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terça-feira, 22 de setembro de 2009

O que você não sabia sobre religião

Se você conhecer uma visão equilibrada e diferente da religião em geral, e do cristianismo em particular, precisa assistir à palestra "Medo e temor", do Prof. Leandro Karnal (foto à esquerda). Historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal apresenta um olhar diferente e acadêmico do papel da religião, do fundamentalismo e da motivação humana em busca do sagrado.

Gostei especialmente da noção, proposta pelo palestrante, da religião como algo polissêmico: em nome de Deus se mata e se deixa viver, judeus são perseguidos e livrados no nazismo. Tanto religiosos quanto opositores da religião se esquecem que a fé, ao longo da História e na vida das pessoas, pode ser uma força tanto para o bem quanto para o mal.

Também me interessou a observação que o Prof. Leandro Karnal faz sobre o livro "Deus: um delírio", de Richard Dawkins. Embora tenha gostado do livro, Karnal não concorda com a tese de que o fim da religião seria o fim da violência e da guerra, como propõe Dawkins em sua obra. Seu argumento: os maiores genocídios da História não ocorreram na Idade Média cristã, mas nos regimes ateístas de Mao e Stalin.

Assista ao vídeo da palestra, apresentado originalmente no programa Café Filosófico da TV Cutura, no site da CPFL Cultura.
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domingo, 19 de abril de 2009

O cérebro distingue Deus do Pai Natal

publicado na edição portuguesa do jornal Destak

Nota: Portugal ainda não implementou as normas do Acordo Ortográfico da Língua portuguesa (1990), razão da presença das consoantes mudas neste texto. Papai Noel é chamado do outro lado do Atlântico de Pai Natal. — Walter Dos Santos


À excepção de algumas «seitas» mais fanáticas, nem os católicos negam as evidências da Ciência, distinguindo perfeitamente entre a linguagem metafórica e poética do Antigo Testamento e a realidade, nem os cientistas têm a pretensão de provar ou negar a existência de Deus, como se as suas ressonâncias magnéticas e os seus apare-lhos tivessem a capacidade de captar e reduzir a uma "chapa" a complexidade do ser humano, do universo e de para aí além.

Mas a verdade é que a Fé não consegue deixar de fascinar os investigadores, ou não movessem montanhas. Agora foi a revista Newscientist a publicar um estudo, citado pela Lusa, em que cientistas dinamarqueses concluíram que a oração activa uma área do cérebro onde se processa o conhecimento social, ou seja, que rezar é como falar com um amigo.

O cérebro de 20 católicos praticantes foi "fotografado" no decorrer de três tarefas: enquanto recitavam o Pai Nosso, enquanto recitavam um poema, e uma terceira em que improvisavam orações pessoais, antes de fazerem pedidos ao Pai Natal.

Curiosamente, o Pai Nosso e o poema activaram a mesma área cerebral, mais propriamente a que está ligada à emuneração e repetição. Contudo, a oração improvisada pôs em funcionamento os circuitos utilizados quando se comunica com outra pessoa, e que nos concedem a capacidade de lhes imputar motivações e intenções.

Mas a complexidade não se fica por aqui: é que a reacção foi também diferente quando rezavam e quando se dirigiam ao Pai Natal: quando Deus era o interlocutor iluminavam o córtex pré-frontal (o que se acende quando comunicamos com pessoas reais), que se mantinha apagado no caso do Pai Natal, revelando assim considerá-lo uma figura fictícia, equiparada a um objecto ou a um jogo de computador.

A explicação é que «o cérebro não activa essas áreas por não esperar reciprocidade, nem considerar necessário pensar nas intenções do computador».

Assumindo uma postura cautelosa, o estudo termina concluindo que o que fica provado é, apenas, que quando os crentes rezam acreditam não só estar a falar com Deus, como que este os escuta. Já não é mau.
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segunda-feira, 30 de março de 2009

A faraó esquecida e o Êxodo hebreu




por Douglas Reis


Por mais de 20 anos, o governante da maior potência da Terra construiu obras faraônicas (literalmente falando) e manipulou a cúpula astuciosamente, com o fito de manter-se no poder. E esse governante era … uma mulher!

Hatshepsut (cujo governo se estendeu de 1479 a 1458 a.C.) governou o Egito. Apesar disso, foi alvo de uma incrível campanha anti-iconoclástica – a rainha não possuía caixão, nem estatuetas, nada de roupas, toucas reais, joias , sandálias e anéis. Suas estátuas e inscrições foram demolidas, além dos monumentos sagrados que foram alvo de vandalismo. Parte dessa história é passada em revista em uma matéria da National Geographic Brasil.[1]

O perfil da poderosa monarca das terras do Nilo é traçado da seguinte forma: “[…] Hatshepsut ergueu e renovou templos e santuários desde o Sinai até a Núbia. Os quatro obeliscos de granito que mandou erigir no vasto templo do grande deus Amon, em Karnak, contavam-se entre os mais majestosos de seu tempo. Hatshepsut encomendou centenas de estátuas de si mesma e deixou testemunhos inscritos na pedra sobre sua ascendência, seus títulos, sua história – tanto a verdadeira quanto a forjada –, e até mesmo sobre seus pensamentos e anseios, os quais ela por vezes confidenciava com candor inaudito. As manifestações das inquietudes da governante inscritas em seu obelisco ainda ressoam com uma quase charmosa insegurança: ‘Meu coração palpita de preocupação só de pensar no que dirão as futuras gerações. Aqueles que hão de ver meus monumentos nos anos vindouros e tecer comentários sobre meus feitos’.”[2] No transcurso do tempo, a rainha se apresentava de forma masculinizada, difundindo fábulas sobre ser a escolhida dos deuses.[3]

Descoberta há dois anos, A múmia não estava no sarcófago na 20ª tumba no vale dos reis, como seria de se esperar. Tudo começou em 2005, quando Zahi Zawass, chefe do Projeto da Múmia Egípcia e secretário-geral do Supremo Conselho de Antiguidades, analisou o corpo encontrado na tumba. O corpo já havia sido descoberto em 1989, pelo egiptólogo americano Donald Ryan duas décadas depois; só foi possível identificá-lo como pertencente à Hatshepsut devido a um dente (molar secundário) localizado em uma caixa de madeira, na qual se lia o nome da monarca em hieróglifo. O dente combinava com a múmia que estava na tumba KV60a[4].

Entretanto, por qual razão a rainha teria sido perseguida? Basicamente, os arqueólogos seculares seguem dois caminhos: Hatshepsut sofrera vingança do enteado, Tutmós III, que atuou como seu co-regente por muitos anos, mesmo quando teria idade para assumir o trono. Tal hipótese se encontra descartada por estudos que apontam que a depredação dos objetos ligados à Hatshepsut ocorrera vinte anos após o fim de seu reinado. Outros aventam que fatores políticos levariam à destruição da memória da rainha, que poderiam levar seus sucessores mais diretos a reivindicar o trono no lugar de Amenófis II, filho de Tutmós III.

Walter Veith[5] apresenta uma terceira hipótese. Hatshepsut seria identificada com a filha de Faraó (Ex. 2). Seu pai, Tutmós I(1532 a 1508 a.C), terceiro rei da 18ª dinastia, que teria ordenado a matança das crianças em 1530 a.C. (Arão, que teria nascido em 1533 a.C., não se viu afetado pelo decreto.

Com a morte de Tutmós I, Moisés, que estava na linha de sucessão real, poderia ter assumido como o 4º faraó da 18ª dinastia, uma vez que o faraó não tinha filhos homens. A recusa se deveu, sem dúvida, a uma questão de fé (Hb. 11:24). Com isso, assumiu Tutmés II, irmão bastardo e marido de Hatshepsut. Ele reinou por pouco tempo: de 1508 a 1504 a.C. abriu-se nova oportunidade para Moisés assentar-se no trono daquela que era a maior nação da Terra. Devido a uma nova recusa do futuro libertador dos israelitas, a própria Hatshepsut tomou as rédeas, governado o Egito por 21 anos. A falta de apoio que a rainha colheu nos últimos anos e o fato de ser banida das crônicas reais pode ser explicada, ainda de acordo com Veith, por uma razão: tais coisas aconteciam somente no caso do faraó ser desleal aos deuses. De alguma forma, admitindo-se essa alternativa, Hatshepsut demonstrou ser influenciada pelo seu filho adotivo, revelando a influência do monoteísmo dos escravos hebreus. Nada mais escandaloso para a alta sociedade egípcia, a qual era composta também pela classe de sacerdotes.

A reportagem da National Geographic comenta sobre o enteado e sucessor de Hatshepsut: “Depois de sua morte, por volta de 1458 a.C., seu enteado a substituiu, cumprindo o destino de ser um dos grandes faraós da história egípcia. Tutmós III foi um realizador, como sua madrasta, mas também um guerreiro, o chamado Napoleão do Egito. Em 19 anos, liderou 17 campanhas militares no Levante, inclusive uma vitória contra os cananeus em Megiddo, atual Israel, feito ainda hoje estudado nas academias militares. Ele teve um rebanho de esposas, uma das quais deu à luz seu sucessor, Amenófis II.”[6]

Weith traz à luz o exame meticuloso da múmia do imponente Tutmós III (o qual o autor considera que fosse o faraó do Êxodo), realizado pelos egiptólogos Weeks e Harris, em 1973. O resultado foi algo surpreendente: o corpo do faraó, que reinara por 54 anos revelou ter pertencido a um garoto de 18 anos – ou seja, o corpo era falso! Jamais os egípcios mumificariam um corpo falso, porque a conservação do corpo garantia que Ka (lit.: duplo, i.e., a alma)o reconheceria, ao voltar periodicamente do mundo dos mortos, trazendo equilíbrio (maat) ao país. O único motivo para a troca do corpo seria a destruição do legítimo Tutmós III, o que combina com o final trágico que o faraó teve no final do Êxodo (Ex. 14). Some-se a esses fatores o fato de que o sucessor de Tutmós III não ser seu primogênito e a data de seu reinado estar de acordo com a primeira Páscoa judaica e teremos algumas boas evidências da veracidade das Escrituras. Pelo jeito, a parceria entre Bíblia e Arqueologia via durar por muito tempo…

[1] Chip Brown, “O rei está nu (a)”, National Geographic Brasil, Abril 2009, ano 9, nº 109, pp.38-59.
[2] Idem, pp. 44-45.
[3] Idem, p. 50.
[4] Idem pp. p. 42, 44, 53-55.
[5] Walter Veith, “Egypt and Bible”, disponível em http://www.amazingdiscoveries.org/egypt-and-the-bible.html.
[6] Idem, p. 52.

Publicada originalmente no blog Questão de Confiança, com o título O esquecimento de Hatshepsut: evidências de uma conversão?
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quinta-feira, 26 de março de 2009

Os outros filhos de Maria


A virgindade da mãe de Jesus é um dos assuntos espinhosos no meio cristão. Por um lado existe o dogma católico de que Maria foi sempre virgem, mesmo após o nascimento de Jesus. Por outro, a evidência contrária presente no relato claro e simples dos Evangelhos.

Os Evangelhos nos dizem que José não conheceu (isto é, não manteve relações sexuais com) Maria até Jesus nascer (Mateus 1:25). Isto indica que, após o nascimento de Jesus, José passou a ter relações com a esposa. De maneira alguma isto denigre o caráter ou a espiritualidade da bendita mãe de Jesus, pois “o casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro" (Hebreus 13:4). As Escrituras aprovam e incentivam o prazer sexual, dentro do casamento, como um dom de Deus aos casais (ver Provérbios 5:15-20, Cantares 2:3-7 e 4:9-12, Isaías 62:5, 1 Coríntios 7:3-7, Hebreus 13:4).

Segundo os Evangelhos, Maria teve pelo menos seis filhos, sendo 4 filhos homens: Tiago, José, Simão e Judas, e duas filhas mulheres que não são nomeadas (Mateus 13:55-56; Marcos 6:3). Jesus é chamado de “Filho Unigênito de Deus” (João 3:16-18), mas é o filho primogênito de Maria (Lucas 26-7). Cumprindo a profecia messiânica de Salmo 69:8 ("Tornei-me estranho a Meus irmãos e desconhecido aos filhos de Minha mãe"), a relação de Jesus com eles não era a melhor possível. João registra que “nem mesmo os seus irmãos criam nEle” (7:1-5) e Marcos reproduz a opinião dos irmãos de Jesus quanto a Ele: "Ele está fora de si” (Marcos 3:21). Após a ressurreição de Jesus, porém, os irmãos de Jesus O aceitaram como Messias e aguardaram o Pentecostes com a mãe (Atos 1:14). Destes se destaca Tiago, o “irmão do Senhor”, que se tornou uma das colunas da Igreja primitiva (Atos 15:13; 1 Coríntios 15:7, Gálatas 2:9, Tiago 1:1). O autor da carta de Judas, “irmão de Tiago”, é outro filho José e Maria, antes descrente, que se converteu (1:1).

Devido a tentativa acima mencionada de os irmãos de Cristo tentarem controlá-Lo, alguns sustentam que eles eram meio-irmãos de Jesus, órfãos de um casamento anterior do viúvo José. Talvez o registro mais antigo desta tese esteja no Proto-Evangelho de Tiago, um evangelho apócrifo escrito provavelmente em 150 AD. No capítulo 9, verso 2 lemos: "José replicou: — Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina. Não gostaria de ser objeto de zombaria por parte dos filhos de Israel".

Esta teoria, mantida também pela escritora adventista Ellen White (O Desejado de Todas as Nações, pág. 86-87), é interessante porque preenche algumas lacunas. Como irmãos mais novos poderiam tentar manipular Jesus tal qual acontece nos Evangelhos? Por que Jesus na cruz encarrega João, e não Seus irmãos, de cuidar de Maria? Mas infelizmente levanta mais buracos do que cobre. Se José era viúvo e pai, por que os filhos dele não aparecem nos Evangelhos na viagem para Belém e na fuga para o Egito? Por que o dado da viuvez nunca é mencionado? Por que os irmãos de Jesus surgem de repente na narrativa, após a provável morte de José? Por que eles sempre são mencionados juntos com Maria? Se mais velhos que Jesus e enteados de Maria, por que a relação tão próxima com a madastra?

Além de harmonizar-se com os dados da narrativa dos Evangelhos, a idéia de Maria ter tido outros filhos com José é a possibilidade mais lógica e natural diante dos fatos bíblicos. Alguns argumentam que a palavra "irmão" no hebraico pode significar, entre outras coisas, primo. Contudo o Novo Testamento foi escrito não em hebraico, mas em grego e nesta língua há as palavras adelphos (irmão) e anepsios (primo) Se os evangelistas quisessem se referir a primos, poderiam muito usar a palavra anepsios ,como fez Paulo em Colossenses 4:10.

Em todo caso, podemos extrair algumas lições da família de Jesus: 1) Devemos estar dispostos a cumprir a vontade de Deus em nossa vida sempre, tal qual José e Maria fizeram; 2) O parentesco com alguém fiel a Deus de nada vale se nós não decidirmos por nós mesmos seguir a Jesus; 3) Familiares hoje hostis ao Evangelho podem ser alcançados para a salvação e a glória de Deus. — Walter Dos Santos


por Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo

A lista "Tiago, José, Judas e Simão" lhe diz alguma coisa? Uma dica: não são nomes de apóstolos. Na verdade, de acordo com o Evangelho de Marcos, estes seriam os irmãos de Jesus, que são citados ao lado de pelo menos duas irmãs de Cristo (cujos nomes não aparecem). Os católicos e ortodoxos normalmente interpretam o trecho como uma referência a primos ou parentes mais distantes do mestre de Nazaré, mas o mais provável é que essa visão seja incorreta. A maior parte dos (poucos) indícios históricos indica que Maria e José realmente tiveram filhos depois do nascimento de Jesus.

É claro que, sem nenhum acesso a registros familiares contemporâneos ou evidências arqueológicas diretas, a conclusão só pode envolver probabilidades, e não certezas. "Se a busca do 'Jesus histórico' já é difícil, a pesquisa dos 'parentes históricos de Jesus' é quase impossível", escreve o padre e historiador americano John P. Meier no primeiro volume de "Um Judeu Marginal", série de livros (ainda não terminada) sobre Jesus como figura histórica.

Meier explica que, ao longo da tradição cristã, teólogos e comentaristas do texto bíblico se dividiram basicamente entre duas posições, batizadas com expressões em latim. A primeira é a chamada "virginitas ante partum" (virgindade antes do parto), segundo o qual Maria permaneceu virgem até o nascimento de Jesus, tendo filhos biológicos com seu marido José mais tarde. A segunda, "virginitas post partum" (virgindade após o parto), postula que Maria não teve outros filhos e até que seu estado de virgem teria sido milagrosamente restaurado após o único parto.

A "virginitas post partum" foi, durante muito tempo, a posição defendida por quase todos os cristãos, diz o historiador -- até pelos protestantes, que hoje não se apegam a esse dogma. "Um fato surpreendente, e que muitos católicos e protestantes hoje em dia desconhecem, é que as grandes figuras da Reforma, como Martinho Lutero e Calvino, defendiam a virgindade perpétua de Maria", escreve ele. Já especialistas católicos modernos, como o alemão Rudolf Pesch, defendem que Maria provavelmente teve outros filhos sem que isso tenha levado a reprimendas diretas do Vaticano.

Jerônimo


Diante das menções claras aos "irmãos e irmãs de Jesus" nos Evangelhos (que inclusive se mostram contrários à pregação dele, chegando mesmo a considerá-lo louco), como a interpretação da "virginitas post partum" prevaleceu?

"Houve três formas de interpretar esses textos", afirma o americano Thomas Sheehan, estudioso do cristianismo primitivo e professor da Universidade Stanford. "Além de considerar essas pessoas como irmãos biológicos de Jesus, sabemos da posição de Epifânio, bispo do século IV para quem os irmãos eram de um casamento anterior de José. Mas a opinião que prevaleceu foi a de Jerônimo, que era um excelente filólogo [especialista no estudo comparativo de idiomas] e viveu na mesma época. Jerônimo dizia que a palavra grega 'adelphos', que nós traduzimos como 'irmão', era só uma versão de um termo aramaico que pode ter um significado mais amplo e que pode querer dizer, por exemplo, primo."

Jerônimo tinha razão num ponto: quando o Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego, a palavra "adelphos" realmente foi usada para representar o termo genérico "irmão" (empregado para parentes mais distantes no original). De fato, o hebraico, bem como o aramaico (língua falada pelos judeus do tempo de Jesus na terra de Israel), não tem uma palavra para "primo". O problema é que há um único caso comprovado de que a palavra hebraica "irmão" tenha tido o significado real de "primo". Essa única ocorrência está no Primeiro Livro das Crônicas -- e mesmo assim o contexto deixa claro que as pessoas em questão não são irmãs, mas primas.

No entanto, o caso do Novo Testamento é diferente, argumenta Meier: não se trata de "grego de tradução", mas de textos originalmente escritos em grego, nos quais não havia motivo para usar um termo que poderia gerar confusão. O próprio Paulo, autor de várias cartas do Novo Testamento, chama Tiago, chefe da comunidade cristã de Jerusalém após a morte de Jesus, de "irmão do Senhor", ao escrever para fiéis de origem não-judaica (ou seja, que não sabiam hebraico ou aramaico). De quebra, a Carta aos Colossenses, atribuída a Paulo, usa até o termo grego "anepsios", que quer dizer "primo" de forma precisa.

Reforçando esse argumento, o escritor judeu Flávio Josefo, ao relatar em grego a morte de Tiago, também o chama de "irmão de Jesus". E o contexto dos Evangelhos reforça a impressão de que se tratam de irmãos de sangue, argumenta Meier. Os irmãos e a mãe de Jesus são sempre citados em conjunto. Quando Maria e os parentes de Jesus tentam interromper uma pregação, ele chega a pronunciar a polêmica frase "Qualquer um que fizer a vontade do meu Pai celestial é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Para Meier, a frase perderia muito de sua força se o significado real dela se referisse a "meu primo, minha prima e minha mãe".

Para Geza Vermes, professor de estudos judaicos da Universidade de Oxford (Reino Unido), as próprias narrativas sobre o nascimento de Jesus dão apoio a tese de que Maria e José tiveram outros filhos mais tarde. No Evangelho de Mateus, afirma-se que José não "conheceu" (eufemismo para ter relações sexuais com alguém) sua mulher até que Jesus nascesse. Ainda de acordo com Vermes, em seu livro "Natividade", é importante notar o uso do verbo grego "synerchesthai", ou "coabitar", para falar da relação entre José e Maria. O verbo, quando empregado pelos autores do Novo Testamento, implica sempre relações sexuais entre homem e mulher, diz ele.

Título original da matéria: Maria provavelmente teve outros filhos além de Jesus, dizem historiadores
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sexta-feira, 20 de março de 2009

Os manuscritos do Novo Testamento

por Walter Dos Santos*

Se a minuciosa transmissão e cópia dos manuscritos pelos judeus testemunham em favor do Antigo Testamento, como vimos antes, a abundância de manuscritos preservados são o maior trunfo do Novo Testamento. Os cristãos não foram tão cuidadosos quanto os judeus ao recopiarem os manuscritos das Escrituras, mas a quantidade de manuscritos faz do Novo Testamento o documento antigo mais bem preservado da civilização ocidental.



Manuscritos abundantes e recentes

F. E. Peters (IN: The Harvest of Hellenism. Nova Iorque: Simon and Schuster, 1971) ressalta que “baseando-se apenas na tradição dos manuscritos, as obras que formam o Novo Testamento dos cristãos foram os livros antigos mais frequentemente copiados e mais amplamente divulgados.” Atualmente sabe-se da existência de mais de 5.300 manuscritos gregos do Novo Testamento. Acrescentem-se a esse número mais de 10.000 manuscritos da Vulgata Latina e, pelo menos, 9.300 de outras antigas versões, e teremos hoje mais de 24.000 cópias de porções do Novo Testamento. Nenhum outro documento da história antiga chega perto desses números e dessa confirmação. Em comparação, a Ilíada de Homero vem em segundo lugar, com apenas 643 manuscritos que sobreviveram até hoje. Voltaremos ao contraste entre o Novo Testamento e as obras de Homero mais à frente nesta postagem.

Sir Frederic G. Kenyon, que foi diretor e bibliotecário-chefe do Museu Britânico, reconhecido como uma das maiores autoridades em manuscritos, diz (IN: Our Bible and the Ancient Manuscripts. Nova Iorque: Harper & Brothers, 1941): “Além da quantidade, os manuscritos do Novo Testamento diferem das obras dos autores clássicos em outro aspecto, e mais uma vez a diferença é bem clara. Em nenhum outro caso o intervalo entre a composição do livro e a data dos mais antigos manuscritos existentes é tão curto quanto no do Novo Testamento. Os livros do Novo Testamento foram escritos na última parte do século primeiro; com exceção de fragmentos muitos pequenos, os manuscritos mais antigos existentes são do quarto século - cerca de 250 a 300 anos depois.

“Isso pode parecer um intervalo considerável, mas não é nada em comparação com o tempo transcorrido entre os grandes escritores clássicos e seus mais antigos manuscritos. Cremos que, em todos os pontos essenciais, temos um texto bastante fiel das sete peças remanescentes de Sófocles; no entanto, o manuscrito mais antigo e substancioso de Sófocles foi copiado mais de 1.400 anos depois de sua morte.”

O mesmo Kenyon Kenyon afirma em outro trecho de suas obras (IN: The Bibie and Archaeology. Nova Iorque: Harper & Brothers, 1940): “O intervalo entre as datas da composição do original e os mais antigos manuscritos existentes do Novo Testamento se torna tão pequeno a ponto de, na prática, ser insignificante. Assim, já nao há base para qualquer dúvida de que as Escrituras tenham chegado até nós tal como foram escritas. Pode-se considerar que finalmente estão comprovadas tanto a autenticidade como a integridade geral dos livros do Novo Testamento.”

Segundo J. Harold Greenlee (IN: Introduction to New Testament Textual Criticism. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1964), abordando o hiato de tempo entre o manuscrito original (o autógrafo) e o manuscrito existente (a velha cópia remanescente), "os mais antigos e conhecidos manuscritos da maioria dos autores gregos clássicos foram escritos pelo menos mil anos depois da morte do seu autor. O intervalo de tempo para os escritores latinos é um pouco menor, reduzindo-se a um mínimo de três séculos no caso de Virgílio. Todavia, no caso do Novo Testamento, dois dos mais importantes manuscritos foram escritos em prazo não superior a 300 anos após o Novo Testamento estar completo; manuscritos virtualmente completos de alguns livros do Novo Testamento, bem como manuscritos incompletos, mas longos, de muitas partes do Novo Testamento foram copiados um século após serem originalmente escritos.”

Além dos manuscritos mencionados, são encontradas muitas citações e trechos das primeiras cópias do Novo Testamento em comentários, sermões e cartas dos primeiros Pais da Igreja. Os Pais Apostólicos, escrevendo principalmente entre 90 e 160 AD, mostravam grande familiaridade com a maioria dos livros do Novo Testamento. Houve também, um pouco mais tarde, as lições, chamadas de lecionários, usadas para serem lidas nos cultos públicos da igreja. Pelo meio do século 20, haviam sido classificadas mais de 1.800 dessas lições.

Obras de Homero versus o Novo Testamento

Segundo Greenlee, abordando o hiato de tempo entre o manuscrito original (o autógrafo) e o manuscrito existente (a velha cópia remanescente), "os mais antigos e conhecidos manuscritos da maioria dos autores gregos clássicos foram escritos pelo menos mil anos depois da morte do seu autor. O intervalo de tempo para os escritores latinos é um pouco menor, reduzindo-se a um mínimo de três séculos no caso de Virgílio.

"Todavia, no caso do Novo Testamento, dois dos mais importantes manuscritos foram escritos em prazo não superior a 300 anos após o Novo Testamento estar completo; manuscritos virtualmente completos de alguns livros do Novo Testamento, bem como manuscritos incompletos, mas longos, de muitas partes do Novo Testamento foram copiados um século após serem originalmente escritos. Uma vez que os estudiosos aceitam que os escritos dos antigos clássicos são em geral fidedignos, embora os mais antigos manuscritos tenham sido escritos tanto tempo depois da redação original e o número de manuscritos remanescentes seja tão pequeno em muitos casos, está claro que, da mesma forma, fica assegurada a credibilidade no texto do Novo Testamento.”

Bruce Metzger comenta que dentre todas as composições literárias escritas pelo povo grego, os poemas homéricos são os mais adequados para uma comparação com a Bíblia. Ele acrescenta (IN: Chapters in the History of New Testament Textual Criticism. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1963): “Em todo o corpo de literatura antiga, tanto grega como latina, a Ilíada é a que mais se aproxima do Novo Testamento por possuir a maior quantidade de testemunho de manuscritos”.

Lembra do que falamos sobre o cuidado não tão rigoroso dos escribas cristãos, em contrapartida aos colegas judeus, ao copiarem e recopiarem o Novo Testamento? Nessas muitas cópias acabaram havendo pequenas, mas numerosas divergências ou variantes textuais entre os vários manuscritos do Novo Testamento existentes. Norman L. Geisler e William E. Nix (IN: A General Introduction to the Bible.Chicago: Moody, 1968), comparando as variações textuais existentes entre os documentos do Novo Testamento e as obras antigas de Homero, escreve: “Tanto a Ilíada como a Bíblia foram consideradas ‘sagradas’, ambas sofreram mudanças textuais e os respectivos manuscritos em grego foram objeto de crítica textual.

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Os manuscritos do Antigo Testamento


"O Novo Testamento tem cerca de 20.000 linhas e a Ilíada tem cerca de 15.600. Há dúvidas sobre apenas 40 linhas (ou 400 palavras) do Novo Testamento, enquanto que, no caso da Ilíada, questionam-se 764 linhas. Esses 5% de corrupção textual da Ilíada contrastam-se com 0,5% de emendas no texto do Novo Testamento. Desses 0,5% apenas 1/8 de todas as variantes tiveram algum peso, pois a maioria delas são simples questões mecânicas, tais como soletração ou estilo. Do total, então, somente cerca de 1/60 deixa de ser ‘questão relativamente insignificante’, {sem alterar a passagem ou contexto em que estão}, podendo ser chamado de ‘variação substancial’ {provocando duas possiblidades, ou mesmo incerteza, de leitura}. Matematicamente isso aponta para um texto que é 98,33% puro.”

Contudo, estas variantes não chegam a questionar a confiablidade do Novo Testamento. Tanto que Benjamin B. Warfield (IN: Introduction to Textual Criticism of the New Testamento. 7a. ed. Londres: Hodder and Stoughton, 1907) chega a dizer desafiadoramente: "mesmo na forma mais corrompida em que o texto do Novo Testamento chegou a aparecer, o texto real dos escritores sacros é suficientemente exato. Dentre todas as inúmeras variantes, escolha a mais estranha que puder, escolha de propósito a pior delas, e você não descobrirá um só artigo de fé ou preceito moral deturpado ou perdido”.

O mesmo Sir Frederic Kenyon acima citado declara enfaticamente sobre as variações textuais: “Nenhuma doutrina fundamental da fé cristã depende de algum texto controvertido. O número de manuscritos do Novo Testamento, de antigas traduções do Novo Testamento e de citações pelos mais antigos escritores da Igreja, é tão grande que é praticamente certo que o texto autêntico de cada passagem duvidosa encontra-se preservado em uma ou outra dessas antigas autoridades. De nenhum outro livro antigo em todo o mundo se pode dizer o mesmo.

“Os estudiosos se dão por satisfeitos por possuírem substancialmente o texto autêntico dos principais escritores gregos e romanos, cujas obras chegam até nós, de Sófocles, Tucídedes, Cícero, Virgílio; no entanto, nosso conhecimento das obras desses escritores depende de um pequeno punhado de manuscritos, enquanto que os manuscritos do Novo Testamento se contam às centenas e até aos milhares.”

Conclusão

Temos razões suficientes para crer que a Bíblia é a Palavra inspirada de Deus, e que foi preservada com precisão pela intervenção divina. Os manuscritos, bem como outros testemunhos disponíveis com citações e fragmentos deles, refletem com tanta exatidão o Novo Testamento como o temos hoje que podemos crer na confiabilidade dos textos do Novo Testamento tal qual foram transmitidos pelos evangelistas e apóstolos às comunidades cristãs do primeiro século.

Bibliografia: As informações nos parágrafos acima foram extraídas, condensadas e reordenadas das seguintes fontes: 1) Josh McDowell, Evidência que exige um veredito: evidências históricas da fé cristã. 2. ed. - São Paulo: Editora Candeia, 1996; e 2) A Bíblia para hoje, Lições da Escola Sabatina, 2º Trimestre de 2007, publicada pela Casa Publicadora Brasileira.



*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
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segunda-feira, 16 de março de 2009

Os manuscritos do Antigo Testamento

por Walter Dos Santos*

Partindo do pressuposto de que a Bíblia mereça atenção e importância, ainda assim permanece uma pergunta fundamental: quem garante que não houve algum tipo de adulteração, manipulação ou fraude no percurso da Bíblia dos tempos antigos aos dias de hoje? O Portal Escrivão Caminha inicia hoje uma série de postagens sobre a confiabilidade da Bíblia, examinando a questão dos manuscritos originais, das traduções modernas e da seleção final dos livros.


Ataques ao Antigo Testamento

Durante muitos séculos, muitas tentativas foram feitas para eliminar a Bíblia. Verdade é que os exemplares dela foram preservados em conventos e mosteiros, mas se impedia de todas as formas possíveis que ela parasse nas mãos do grande público. As poucas Bíblias disponíveis eram mantidas em línguas desconhecidas pela maioria, os que se aventuravam a traduzi-la em língua nacional eram queimados junto com seus trabalhos e quem possuísse um exemplar em casa poderia ser preso, torturado e morto pela igreja medieval.

Quando a destruição da Bíblia se tornou impossível devido à sua massiva circulação graças ao sucesso da Reforma e a invenção da imprensa, Satanás e seus agentes humanos tentaram um novo método. Se não podia destruir as próprias Escrituras, ele poderia fazer outra coisa: destruir sua credibilidade. O principal meio foi a Alta Crítica, um esforço acadêmico muito bem-sucedido em destruir a fé na Bíblia como Palavra de Deus.

Comecemos com os manuscritos do Antigo Testamento. Antes, é preciso fazer um esclarecimento. Na época bíblica, os livros não eram como os de hoje: eram na verdade pequenos rolos de couro ou de papiro (uma espécie de papel) que, devido à sua natureza, se desgastavam com o tempo e exigiam o constante e regular trabalho de fazerem-se cópias a partir deles. Não existem mais os autógrafos, isto é, os originais escritos pelas mãos dos autores. O que temos hoje são cópias manuscritas dos livros originalmente escritos pelos profetas do Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento.

Por muitos anos, estudiosos da Alta Crítica disseram que não se pode confiar na Bíblia. Afinal, não havia nenhuma cópia completa do Antigo Testamento hebraico (a língua em que ele foi escrito) anterior a 900 d.C. Certamente, sem copiadoras, muitos erros poderiam ter sido introduzidos nos textos. Assim, como se poderia confiar no Antigo Testamento?

Copiando o Antigo Testamento

Até um passado recente, o mais antigo e completo manuscrito hebraico existente havia sido copiado por volta de 900 A.D. Isso representava um intervalo de 1.300 anos entre a composição original do Antigo Testamento (AT) — completado por volta de 400. a.C.— e o manuscrito disponível aos estudiosos. Longe de atentar contra a confiabilidade do texto bíblico, os dados por trás deste manuscrito corroboram a confiablidade do AT. Segundo as leis civis e canônicas dos hebreus, os responsáveis pelas cópias dos exemplares do AT possuíam um sistema bem intricado para transcrever os rolos das sinagogas.

Samuel Davidson (IN: Hebrew Text of the Old Testament. 2.ed. Londres: Samuel Bagster & Sons, 1859) descreve algumas das exigências que estes responsáveis, os talmudistas, deviam seguir em relação às Escrituras: “(1) o rolo de uma sinagoga deve ser escrito em peles de animais puros, (2) preparados por um judeu para o uso específico da sinagoga. (3) Essas peles devem ser presas por meio de barbantes feitos de animais puros. (4) Cada pele deve conter um certo número de colunas, o qual deve se manter igual por todo o códice. (5) O comprimento de cada coluna não deve ser inferior a 48 nem superior a 60 linhas e a largura deve ser de trinta letras. (6) Deve-se primeiramente traçar as linhas de toda a cópia, e se três palavras forem escritas sem linha, a cópia fica inutilizada. (7) A tinta deve ser preta, e não vermelha, verde, nem qualquer outra cor, e deve ser preparada de acordo com uma fórmula específica.

“(8) Deve-se fazer a cópia a partir de uma cópia autêntica, da qual o transcritor não deve se desviar de modo algum. (9) Não se deve escrever nenhuma palavra ou letra, nem mesmo um iode, de memória, isto é, sem o escriba tê-lo visto no códice diante de si... (10) Entre cada consoante deve haver o espaço de um fio de cabelo ou de uma linha; (11) entre cada novo parashah, ou capítulo, deve haver a largura de nove consoantes; (12) entre um livro e outro deve haver três linhas. (13) O quinto livro de Moisés deve terminar exatamente no final de uma linha; mas com os demais isso não é preciso. (14) Além disso, o copista deve estar vestido com trajes judaicos a rigor, (15) lavar o corpo todo, (16) não começar a escrever o nome de Deus com uma pena recém-mergulhada na tinta, (17) e, caso um rei se dirija a ele enquanto está escrevendo o nome de Deus, não deve dar atenção ao rei”.

Davidson acrescenta que “os rolos que não são feitos de acordo com essas especificações estão condenados a ser enterrados ou queimados, ou ser banidos para as escolas, para serem usados como livros de leitura”. Ao comparar as variações de manuscritos do texto hebraico com as da literatura pré-cristã (como o Livro dos Mortos, dos egípcios), Gleason Archer Jr. (IN: Merece Confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1974) afirma que surpreende o fato de que o texto hebraico não tenha o fenômeno de discrepâncias e de alteração dos manuscritos, presente em outros textos de literatura da mesma época. Os talmudistas tinham tanta certeza de que, ao terminarem de transcrever um manuscrito, eles teriam uma cópia exata, que atribuíam à nova cópia uma autoridade igual à do original.

Mas por que não temos outros manuscritos antigos? A própria ausência de manuscritos antigos, considerando-se as exigências feitas aos copistas e os cuidados que eles tomavam, confirma a credibilidade das cópias que temos hoje. Frederic Kenyon (In: Our Bible and the Ancient Manuscripts. Nova Iorque: Harper & Brothers, 1941) entra em mais detalhes sobre a questão acima e sobre a destruição das cópias mais antigas: “Após um manuscrito ter sido copiado com a exatidão determinada pelo Talmude, e após ter sido devidamente conferido, era aceito como autêntico e considerado como tendo igual valor ao de qualquer outra cópia. Sendo todos igualmente corretos, a idade não significava vantagem para um manuscrito; era uma desvantagem, pois um manuscrito antigo estava sujeito a tornar-se ilegível ou a sofrer algum dano. Uma cópia defeituosa ou imperfeita era imediatamente considerada imprópria para o uso. Por essa razão, a ausência de cópias bem antigas da Bíblia hebraica não precisa causar surpresa ou inquietação.”

O Texto Massorético e os Rolos do Mar Morto

Mais tarde, entre 500 e 900 A.D., os massoretas aceitaram o fatigante trabalho de editar o texto e padronizá-lo. O texto que os massoretas produziram é chamado de texto “massorético”, o texto hebraico padrão hoje. Os massoretas eram bem disciplinados, tendo elaborado um complicado sistema de salvaguardas contra erros de cópia. Por exemplo, eles contavam o número de vezes que cada letra do alfabeto aparecia em cada livro; eles assinalavam a letra que ficava exatamente no meio do Pentateuco e a que ficava exatamente no meio da Bíblia toda; e faziam cálculos ainda mais minuciosos do que esses.

Sir Frederic Kenyon escreve: “Além de registrar as variantes de leitura, a tradição, ou as conjeturas, os massoretas realizaram inúmeros cálculos que não dizem diretamente respeito à crítica textual. Eles contaram os versículos, as palavras e as letras de cada livro. Eles calcularam a palavra e a letra que ficava no meio de cada livro. Fizeram uma lista dos versículos que continham todas as letras do alfabeto, ou um certo número delas; e assim por diante. No entanto, essas trivialidades, como bem poderíamos considerá-las, tiveram o efeito de garantir uma atenção minuciosa à transmissão fiel do texto.”

No início de 1947, o mundo foi informado sobre o que foi considerado "a maior descoberta arqueológica do século". Em cavernas próximas ao Mar Morto, foram descobertos jarros antigos contendo os agora famosos Rolos do Mar Morto, muitos deles datados de aproximadamente 150 a.C. a 70 d.C., o que significa que esses textos bíblicos eram mais de mil anos mais velhos que o Texto Massorético. O achado incluía a cópia manuscrita mais antiga conhecida do livro completo de Isaías e fragmentos de quase todos os livros do Antigo Testamento. Também foram achados, em uma cópia esfarrapada, os livros de Samuel, juntamente com dois capítulos completos de Habacuque. Comparando-se os Rolos do Mar Morto com os outros manuscritos, os estudiosos ficaram pasmos ao descobrir como é precisa nossa Bíblia moderna. Na maioria dos casos, havia apenas pequenas diferenças de ortografia.

O mais antigo manuscrito com o texto hebraico completo que possuíamos fora preparado em 900 A.D. ou depois. Graças à arqueologia e aos Rolos do Mar Morto, um dos rolos era um manuscrito com o texto hebraico completo de Isaías datado de 125 a.C., e mais de mil anos mais antigo do que qualquer outro manuscrito anteriormente conhecido. O impacto dessa descoberta está em que o rolo de Isaías (125 a.C.) corresponde exatamente ao texto massoretico de Isaías (916 A.D.), preparado 1.000 anos depois. Isso demonstra a fidelidade e exatidão incomuns dos copistas pelo período de mil anos.

Sir Frederic Kenyon escreve: “Muito embora as duas cópias de Isaías descobertas em 1947, na caverna número 1 de Qumran (próximo ao mar Morto) fossem mil anos mais antigas que o mais velho manuscrito até então conhecido (980 A.D.), verificou-se que, em mais de 95% do texto, eram idênticas palavra por palavra ao nosso texto hebraico padrão. Os 5% de variação são, principalmente, erros óbvios de cópia e variações de ortografia. Mesmo os fragmentos de Deuteronômio e Samuel, descobertos no mar Morto e que indicam pertencerem a uma família de manuscritos diferente da do nosso texto hebraico conhecido, não apontam para quaisquer diferenças de doutrina ou de ensino. Absolutamente não afetam a mensagem revelada”.

Conclusão


O problema, antes da descoberta dos Rolos do Mar Morto, era sobre a fidelidade das cópias que temos hoje em comparação com o texto do primeiro século. Mas além deles, existem duas outras antigas testemunhas que atestam a precisão dos copistas do Antigo Testamento. Uma delas é a tradução grega do Antigo Testamento, chamada de Septuaginta; outra é o texto que foi preservado pelos samaritanos que vivem hoje na Palestina. Temos grande evidência externa de como é confiável o texto do Antigo Testamento. Podemos pegar o Antigo Testamento nas mãos e saber que ele é o mesmo compilado por Esdras no quarto século antes de Cristo, que ele é o mesmo lido por Jesus na sinagoga em Nazaré no primeiro século da nossa era. "Deus tem testemunhas fiéis, a quem confiou a verdade, e que preservaram a Palavra de Deus. Os manuscritos das Escrituras hebraicas e gregas foram preservados ao longo dos séculos por um milagre de Deus." – Ellen G. White, Carta 32, 1899.

Bibliografia: As informações nos parágrafos acima foram extraídas, condensadas e reordenadas das seguintes fontes: 1) Josh McDowell, Evidência que exige um veredito: evidências históricas da fé cristã. 2. ed. - São Paulo: Editora Candeia, 1996; e 2) A Bíblia para hoje, Lições da Escola Sabatina, 2º Trimestre de 2007, publicada pela Casa Publicadora Brasileira.

*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
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