmio ainda maior chamava a atenção na Índia, mas a marinha britânica patrulhava os mares. Uma estrada de ferro ligava o norte de Cingapura à fronteira tailandesa. Outra ligava a Birmânia à Índia. Se pudessem ligar Chungkai à Birmânia, seriam capazes de atacar a Índia por terra.

Os prisioneiros de guerra foram forçados a trabalhar a fim de traçar uma rota pela selva asiática. Descalços e vestindo apenas tangas, os prisioneiros trabalhavam das cinco e meia da manhã até tarde da noite num calor de 48 ºC. Os guardas gritavam a todo instante: “Mais rápido! Mais rápido!” Com os pés cortados e machucados, insetos subindo-lhes pelo corpo suado, os prisioneiros trabalhavam arduamente para concluir a tarefa. A porção de comida era insuficiente. Os homens caíam ao chão e morriam como se fossem mosquitos devido à sede, exaustão, doenças e fome.

A estrada de ferro levou um ano para ser terminada. Seus 402 quilômetros de extensão ceifaram mais de 100.000 vidas. À medida que os prisioneiros adoeciam, eram enviados de volta para Chungkai. O campo de concentração, que passou a abrigar aproximadamente 8.000 homens famintos e doentes, se tornou um inferno na Terra, local em que o egoísmo, o ódio e o medo imperavam.

Se alguma vez o pecado aumentou, ele aumentou em Chungkai. Mas a graça de Deus começou a penetrar aquele buraco do inferno devagar e de forma imperceptível, até que, onde aumentou o pecado, passou a transbordar a graça.
"A Lei foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça." – Romanos 5:20, NVI
Livro com o relato de Ernest Gordon
Ernest Gordon, que narrou a história do milagre às margens do rio Kwai, fez sua cama no inferno. Já sofrendo de disenteria, malária, infecção sanguínea e beribéri, contraiu também difteria, o que significava que não podia mais trabalhar na estrada de ferro. Gordon foi enviado para a Casa da Morte, apelido que o terrível hospital do campo de concentração recebeu. Localizado num oceano de lama no ponto mais baixo do campo, o “hospital” estava repleto de centenas de homens à beira da morte, cobertos da cabeça aos pés de moscas, percevejos e piolhos. Parecia mais um cemitério fétido de seres humanos desesperados em estado de putrefação.

Alguns amigos o procuraram, o encontraram entre os corpos em deterioração e o carregaram numa maca para uma pequena cabana que haviam construído. Banharam-no, limparam as feridas de suas pernas e fizeram-lhe curativos. Prepararam comida para ele e lhe aplicaram massagens. Pouco a pouco, a sensibilidade dos membros de Gordon começou a voltar. Contrariando todas as expectativas, ele sobreviveu.

Essa demonstração de compaixão fez parte de um fenômeno muito mais amplo que ocorreu no campo de concentração. O que estava acontecendo em Chungkai? Algumas histórias começaram a circular sobre soldados tementes a Jesus Cristo que haviam sacrificado a vida em atos de abnegação, heroísmo, fé e amor. Ouviu-se, por exemplo, a respeito de um homem grande e forte que de repente desmaiou e morreu de fome porque havia dado suas porções de comida para um amigo doente, que se recuperou. Outro soldado assumiu a culpa do sumiço de uma pá e foi espancado até a morte. (Naquela noite, ao serem contadas as ferramentas, não faltava nenhuma.) E muitos outros relatos assim.

Ernest Gordon (1916 – 2002),
ex-capelão presbiteriano
da Universidade de Princeton.
Essas demonstrações da graça contagiaram o campo. Os prisioneiros trocaram a lei da selva pela lei de Cristo. Começaram a ajudar uns aos outros. Começaram a confeccionar braços e pernas artificiais, a preparar remédios com as plantas medicinais da selva. Passaram a realizar funerais em vez de queimar os mortos empilhados uns sobre os outros. Construíram uma capela, faziam cultos e realizavam batismos. Deram início a uma universidade na selva e frequentavam às aulas. Formaram uma orquestra. Voltaram a sorrir, a dar risada e a cantar.

Ernest Gordon se tornou cristão. Ao fim da guerra, estudou teologia e, mais tarde, se tornou o capelão da Universidade de Princeton. Grande é o poder do pecado, mas a graça é ainda mais poderosa.


*William G. Johnsson, teólogo e escritor, foi o editor das revistas Adventist Review e Adventist World. O texto acima foi compilado e extraído do seu trabalho Jesus, a Preciosa Graça, o livro de meditações diárias para 2012 da editora Casa Publicadora Brasileira

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Você conhece as 95 Teses de Lutero?

Martinho Lutero (1483-1546)
Há exatos 494 anos, em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha.  
Para levantar fundos para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, o Papa Leão X autorizou e mandou oferecer para venda indulgências, que eram declarações de perdão de pecados. Tetzel era o oficial designado para dirigir a venda das indulgências na Alemanha e, com grande desfaçatez, repetia as mais deslumbrantes falsidades e relatava histórias maravilhosas para enganar um povo ignorante, crédulo e supersticioso. Segundo o historiador da Reforma D'Aubigné, quando Tetzel chegava a uma cidade, um mensageiro o precedia anunciando: "A graça de Deus e do santo padre [o Papa] está às vossas portas!".  
Ao subir ao púlpito nas igrejas e nas praças, ele exaltava as indulgências como o mais precioso dom de Deus, declarando que todos os pecados que o comprador mais tarde quisesse cometer seriam perdoados e que "mesmo o arrependimento não é necessário" (D'Aubigné). Segundo outro historiador,  Hagenbach, o oficial designado para a Alemanha assegurava aos ouvintes que as indulgências tinham poder para salvar não somente os vivos mas também os mortos. E que, no mesmo instante em que o dinheiro chegava ao fundo de sua caixa, a alma pela qual era paga a indulgência escaparia do purgatório, ingressando no Céu.  
O monge agostiniano Lutero, ainda católico romano bastante fiel à sua igreja, ficou horrorizado com tais   blasfemas declarações e pregava do púlpito que apenas o arrependimento para com Deus e a fé em Cristo poderiam salvar o pecador. Ele aconselhava o povo a não comprar indulgências, mas a olhar com fé para um Redentor crucificado. Como mesmo assim Tetzel prosseguia com o comércio de indulgências, Lutero decidiu fazer um protesto mais eficaz contra tais abusos. Estava se aproximando a Festa de Todos os Santos (31 de outubro), em que a Igreja do Castelo de Wittenberg recebia multidões para contemplar relíquias e confessar os pecados. Na véspera, Lutero, reunindo-se às multidões que já seguiam para a igreja, afixou na porta um papel com 95 teses contra a doutrina das indulgências. Era esse o modo usual de se anunciar uma disputa, instituição regular da vida universitária e não havia nada de dramático no ato.  
O documento atraiu a atenção geral. As teses eram lidas e relidas, e repetidas de todos os lados, havendo grande alvoroço na universidade em que Lutero ensinava e na cidade inteira. Nelas, o monge alemão mostrava que o poder de conceder o perdão do pecado e livrar de sua pena jamais tinha sido confiado ao papa ou a qualquer outro homem; que o evangelho de Cristo é o mais valioso tesouro da igreja, e que a graça de Deus, nele revelada, é livremente concedida a todos os que a buscam com arrependimento e fé. As questões propostas por Lutero em poucos dias se espalharam por toda a Alemanha, e em poucas semanas repercutiram em praticamente toda a Europa cristã.  
Para comemorar o aniversário da Reforma, o Portal Escrivão Caminha traz abaixo a íntegra das 95 Teses de Lutero para que você também celebre a graça de Deus livremente oferecida em Jesus, resgatada pelo monge alemão no século XVI e proclamada nas igrejas protestantes mundo afora. – Walter Mendes


Cena do filme Lutero.
"Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


1 Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mateus 4:17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4 Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6 O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7 Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8 Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9 Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11 Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12 Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13 Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14 Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35 Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40 A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46 Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49 Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50 Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto - como é seu dever - a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55 A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57 É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60 É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63 Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64 Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65 Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Coríntios 12.

79 É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81 Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

82 Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão insignificante?

83 Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

85 Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais - de fato e por desuso já há muito revogados e mortos - ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que não suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91 Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz!

93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!

94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95 e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

1517 A.D."
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Tua Palavra - O Evangelho em Canção

por Walter Mendes*


O segundo grande princípio da Reforma que pretendemos abordar é o papel central e autoritativo da Bíblia na fé protestante – o SOLA SCRIPTURA, que significa "SOMENTE A BÍBLIA" em latim. Os católicos acreditam que a Palavra de Deus está contida tanto na Bíblia em si quanto na Tradição, e que apenas o Magistério da Igreja (isto é, os bispos em comunhão com o Papa) podem interpretá-la de forma autêntica. Na prática, isso significa que a Bíblia não é o fundamento primário nem o árbitro final para estabelecer as doutrinas na Igreja Católica, bem como que que os leigos (os que não são sacerdotes) não podem nem sabem interpretar a Bíblia devidamente.

O protestante, por outro lado, defende a Bíblia como única regra de fé e prática. Isso quer dizer que a Bíblia É – não contém – a Palavra de Deus, e que todo o conhecimento necessário para a salvação e a santidade é encontrado em suas páginas. Assim, o Sola Scriptura exige como válidas apenas as doutrinas que são encontradas diretamente nas Escrituras com um claro "Assim diz o Senhor" ou encontradas indiretamente nela – usando dedução lógica válida ou raciocínio dedutivo válido a partir das Escrituras. 

O Sola Scriptura não é uma negação de outras autoridades na vida cristã da Igreja e dos crentes. Dependendo da denominação protestante, outras fontes de autoridade religiosa – como a Tradição, a experiência e a razão – podem ser utilizadas para apoiar e formular este ou aquele ponto de doutrina ou prática. Mas o Sola Scriptura, adotado em todo o protestantismo, exige que todas as outras autoridades estejam subordinadas à Bíblia e devam ser corrigidas por ela. 

Os protestantes defendem esse princípio pelas seguintes razões:
  • Os escritores bíblicos viam as Escrituras como situando-se numa categoria única, distinta e separada de toda a literatura restante. Eles se referiram à Bíblia como as "Sagradas Escrituras" (Romanos 1:2), "sagradas letras" (2 Timóteo 3:15) e "oráculos de Deus" (Romanos 3:2; Hebreus 5:12).  O apóstolo Paulo que "toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino" (2 Timóteo 3:16). A palavra grega theopneustos, aqui traduzida como "inspirada", significa literalmente "soprada por Deus". Deus "inspirou" a verdade nas mentes dos homens, os quais expressaram estas mesmas verdades em suas próprias palavras, que foram consolidadas nas Escrituras. E, no sentido de que Ele inspirou os escritores, Deus é o Autor da Bíblia.   
  • Deus o Espírito Santo é apontado como a fonte e orientação dos escritos bíblicos: "Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo" (2 Pedro 1:20-21, NVI). Apesar de Ele tenha usado diferentes maneiras para Se revelar aos 40 escritores bíblicos: observação pessoal, informação oral, fontes escritas ou revelação direta. De forma significativa, podemos apontar os casos de Davi e de Paulo para mostrar o papel da inspiração divina na produção, respectivamente, do Antigo e do Novo Testamentos. Davi declarou: "O Espírito do Senhor fala por meu intermédio, e a Sua palavra está na minha língua" (2 Samuel 23:2) e Paulo, escrevendo aos crentes de Tessalônica, afirmou: "tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus" (1 Tessalonicenses 2:13). Por vezes a figura do autor humano desaparece completamente, e apenas o verdadeiro autor – o Santo Espírito – passa a falar: "Assim, pois, como diz o Espírito Santo"; "querendo com isto dar a entender o Espírito Santo..."; "Ora, o Espírito afirma expressamente que..."(Hebreus 3:7; 9:8; 1 Timóteo 4:1).  
  • O Salvador Jesus sempre utilizava a Bíblia como autoridade final, quer estivesse sendo tentado por Satanás, quer estivesse debatendo-Se com os oponentes. "Está escrito", "Que está escrito na lei?", "Nunca lestes nas Escrituras?" foram expressões que Ele utilizava tanto com propósitos defensivos quanto de ataque (Mateus 4:4,7,10; 21:42; Marcos 12:10,26; Lucas 20:17). Ele situou a Bíblia acima das tradições e opiniões humanas, reprovando os líderes judeus pelo fato de eles se desviarem da autoridade das Escrituras (Marcos 7:7-9). Cristo aceitou sem qualquer reserva as Escrituras Sagradas como sendo a revelação autorizada da vontade de Deus em relação à raça humana, endossando tanto os livros em si quanto as histórias do Antigo Testamento (Mateus 23:34-35 e Lucas 24:25-27; Mateus 12:39-41; 19:4-6; 24:37-39; João 6:31-32). Finalmente, Ele nos convida para pesquisarmos as Escrituras, nos tornarmos familiarizados com Ele e alimentarmos de Sua Palavra: "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" (João 5:39) e "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mateus 4:4).
A fé protestante celebra e proclama a Bíblia como fundamento e tribunal de todas as doutrinas e práticas, como o Livro em que Deus revela Seu plano para nós e testemunha Sua ação e interação com a raça humana. Para esse princípio escolhi 2 canções simples, mas ultra-conhecidas entre os evangélicos, que ilustram bem o lugar da Bíblia na devoção protestante: 

Michael W. Smith e Amy Grant - Thy Word (Tua Palavra)

Aline Barros - Tua Palavra

Ambas as músicas usam os belos versos do Salmo 119:105 ("Lâmpada para os meus pés é a Tua Palavra, e luz para os meus caminhos"). A Bíblia é um livro sagrado (isto é,  separado para fins religiosos, não sendo profano ou comum), mas não é um talismã doméstico, não é um código de regras, nem livro de auto-ajuda. Seu poder, sua autoridade e sua capacidade de inspirar vêm do Seu autor - um Deus amoroso que Se interessa pelo nosso bem-estar ao ponto de ter escrito essa carta para nós. E eu o convido a você também ler, estudar e aplicar a Bíblia em sua vida. Mas acima de tudo a entregar sua vida ao Autor da Bíblia e a amá-Lo cada vez mais ao ouvir Sua voz em Sua Palavra. Esse é o Evangelho em canção.

Leia também: In Christ Alone – O Evangelho em Canção

*Walter Mendes é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.

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sábado, 8 de outubro de 2011

In Christ Alone - O Evangelho em Canção

*Walter Mendes 


Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero publicou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Naquele documento o reformador alemão protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica, propondo uma volta ao ensino puro e simples da Palavra de Deus. Como resultado, nasceu o movimento protestante: um conjunto de igrejas e denominações cristãs que pregam a justificação pela graça mediante a fé somente, o sacerdócio de todos os crentes e a Bíblia como única regra em matéria de fé e prática. Para comemorar o Aniversário da Reforma,  o Portal Escrivão Caminha traz este mês algumas canções evangélicas centradas nos dois grandes princípios da fé protestante.

O primeiro princípio que queremos abordar é o lugar privilegiado e exclusivo que Jesus ocupa na fé protestante – o SOLUS CHRISTUS, que significa "SOMENTE CRISTO" em latim. Os católicos confiam na suposta intercessão e méritos de Maria, mãe de Jesus, dos inumeráveis santos, além do próprio Jesus para ajudar na sua salvação eterna no mundo vindouro e na sua caminhada neste mundo presente.


O protestante, por outro lado, confia somente em Cristo, pois a Bíblia ensina que:


  • Jesus é o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (João 1:29 cf Isaías 53:4-7); 
  • Jesus é o dom de Deus para nossa salvação – "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16);
  • Jesus é o ÚNICO CAMINHO para irmos a Deus, segundo Ele Mesmo disse – "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim" (João 14:6, NVI);
  • Jesus é o ÚNICO NOME a ser invocado para conseguir a salvação – "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (Atos 4:12);
  • Jesus é o ÚNICO MEDIADOR que intercede junto Deus em nosso favor – "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus" (1 Timóteo 2:5, NVI);
  • Jesus é o ÚNICO ADVOGADO disponível para apresentar nossas causas a Deus – "Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo" (1 João 2:1).


A fé protestante proclama que Jesus é único, suficiente e perfeito em Sua pessoa e em Sua obra para nossa salvação no mundo vindouro e para nosso bem-estar neste mundo presente, conforme podemos ver nas palavras da música "In Christ Alone" (Só em Jesus, numa tradução livre):

Avalon – In Christ Alone


In Christ Alone,
Letra: Stuart Townend e Keith Getty
Somente em Cristo,
Tradução livre: Walter Mendes
In Christ alone my hope is found
He is my light, my strength, my song
This Cornerstone, this solid ground
Firm through the fiercest drought and storm
What heights of love, what depths of peace
When fears are stilled, when strivings cease
My Comforter, my All in All
Here in the love of Christ I stand

In Christ alone, who took on flesh
Fullness of God in helpless babe
This gift of love and righteousness
Scorned by the ones He came to save
'Til on that cross as Jesus died
The wrath of God was satisfied
For every sin on Him was laid
Here in the death of Christ I live

There in the ground His body lay
Light of the world by darkness slain
Then bursting forth in glorious Day
Up from the grave He rose again
And as He stands in victory
Sin's curse has lost its grip on me
For I am His and He is mine
Bought with the precious blood of Christ

No guilt in life, no fear in death
This is the power of Christ in me
From life's first cry to final breath
Jesus commands my destiny
No power of hell, no scheme of man
Can ever pluck me from His hand
'til He returns or calls me home
Here in the power of Christ I'll stand
Somente em Cristo está minha esperança
Ele é minha luz, minha força, minha canção
Esta Pedra de Esquina, este sólido chão
Firme em meio à mais feroz seca ou tempestade
Que elevado amor, que profunda paz
Quando os medos param, quando os esforços cessam
Meu Confortador, meu Tudo em Tudo
Firme no amor de Cristo eu permaneço

Somente em Cristo, que Se encarnou
O pleno Deus num indefeso bebê
Este dom do amor e da justiça
Desprezado por aqueles a quem veio salvar
Até naquela cruz enquanto Jesus morria
A ira de Deus foi satisfeita
Por todo pecado que sobre Ele foi colocado
Firme na morte de Cristo, eu vivo

Naquele chão Seu corpo está
Luz do mundo morta pela escuridão
Mas ressurgiu no glorioso Dia
Da tumba Ele Se reergueu
E enquanto Ele continuar vencedor
A maldição do pecado não vai me derrotar
Pois eu sou Seu e Ele é meu
Comprado com o precioso sangue de Cristo

Vivo sem culpa, morrerei sem medo
Este é o poder de Cristo em mim
Do primeiro choro ao último suspiro
Jesus é o Senhor do meu destino
Nem o poder do inferno, nem a trama dos homens
Jamais poderão me arrancar das Suas mãos
Até que Ele volte ou me chame ao Lar
Firme no poder de Cristo permanecerei

Essa é uma canção americana escrita em 2002 por Stuart Townend e Keith Getty durante um evento de adoração e apresenta em belíssimos versos a vida, morte e ressurreição do Senhor Jesus, bem como os benefícios trazidos pelo Salvador à vida dos que creem em Seu nome.


Você pode confiar SOMENTE EM CRISTO – em Sua vida sem pecado, Sua morte na cruz, Sua ressurreição ao terceiro dia e Sua intercessão perante Deus. Este é o Evangelho em canção.


Leia também: Tua Palavra – O Evangelho em Canção

*Walter Mendes é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Não confunda o evangelho com a política

por Walter Dos Santos* 

Quando o pastor da 1ª Igreja Batista de Curitiba Paschoal Piragibe Jr. ligou a tese da "iniquidade institucionalizada" com a aprovação legal do aborto e do casamento gay, muitos cristãos evangélicos progressistas levantaram-se contra essa associação. Segundo vários desses oponentes, o pastor foi omisso e limitado ao não reconhecer pecados profundamente enraizados no Brasil como a questão previdenciária, a criação da CPMF, o sistema público de saúde, o acúmulo de terras etc. 

Como podemos identificar facilmente, tais críticos afirmam que tanto essas questões sociais citadas quanto aqueles temas morais listadas pelo pastor contribuem para a iniquidade em nosso país. Neste artigo pretendemos apresentar um breve panorama do cristianismo engajado por trás dessa visão e analisar o ensino bíblico sobre a responsabilidade social da Igreja. 

Evangelho Social e Teologia da Prosperidade 


As críticas levantadas contra o pronunciamento do Pr. Piragibe Jr. por esse setor da igreja evangélica brasileira refletem o ideário do Evangelho Social, movimento protestante surgido e desenvolvido nos Estados Unidos de 1880 a 1930. Devido à crise urbana ocasionada pelo crescimento econômico pós Guerra Civil, muitos trabalhadores e imigrantes viviam nos cortiços das grandes cidades e sofriam uma grave situação de abandono e exclusão. Em resposta, vários crentes americanos moveram compaixão e esforços em favor deles e formularam conceitos como “a implantação do reino de Deus na Terra”, a importância de uma “sociedade redimida” e o papel da ação social como parte da missão da Igreja. 

O pastor e professor de seminário batista Walter Rauschenbusch (1861-1918) foi o principal articulador teórico do movimento, com livros como O Cristianismo e a Crise Social, Cristianizando a Ordem Social e Uma Teologia para o Evangelho Social. Mas o Evangelho Social alcançou popularidade e expansão sem precedentes com a publicação do livro Em Seus Passos que Faria Jesus? (1897), best-seller escrito pelo pastor congregacional Charles Sheldon. Na obra, um pastor vive uma vida confortável e sem contratempos até o dia em que um homem pobre e necessitado aparece na sua igreja e o leva a rever seus valores, modo de vida e prioridades a partir da questão "O que Jesus faria?". A partir disso, decide propor aos fiéis de sua igreja que se comprometam durante um ano a não fazer nada sem antes perguntar o que Jesus faria na mesma situação. A experiência traz reavivamento e alegria a vários dos paroquianos, bem como renúncias pessoais, conflitos de interesse e choques sociais ao aplicarem o compromisso. 

Nas fileiras católicas, por outro lado, encontraremos a Teologia da Libertação, desenvolvida na América Latina em meados do século 20. Como a região enfrentava um período de grandes tensões políticas, injustiças econômicas e exclusão social, os pensadores católicos articularam uma nova teologia centrada no conceito bíblico de Deus como libertador. Entre as ênfases da Teologia da Libertação podemos citar a visão do reino de Deus numa perspectiva de libertação política e social neste mundo e um forte menosprezo à reflexão e prática cristãs tradicionais devido a seu suposto caráter "alienante" e reacionário.

Igualmente devemos apontar o uso nesse movimento de categorias do pensamento marxista para entender as mazelas da América Latina e o apoio ora ímplicito ora escancarado a movimentos esquerdistas radicais no continente. Embora tenha havido pensadores protestantes na sua formulação, a Teologia da Libertação foi uma iniciativa predominantemente católico-romana. Contudo, setores evangélicos formularam uma alternativa à Teologia da Libertação no conceito de “missão integral” – em que a igreja inclui a ação social como aspecto indispensável de seus esforços missionários. 

Atos não foi um Woodstock comunista 

De onde vêm as bases do discurso dos cristãos que lutam por justiça social? Além do ministério de Cristo em favor dos pobres, os adeptos do cristianismo engajado recorrem ao modelo da igreja primitiva e ao discurso social dos profetas. Alguns leem a vida em comunidade e partilha de bens apresentada em At 2:44-47 e gostam de idealizar a Igreja Primitiva como uma sociedade alternativa, “metade-hippie” e “metade-crente”. Muitos vão ao extremo de afirmar que essa foi uma experiência socialista/marxista na História da Igreja. Nada mais distante dos fatos. A comunidade cristã primeva era tão complexa em sua dinâmica interna quanto a igreja moderna: extremamente liberal para os conservadores, extremamente conservadora para os liberais. Peço a licença de citar dois parágrafos do livro Cristianismo Puro e Simples, de C.S. Lewis, pág. 31:
"Do mesmo modo, o Novo Testamento, sem entrar em detalhes, nos pinta um quadro bastante claro do que seria uma sociedade plenamente cristã. Talvez exija de nós mais do que estamos dispostos a dar. Informa-nos que, nessa sociedade, não há lugar para parasitas ou passageiros clandestinos: aquele que não trabalhar não deve comer. Cada qual deve trabalhar com suas próprias mãos e, mais ainda, o trabalho de cada qual deve dar frutos bons: não se devem produzir artigos tolos e supérfluos, nem, muito menos, uma publicidade ainda mais tola para nos persuadir a adquiri-los. Não há lugar para a ostentação, pata a fanfarronice nem para quem queira empinar o nariz. Nesse sentido, uma sociedade crista seria o que se chama hoje em dia "de esquerda". 
"Por outro lado, ela insiste na obediência — na obediência (acompanhada de sinais exteriores de reverência) de todos nós para com os magistrados legitimamente constituídos, dos filhos para com os pais e (acho que esta parte não será muito popular) das esposas para com os maridos. (...) Se existisse uma sociedade assim e nós a visitássemos, creio que sairíamos de lá com uma impressão curiosa. Teríamos a sensação de que sua vida econômica seria bastante socialista e, nesse sentido, "avançada", mas sua vida familiar e seu código de boas maneiras seriam, ao contrário, bastante antiquados — talvez até cerimoniosos e aristocráticos. Cada um de nós apreciaria um aspecto dela, mas poucos a apreciariam por inteiro. Isso é o que se deve esperar de um cristianismo como projeto integral para o mecanismo da sociedade humana."
O Antigo Israel não é a Igreja 

Outra pretensa base para os adeptos e simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Libertação é o discurso social dos profetas do Antigo Testamento contra a acumulação de terras, a justiça corrompida e a opressão social. Mas essa leitura ignora completamente o contexto histórico e o propósito original das mensagens dos profetas do do Antigo Testamento. 

Primeiramente, o Antigo Israel não pode ser confundido com a Igreja. Os israelitas eram um povo nacional distinto que vivia sob uma teocracia, com instituições e leis civis direta ou indiretamente apontadas por Deus na lei mosaica. Quando os profetas condenavam os abusos sociais do povo eleito, eles condenavam desvios de uma “constituição” outorgada por Deus e entregue a governantes, juízes e sacerdotes responsáveis por fazer cumpri-la. 

O Senhor Jeová havia concedido à nação israelita tanto os mandamentos contra o adultério e assassinato (morais) quanto as leis contra o acúmulo de terras e a opressão do estrangeiro e do órfão (sociais). Quebrar tanto estas quanto aquelas era pecado, pois constituía rebelião contra uma ordem moral e social expressamente revelada por Deus. Não é este o caso dos cristãos do Novo Testamento em diante, um grupo multicultural e multi-étnico que vive em regimes políticos e sociais os mais diferentes, com governo, instituições e leis criados sem uma revelação direta da parte de Deus. 

Dois fatos comprovam essa tese, retirando o embasamento dos cristãos modernos que se apoiam no discurso social do Antigo Testamento. Primeiro, os profetas condenavam tanto os crimes sociais quanto os morais do povo judeu, mas apenas os desvios morais dos povos pagãos ao redor de Israel. Nenhum profeta maior ou menor condena a acumulação de terras, a justiça corrompida e a opressão social dos assírios, egípcios, babilônios ou filisteus. 

Segundo, o mesmo padrão de dupla moralidade se repete nas páginas do Novo Testamento. Paulo condena a devassidão moral de pagãos, judeus e cristãos igualmente (Rm 1-3; 1Co 5, 10); mas propõe normas de ética social apenas à comunidade dos crentes (Rm 12-14; 1Co 6-8). Tiago é, sem sombra de dúvidas, o escritor com o discurso social mais enfático do Novo Testamento. Suas reprovações, porém, contra a discriminação social (Tg 2) e o enriquecimento ilícito pela opressão dos trabalhadores são dirigidas aos crentes em Jesus (Tg 5). Pedro ordena a todos os crentes que se submetam às autoridades e, fazendo o bem, suportem as provações e calem os adversários pela prática do bem (1Pe 2-3). 

Quatro verdades esquecidas 

Isso significa então que a Igreja deve ignorar o sofrimento e a desigualdade no mundo, sem nada fazer para melhorar a condição das pessoas? Não, de maneira nenhuma! Os defensores e simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Libertação incluem cristãos sinceros e comprometidos com a melhoria e ascensão das classes menos favorecidas. Contudo, o ensino de ambos os Testamentos apresenta conceitos e ênfases diferentes das formuladas pelos assim chamados Evangelho Social e Teologia da Libertação.

Primeiramente, a Palavra de Deus coloca uma forte ênfase nas questões morais e não nas sociais. Usando jargões esquerdistas, podemos atrever a dizer que ela é bastante "direitista, conservadora, burguesa, retrógrada e reacionária", para o desgosto de muitos dos partidários do Evangelho Social e da Teologia da Libertação – dentro e fora da Igreja. Com isso não queremos dizer que a mensagem bíblica é elitista ou que defenda as propostas daqueles que se encaixam nesses rótulos. Apenas queremos enfatizar que os valores bíblicos identificam-se mais com os ditos valores burgueses do que com os valores normalmente defendidos por socialistas e comunistas.

Se lermos ainda que superficialmente os Dez Mandamentos (Ex 20), o Sermão do Monte (Mt 5), a profecia sobre a condição social nos últimos dias (2Tm 3:1-9) e as listas de vícios no Novo Testamento (1Co 6:9-11; Gl 5:19-21; Ap 22:14-15), observaremos rapidamente que a Lei Moral de Deus condena explicita, demorada e repetidamente os crimes e pecados contra a honestidade, a vida humana, a propriedade privada, a moderação pessoal, a ordem social e o casamento heterosssexual.

Em segundo lugar, a Bíblia é enfática ao apresentar a natureza má e pecaminosa do ser humano, não necessariamente do sistema sócio-político em que ele vive (Jó 14:4; Pv 20:9; Sl 51:5; Is 64:6; Je 17:9; Mt 15:19; Rm 7:14-20; 8:5-8). Desta maneira, qualquer tentativa de melhorar as condições de uma determinada sociedade precisa passar necessariamente pelo chamado individual ao arrependimento (At 3:19; 5:30-31; Rm 2:4) e conversão a Jesus Cristo (Ez 18:30-32; At 17:30-31). A menos que haja a regeneração sobrenatural do coração por meio da reconciliação com Deus em Cristo (Jo 3:3-8; 8:34-36; Ef 2:1-5; 2Co 5:17), qualquer tentativa de eliminar a o egoísmo, a corrupção, a desigualdade e o conflito no interior de uma sociedade será provisória e inútil.

Terceiro, a ação de Jesus e Seus apóstolos contraria radicalmente o plano de trabalho proposto pelos simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Prosperidade. Na tentativa de implementar o Reino de Deus na Terra anunciado pelo Salvador, os defensores de tais propostas apresentam um discurso de mobilização sócio-política em defesa dos excluídos, combate ao sistema institucional opressor e denúncia das injustiças sociais. Escravidão, idolatria, jogos violentos e sanguinários, opressão política, ganância, impostos abusivos, execucões em massa em caso de rebeliões e golpes de Estado eram abusos frequentes dentro das fronteiras do Império Romano. Contudo, nem Jesus nem os Doze empenharam bandeiras, fizeram discursos ou promoveram mobilizações contra as injustiças sociais do Império Romano, embora elas existissem – e existissem numa proporção alarmante. 

Na parábola dos bodes e ovelhas, Jesus elogiou e prometeu entrada no Céu aos que discretamente visitavam os presos, alimentavam os famintos e vestiam os nus (Mt 25:31-46), não aos que usavam a voz em favor deles. Jesus nunca fez nenhuma mobilização ou propôs leis em favor dos excluídos, nem das vítimas dos impostos abusivos dos publicanos, do sistema de saúde precário da Palestina ou da dominação estrangeira feita por Roma. 

Isso não significa, é claro, que a Igreja no Novo Testamento não tivesse preocupação com os infortúnios dos mais frágeis e menos favorecidos na sociedade. Mas isso nos leva ao último ponto de nossa revisão sobre o ensino da Palavra de Deus a esse respeito: em vez de elaborar e proclamar um discurso social, a Igreja é chamada a oferecer uma ação alternativa ao modelo social externo. Os evangelhos mostram que Jesus recebeu, chamou, curou, abençoou e elogiou viúvas e crianças pobres, estrangeiros discriminados e pescadores desassistidos. E mandou Seus seguidores fazerem o mesmo. Ele ilustrou a natureza da verdadeira religião cristã ao contar a parábola do bom samaritano (Lc 10:30-37): não consiste em sistemas, credos ou ritos, mas no cumprimento de atos de amor e genuína bondade, sem distinção de raça, classe social ou confissão religiosa. 

Com ensinos como esse, a comunidade cristã primeva lutou contra a injustiça social no Império Romano durante e depois dos tempos do Novo Testamento diferentemente do que os cristãos de “direita”, “esquerda” ou “centro” fazem hoje. Sem muita teoria e com muita prática. Os primeiros cristãos ofereciam um modelo de sociedade em que os excluídos eram aceitos e bem-recebidos, as diferenças sociais eram apagadas nas interações da comunidade interna e onde escravos e senhores eram irmãos na vida da Igreja. Mais tarde, foram os cristãos que fundaram os primeiros orfanatos, lares para idosos e hospitais no mundo ocidental por valorizarem e acolherem os membros mais frágeis da sociedade. 

O Reino de Deus não é deste mundo 

Voltando ao caso do Pr. Piragibe Jr., ele tem a Palavra de Deus a seu favor ao defender como "iniquidade institucionalizada" a possível aprovação legal de questões morais contrárias à Lei de Deus revelada na Bíblia. A tarefa da Igreja é defender os valores atemporais e transnacionais ensinados na Palavra de Deus.

Verdade seja dita, nada impede que cristãos sinceros e consagrados lutem contra as mazelas e problemas sociais e políticos do país em que vivem, exercendo suas atividades para a glória de Deus e o bem do próximo. Mas ele ou ela deve ter a consciência de que a agenda sócio-política não deve nem pode ser confundida com a agenda do Reino de Deus. Não existe uma ação sócio-política cristã, nem um candidato do coração de Deus, muito menos uma causa partidária a serviço do evangelho. Da mesma maneira que não existe uma medicina cristã, ou um mecânico do coração de Deus ou uma ação contábil a serviço do evangelho. Portanto, não confunda o evangelho com a política.

*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.

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