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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sobre o resultado da ordenação de mulheres

Público presente na Conferência Geral 2015
por Walter Mendes

Foi votada ontem (8/07/2015) a ordenação de mulheres ao pastorado na 60a Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Por 1381 votos contra, 977 a favor e 5 abstenções, os delegados da Igreja mundial decidiram que as divisões (os escritórios continentais da denominação) não devem fazer provisões para que mulheres sejam ordenadas ao ministério pastoral.

Gostaria de tecer alguns comentários sobre os debates e votação de ontem neste post, mas preciso, antes de mais nada, fazer alguns esclarecimentos:

1. Não estou faltando com a ética ao fazer os comentários e observações abaixo, nem estou vazando quaisquer informações secretas. A assembleia da Conferência Geral é e sempre foi aberta ao público, além de estar sendo divulgada de forma oficial e ao vivo pela administração da Igreja.

2. As observações abaixo não têm relação  com minha opinião a favor da ordenação de mulheres. Se o voto final tivesse sido igual ao meu desejo, ainda assim as observações seriam as mesmas.

3. Creio na Igreja Adventista do Sétimo Dia como meu lar na família de Deus. Mas sou forçado a reconhecer o comentário de um pastor amigo meu: apenas um milagre de Deus vai terminar a pregação do evangelho para estarmos em pé no Advento do Rei.

NÃO FIZERAM A LIÇÃO DE CASA
Eu acompanhei ontem à tarde o período de discussões anterior à votação e foi algo deprimente. Os delegados mundiais claramente não leram nem estudaram o relatório de 120 páginas preparado pela comissão que estudou as 3 propostas (sim, não, cada divisão decide). Existe uma cultura da ignorância (mais importante é evangelizar, não perder tempo com estudos e discussões) muito perigosa em nossa Igreja. Um fato que provoca a existência de membros sem firmeza alguma no estudo e interpretação da Bíblia. E isso explica, em parte, a imagem do balde furado usada em um relatório desta Conferência: nós ganhamos muitos membros para a Igreja ano após ano, mas perdemos quase o mesmo número de adeptos pela apostasia ano após ano.

O (DES)CASO DA AMÉRICA DO SUL
Nenhum delegado ou oficial da Divisão Sul-Americana soltou uma palavra sequer sobre o assunto durante as discussões, tanto no plenário da Conferência Geral quanto em suas contas oficiais no Twitter. Algo bem diferente da representação de outros continentes e regiões, que participaram e contribuíram bastante (às vezes até demais) durante as discussões. Falta de domínio do inglês, falta de estudo da matéria, falta de colhões para ser fiel 'como a bússola o é ao polo'? Faltam explicações e respostas.

MACHO MAN
Não adianta negar: existe um ranço de machismo muito forte na nossa Igreja. Biologia, não teologia, parece dar automaticamente sabedoria e talento para cuidar das coisas de Deus. (Os argumentos ontem para o NÃO giraram em torno da ideia de que a mulher não precisa ser ordenada para fazer o que já faz...) Isso foi visível inclusive no microfone de discussões da Conferência Geral, em que se viu e ouviu dezenas e dezenas de homens e apenas 2 mulheres indo à frente para discutir a ordenação de mulheres...

MEDO E VERGONHA
Sério, tenho medo e vergonha de ser adventista muitas vezes. E ontem foi uma dessas ocasiões, quando percebi que a liderança da Igreja ao redor do mundo sabe tanto quanto ou até menos de Bíblia, Ellen G. White, história do Cristianismo, interpretação de texto, tolerância e empatia, argumentação e lógica do que os membros pobres e sem estudo de igrejas da periferia e interior. Vários delegados contra e favor da ordenação ameaçaram sutilmente ou não que abandonariam a Igreja se o voto final não fosse conforme o que eles desejavam.

PONTOS 'ALTOS' DO DEBATE
Um delegado americano a favor da ordenação falou na cara dura que a América do Norte tem menos membros, mas tem mais dízimo. Uma delegada contra a ordenação sugeriu que a discussão fosse aberta apenas para os que votariam. Um delegado contra disse que Jesus era a verdade e Ele nunca ordenou mulheres, esquecendo-se que o Salvador nunca ordenou ninguém, nem homens, nem mulheres. Um delegado a favor lembrou que os irmãos da África e da Ásia deveriam respeitar a cultura da América do Norte e Europa, pois a Igreja respeitou a cultura da África e da Ásia ao permitir e tolerar a poligamia - sim, poligamia - nesses lugares por razões culturais.

A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS?
A maioria votou e a questão foi decidida: "é a vontade do Senhor!". Doze espias votaram e 10 foram contra a tomada da Terra Prometida no tempo de Josué e Calebe. A nação inteira votou e escolheu um rei sobre Israel no tempo de Samuel. A multidão votou na sexta-feira e escolheu Barrabás em vez de Jesus. A história sagrada deveria mostrar que a decisão da maioria não significa necessariamente "a vontade de Deus".

PONTOS NOS IS
Que fique bem claro: o voto ontem não foi sobre mulheres pastoras (elas já existem e continuarão a existir), nem sobre ordenar mulheres (diaconisas já são ordenadas). O voto de ontem foi sobre ordenar mulheres pastoras (o que não existe ainda e não vai existir por alguns anos). A Igreja Adventista do Sétimo Dia faz diferença entre "pastores comissionados" (caso das mulheres) e "pastores ordenados" (caso dos homens, com o ritual da imposição de mãos).

VAI TER MULHERES PASTORAS SIM
A Igreja na América do Norte divulgou nota nesta madrugada em sua página do Facebook. Embora respeitem a decisão da Igreja mundial, eles vão continuar a ter mulheres pastoras e pretendem dobrar o número delas nos próximos anos para poder evangelizar seu território. Rebeldia? Não! A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem 320 pastoras nos EUA, Holanda, Alemanha e China e elas vão continuar existindo depois da Conferência Geral de 2015.
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terça-feira, 16 de junho de 2015

Argumentos equivocados no debate sobre ordenação de mulheres

por Pr. Matheus Cardoso


O Instituto de Pesquisa Bíblica da Igreja Adventista do Sétimo Dia preparou alguns materiais neutros apontando vários argumentos ilegítimos usados a favor e contra a ordenação de pastoras. {Um tema que será levado a debate e voto na 60º Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em San Antônio (no Texas, EUA), de 2 a 11 de julho de 2015.} Confira se você já não ouviu algum:

Argumentos equivocados CONTRA a ordenação


"A ordenação de mulheres [ou de pastoras; também ao longo de todo o texto] é inaceitável porque seus defensores usam formas de teologia liberal e abordagens críticas à Bíblia."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque estaria ligada ao apoio do estilo de vida homossexual."
"A ordenação de mulheres é inaceitável por causa da agenda feminista militante e do domínio das mulheres."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque, apesar de discutir o assunto por mais de 40 anos, a igreja nunca a aceitou oficialmente."
"A ordenação de mulheres é inaceitável porque se opõe à compreensão tradicional do papel e das funções das mulheres. Ela milita contra as relações familiares que são descritas [na Bíblia] em termos de submissão."
"A ordenação de mulheres é inaceitável por razões práticas. Novidades criam ansiedade e desestabilizam a situação."

Argumentos equivocados A FAVOR da ordenação


"A ordenação de mulheres é necessária por causa de um consenso cultural e da sociedade."
"A ordenação de mulheres é necessária porque, já que outras igrejas decidiram ordenar pastoras, os adventistas não devem ser os últimos a fazê-lo."
"A ordenação de mulheres é necessária porque os primeiros adventistas possivelmente apoiavam as mulheres no ministério e talvez tenham ordenado algumas mulheres."
"A ordenação de mulheres é necessária porque é antiético não ordenar mulheres."
"A ordenação de mulheres é necessária porque mudanças acontecem regularmente e essa é inevitável."
"A ordenação de mulheres é necessária por razões práticas."


"Em áreas nas quais a Bíblia não contém mandamentos explícitos, os adventistas NÃO aderem a nenhuma das seguintes abordagens: (1) o que as Escrituras não proíbem é permitido [...] e (2) o que as Escrituras não permitem é proibido."

"Parece que, depois que a Comissão de Estudo sobre a Teologia da Ordenação concluiu seus trabalhos, o debate alcançou um novo nível, que, em nossa opinião, é prejudicial à igreja. [...] Temos a impressão de que a discussão não mais é bíblico-teológica, mas que indivíduos e grupos estão criticando e condenando fortemente uns aos outros. Em teologia [assim como em filosofia], nos referimos a isso como argumentos ad hominem [o que é uma falácia, isto é, um argumento ilegítimo]. [...]

"O debate sobre ordenação não tem nada a ver com os ensinos bíblicos mais fundamentais. Esse tema não pertence ao núcleo das crenças adventistas. Portanto, é ainda mais preocupante [...] ver pessoas envolvidas no debate repelindo, ofendendo e condenando um ao outro porque estão em lados diferentes do debate sobre ordenação."

Leia os artigos completos:


"Some Wrong and Right Reasons in the Women’s Ordination Debate", de 
Ekkehardt Mueller.

"The Biblical Research Institute and the Issue of Women’s Ordination to the Pastoral Ministry"
de Ekkehardt Mueller.



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10 Grandes razões contra a ordenação de homens ao pastorado*

Ben Witherington, autor do blog que 
publicou este texto originalmente.
por Ben Witherington
traduzido por Walter Mendes**

(Uma salva de palmas a Jason Jackson*** por isso).

10. Lugar de homem é no quartel.

9. No caso de homens com filhos, seus deveres podem desviá-los das responsabilidades de pai.

8. A constituição física mostra que os homens estão mais adequados a tarefas como cortar cana e caçar onças no meio do mato. Não seria "natural" para eles realizar outras formas de trabalho.

7. O homem foi criado antes da mulher. É óbvio, portanto, que o homem era uma versão preliminar de teste. Dessa maneira, eles são um mero ensaio, não o "gran finale" da criação.

6. Os homens são emocionais demais para serem sacerdotes ou pastores. Pode-se comprovar isso facilmente vendo o comportamento deles num jogo de futebol e assistindo a corridas de Fórmula 1 ou lutas de MMA.

5. Alguns homens são bonitos. Eles vão tirar a atenção das mulheres no momento de adoração.

4. Ser um pastor ordenado é alimentar a congregação. Mas isso não é um papel tradicional dos homens. Pelo contrário: ao longo da história, as mulheres têm sido consideradas não só como mais qualificadas do que os homens na tarefa de alimentar outras pessoas, mas também como atraídas com mais frequência do que eles para esse tipo de atividade. Isso faz delas a escolha óbvia para a ordenação.

3. Homens são propensos demais a agir com violência. Nenhum homem de verdade quer acertar as contas usando outro meio que não seja lutando com as próprias mãos. Por isso, eles seriam modelos ruins de comportamento, além de seres perigosamente instáveis em posições de liderança.

2. Homens ainda podem se envolver nas atividades da igreja, mesmo sem ser ordenados. Eles podem assentar pisos e revestimentos, consertar o forro e fiação do templo, ficar de vigias no estacionamento e talvez até reger o coral no programa do Dia dos Pais. Limitando-os a esses papéis tipicamente masculinos, eles ainda podem ser de grande valia na vida da Igreja.

1. No relato do Novo Testamento, a pessoa que traiu Jesus foi um homem. Por isso, sua falta de fé e sua punição posterior permanecem como um símbolo do lugar de submissão que todos os homens deveriam ocupar.

______
Notas:

*Alerta: Este é um texto carregado de ironia e não tem o propósito de combater a ordenação de pastores homens. Ele apenas procura responder à seguinte pergunta: "Como ficariam os argumentos contra a ordenação de mulheres se usássemos a mesma lógica para falar contra a ordenação de homens?"


**Traduzido do texto original em inglês "Top 10 Reasons Why Men Shouldn’t Be Ordained".


***Ao que tudo indica, este Jason Jackson é um leitor que compartilhou o texto com o autor do blog linkado na nota anterior.

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domingo, 14 de junho de 2015

16 fatos interessantes sobre ordenação de mulheres na Igreja Adventista do Sétimo Dia


por Pr. Matheus Cardoso

1 – A IASD tem pastoras, pelo menos, desde 1872.
2 – Proporcionalmente, havia mais pastoras na época de Ellen White do que hoje.
3 – Ellen White jamais disse algo negativo sobre a existência de pastoras.
4 – Ellen White fez muitas declarações positivas sobre mulheres no ministério.
5 – A ordenação de mulheres tem sido discutida na IASD pelo menos desde 1881. E, a partir desse ano, Ellen White recebeu o salário de um pastor ordenado.
6 – A partir de 1884, Ellen White foi listada como “ministro ordenado" (em inglês, “ordained minister” – gênero neutro) no anuário da Associação Geral (Yearbook). Ela possuiu credenciais ministeriais a partir de 1871, e recebeu certificado de ordenação em 1883 e em outros anos, como 1887, 1899, 1909 e 1913. (No entanto, é verdade que Ellen White jamais foi ordenada por mãos humanas. Em 1911, ela escreveu: “Na cidade de Portland, [em 1845,] o Senhor me ordenou como Sua mensageira, e ali meus primeiros labores foram dedicados à causa da verdade presente” [Filhas de Deus, p. 252]).
7 – O debate atual na IASD não diz respeito à ordenação de mulheres em si. A Associação Geral estabeleceu a ordenação de diaconisas em 1975 (reafirmada em 1985 e 2010).
8 – O voto na assembleia da Associação Geral, em julho deste ano, não estará relacionado à existência de pastoras. Desde 1990, a Associação Geral autoriza mulheres a serem ministros “comissionados”.
9 – Atualmente, a IASD possui mais de 320 pastoras, incluindo mais de 120 na América do Norte {em algumas regiões dos Estados Unidos, além de outras na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China}. A igreja continuará a ter pastoras, independentemente do resultado da votação deste ano.
10 – Pastoras “comissionadas” já exercem, nas igrejas locais, os mesmos papéis e funções que os pastores “ordenados”: ambos os grupos pregam; dão estudos bíblicos; batizam; realizam casamentos, dedicação de crianças e funerais; oficiam a ceia; lideram reuniões administrativas etc.
11 – A distinção entre pastoras “comissionadas” e pastores “ordenados” não tem a ver com “ser o cabeça” (em inglês, “headship”). “Cristo, não o ministro, é o cabeça da igreja” (Ellen G. White, Signs of the Times, 21 de janeiro de 1890).
12 – Tanto pastores quanto pastoras são dedicados numa cerimônia de oração e imposição de mãos. A diferença é que o certificado dos pastores diz “ministro ordenado”, enquanto o certificado das pastoras diz “ministro comissionado”.
13 – Em 1975, um comitê de estudiosos adventistas, estabelecido pela Associação Geral, não encontrou obstáculos teológicos para ordenar mulheres ao ministério pastoral.
14 – Em 1976, o Instituto de Pesquisa Bíblica da sede mundial da IASD concluiu: “Se Deus chama uma mulher, e o ministério dela é frutífero, por que a igreja deveria se recusar a oferecer seu reconhecimento oficial?”.
15 – Em 2014, o Comitê de Estudo da Teologia da Ordenação, estabelecido pela Associação Geral, chegou ao consenso de que a Bíblia pode ser usada, de maneira legítima, para apoiar a ordenação e a não ordenação de mulheres ao ministério pastoral, e de que os defensores de ambas as posições estão plenamente comprometidos com a teologia e a missão da IASD. Dois terços dos membros do comitê concluíram que a Bíblia e os escritos de Ellen White permitem a ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
16 – Em 2014, a Associação Geral e os líderes das Divisões mundiais declararam, com unanimidade, que a questão não pode ser decidida teologicamente (isto é, pelo estudo da Bíblia {ela não proíbe, nem manda ordenar mulheres}), mas será decidida administrativamente (tendo em vista a unidade e a missão da igreja).

Para saber mais sobre o tema, acesse: http://teologiadaordenacao.blogspot.com.br/

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sobre a ordenação de mulheres ao pastorado


por Walter Mendes

Em resposta a uma foto que publiquei no Facebook em favor da ordenação de mulheres ao pastorado adventista, um amigo me recomendou assistir a um vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube. Como quase todos os adventistas sabem, a ordenação de mulheres ao pastorado será votada em julho próximo no Texas (EUA) durante a 60ª Conferência Geral 2015 da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O que se segue abaixo são uma resposta aos argumentos apresentados no vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube.

Em primeiro lugar, o pastor cita o texto paulino de 1 Timóteo 2:12-13, em que lemos que a mulher não deve exercer autoridade sobre o homem:

"E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva."
– 1 Timóteo 2:12-13, ARA

Mulheres têm tido um papel fundamental no ensino da Bíblia e pregação do evangelho na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde sua fundação em 1863. A começar pelo ministério de uma de seus 3 fundadores, a saber a americana Ellen G. White. Elas ensinam crianças, jovens e adultos nas Escolas Bíblicas Sabatinas, além de pregarem regularmente nos púlpitos de diversas igrejas locais.

Há mulheres anciãs (presbíteras, conforme a nomenclatura de outras igrejas) em diversas igrejas locais mundo afora, incluindo no Brasil. Há mulheres pastoras em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China, mas elas (ainda) não são ordenadas oficialmente dentro do Adventismo. Contudo, diaconisas são ordenadas oficialmente na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde 2010.

Se a interpretação bíblica do pastor do vídeo está correta, devemos então rejeitar o ministério e as publicações de Ellen G. White, uma mulher que exerceu e exerce autoridade sobre os homens adventistas desde 1844. E isso não é força de expressão: a história do Adventismo mostra que ela já confrontou presidentes de associações locais e da Conferência Geral em seus dias para que abandonassem erros pessoais e administrativos.

Igualmente deveríamos ser coerentes como outras igrejas evangélicas fazem ao interpretar literalmente esse texto, não permitindo que a mulher tenha qualquer cargo na Igreja exceto o de professora de crianças na Escola Bíblica. Uma mulher que pregue na igreja local, tenha qualquer cargo de liderança em qualquer departamento ou seja professora de qualquer classe de Escola Sabatina está exercendo autoridade sobre os homens debaixo dela.

Segundo ponto: é verdade que Paulo diz que os anciãos e pastores devem ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3:12; Tito 1:5-9), outro argumento bíblico usado pelo pastor do vídeo. Mas o assunto em questão é que o líder cristão não deve ser polígamo – algo comum nos tempos do Novo Testamento. Não se trata de uma qualificação 'sine qua non' que exclua a liderança feminina, permitindo o ancionato ou pastorado apenas para homens cristãos. Do contrário, devemos ser coerentes e descartar a prática adventista de separar homens solteiros e viúvos para o ancionato ou o pastorado – pois essa é a leitura mais literal do texto.

Terceiro, Deus não criou Adão e Eva para que um dominasse sobre o outro, como sugere o pastor no vídeo. O texto de Gênesis é bem claro ao dizer que ambos carregavam em si a imagem de Deus (1:26-27) e que a mulher seria uma auxiliadora do homem (2:18) – uma igual a ele. É muito bonito a forma como Ellen G. White explica esse texto no "Patriarcas e Profetas", págs. 18-19:

"O próprio Deus deu a Adão uma companheira. Proveu-lhe uma 'adjutora' — ajudadora esta que lhe correspondesse — a qual estava em condições de ser sua companheira, e que poderia ser um com ele, em amor e simpatia. Eva foi criada de uma costela tirada do lado de Adão, significando que não o deveria dominar, como a cabeça, nem ser pisada sob os pés como se fosse inferior, mas estar a seu lado como igual, e ser amada e protegida por ele. Como parte do homem, osso de seus ossos, e carne de sua carne, era ela o seu segundo eu, mostrando isto a íntima união e apego afetivo que deve existir nesta relação." 

A submissão da mulher ao homem veio apenas com a entrada do pecado em Genesis (3:16), não sendo parte do propósito original de Deus. Paulo diz em Gálatas 3:28 que na nova ordem trazida por Jesus não há diferença entre homem e mulher, entre judeus e gentios, entre escravos e livres. Defender o contrário é defender um machismo disfarçado em busca de respaldo na Palavra de Deus.

"Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus."
– Gálatas 3:26-28, NVI

Em quarto lugar, há certas coisas que podemos admitir sem que isso signifique reinterpretar a Bíblia ou deixar a ética de Deus num campo vago, como diz o pastor no vídeo. Primeiro fato negado pelo pastor no vídeo: a Bíblia foi influenciada pela cultura em que ela foi escrita sim e existe um ideal de Deus que não foi plenamente atingido no Novo Testamento. Por exemplo, os cristãos não devem aceitar hoje a poligamia (por mais que não houvesse um mandamento contra ela no AT) nem a escravidão (mesmo que ela não fosse combatida com todas as letras no NT). Tais práticas vão contra o ideal de Deus no Éden e contra o espírito do Evangelho, mesmo que não haja um mandamento expresso contra a poligamia e a escravidão.

Segundo fato negado pelo pastor no vídeo: certas normas foram dadas apenas a uma situação local do povo de Deus. Igualmente acreditamos que não são válidas para hoje ordens como aquelas para o uso do véu na igreja (1 Coríntios 11:3-16), para as mulheres ficarem caladas na igreja (1 Coríntios 14:34-35) ou para nos saudarmos com “ósculo santo” (Romanos 16:16; 1 Coríntios 13:12; 16:20; 1 Tessalonicenses 5:26; 1 Pedro 5:14). Esse “ósculo santo” seria um beijo no rosto de saudação entre homens e entre mulheres, tal como é feito na Argentina ou na França. Apesar de estarem em diversas cartas do Novo Testamento, tais ordens não são princípios universais a serem seguidos por todos os crentes de todas as épocas e todas as culturas.

Em quinto lugar, chega a ser intelectualmente desonesto e blasfemo à Palavra de Deus comparar um princípio moral, universal e explícito na Bíblia como a guarda do sábado com uma questão cultural, local e sem respaldo a favor ou contra nas Escrituras como a ordenação de mulheres, como faz o pastor desse vídeo. Além de ignorar princípios elementares de interpretação da Palavra de Deus, o pastor do vídeo ignora que os adventistas sempre fizeram a separação entre princípios e mandamentos de aplicação universal e ordens de aplicação restrita e cultural.

Por exemplo, os adventistas guardam o sábado conforme exigem os Dez Mandamentos (Êxodo 20:8-11), mas não apedrejamos nem condenamos quem acenda fogo nesse dia (Êxodo 35:3; Números 15:32-36) – a Bíblia manda fazer as duas coisas. Igualmente não deixamos de condenar o adultério (Êxodo 20:14) pelo fato de não apedrejarmos os adúlteros (Levítico 20:10) – a Bíblia ensina ambas as coisas. Também não deixamos de ensinar o dízimo aos membros em nossos estudos bíblicos (um princípio que cremos ser universal) apesar de a Bíblia descrever que o dízimo era entregue em 90% dos casos na forma de animais, vegetais e vinho (Levítico 27:30-33; Deuteronômio 12:17-18; 14:22-27; 2 Crônicas 31:4-7) levados ao sacerdote no templo – uma ordem local e temporal.

Sexto, é completamente desonesta a forma como o pastor do vídeo associa um possível voto a favor da ordenação de mulheres ao risco de uma futura ordenação de pastores gays ou pastoras lésbicas. Primeiro, não há relação alguma entre uma coisa e outra, como se uma levasse necessaria ou inevitavelmente à outra. Numa lista de 21 igrejas citadas por nome num site contra a ordenação de mulheres, podem ser contadas 11 igrejas que ordenam mulheres, mas não ordenam pastores gays ou pastoras lésbicas.

Além disso, podemos mencionar no mesmo caminho de ordenar mulheres mas não GLBT as igrejas batistas da Alemanha e da Suíça (Bund Evangelisch-Freikirchlicher Gemeinden e Bund Schweizer Baptistengemeinden), bem como diversas igrejas batistas americanas filiadas à Southern Baptist Convention (algumas apenas), à American Baptist Churches USA, à North American Baptist Conference, à Alliance of Baptists, à Cooperative Baptist Fellowship (CBF) National Baptist Convention e à Progressive National Baptist Convention. Sem contar diversas igrejas como as menonitas, morávias, presbiterianas (exceto a PCUSA), pentecostais e reformadas nos EUA e Europa que também ordenam mulheres sem ordenar ou querer ordenar pastores gays ou pastoras lésbicas.
Para encerrar esse ponto e partir para a conclusão, lembro que a IASD ordena pastores homens e pastoras mulheres em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China sem defender ou discutir a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.

Finalmente, a IASD possui doutrinas bíblicas fundamentais estabelecidas (entre as 28) sobre matrimônio e família e sobre a criação. Além de uma declaração oficial clara contra a prática do homossexualismo. Isso não acontece com as denominações citadas no vídeo que apoiam/defendem a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.
Ao contrário dos anglicanos, luteranos evangélicos, episcopais e metodistas unidos dos EUA, citados no vídeo, os adventistas do sétimo dia não somos uma denominação com um histórico de décadas de liberalismo teológico nem menosprezo ao método gramático-histórico – a abordagem adotada por nós e outras igrejas conservadoras na interpretação da Bíblia. (As denominacões citadas no vídeo e abertas a pastores gays e lésbicas usam o método histórico-crítico.)

As Divisões Norte-Americana e Trans-Europeia citadas no vídeo não reinventaram a roda ao fazer sua interpretação pró-ordenação, nem estão se desviando da interpretação correta ou tradicional da IASD. Elas apenas estão seguindo o método de estudo e interpretação das Escrituras segundo a declaração aprovada e votada pela Comissão Executiva da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, na sessão do Concílio Anual no Rio de Janeiro, Brasil, 12 de outubro de 1986.

O que está em jogo na votação a favor ou contra a ordenação de mulheres não é uma divisão entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Querem os Adventistas Rebeldes, mas entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Defende nosso Costume e Tradição Humana.
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