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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Os adventistas, Ellen G. White e a certeza de salvação (2)

Este post é parte de uma série apologética sobre erros comuns que as pessoas 
acreditam e ensinam sobre os adventistas, sua história, suas crenças e suas práticas.
Erro comum: Ellen G. White escreveu nos livros "Mensagens Escolhidas" e "Parábolas de Jesus"que ninguém deveria dizer "estou salvo".

Sim, ela disse isso. Mas essas passagens foram escritas para condenar não a certeza bíblica e genuína que devemos ter em Cristo, mas uma segurança falsa e errada mantida por muitos cristãos. Vejamos abaixo o texto e o contexto dessas declarações.
Texto 1 "Jamais devemos repousar num estado de satisfação, e deixar de fazer progresso, dizendo: 'Estou salvo.' Se é entretida esta ideia, deixam de existir os motivos para a vigilância, a oração, o esforço sincero em seguir para a frente, rumo de realizações mais elevadas. Nenhuma língua santificada será encontrada pronunciando essas palavras antes que venha Cristo, e entremos pelas portas da cidade de Deus. Então, com a maior propriedade, poderemos dar glória a Deus e ao Cordeiro, pelo livramento eterno. Enquanto o homem estiver carregado de fraquezas — pois por si mesmo não pode salvar a alma — não deve nunca atrever-se a dizer: 'Estou salvo.' - Ellen G. White, "Mensagens Escolhidas", vol. 1, pág. 314.
Resposta Tal citação faz de um capítulo (capítulo 47 de "Mensagens Escolhidas", vol. 1) em que Ellen G. White critica cristãos imaturos e presunçosos que, dizendo "Estou salvo", recusam-se a obedecer a lei de Deus e a fazer qualquer progresso na vida cristã. Veja o contexto inteiro clicando aqui.
Texto 2 "O mesmo mal que levou Pedro à queda e excluiu da comunhão com Deus o fariseu, torna-se hoje a ruína de milhares. Nada é tão ofensivo a Deus nem tão perigoso para o espírito humano como o orgulho e a presunção. De todos os pecados é o que menos esperança incute, e o mais irremediável. A queda de Pedro não foi repentina, mas gradual. A confiança em si mesmo induziu-o à crença de que estava salvo, e desceu passo a passo o caminho descendente até negar a Seu Mestre. Jamais podemos confiar seguramente em nós mesmos ou sentir, aquém do Céu, que estamos livres da tentação. Nunca se deve ensinar aos que aceitam o Salvador, conquanto sincera sua conversão, que digam ou sintam que estão salvos. Isso é enganoso. Deve-se ensinar cada pessoa a acariciar esperança e fé; mas, mesmo quando nos entregamos a Cristo e sabemos que Ele nos aceita não estamos fora do alcance da tentação. A Palavra de Deus declara: 'Muitos serão purificados, e embranquecidos, e provados.' Daniel 12:10. Só aquele que 'sofre a tentação... receberá a coroa da vida'. Tiago 1:12. "Os que aceitam a Cristo e dizem em sua primeira confiança: 'Estou salvo!' estão em perigo de depositar confiança em si mesmos. Perdem de vista a sua fraqueza e necessidade constante do poder divino. Estão desapercebidos para as ciladas de Satanás, e quando tentados, muitos, como Pedro, caem nas profundezas do pecado. Somos advertidos: 'Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia.' 1 Coríntios 10:12. Nossa única segurança está na constante desconfiança de nós mesmos e na confiança em Cristo." - Ellen G. White, "Parábolas de Jesus", pág. 77.
Resposta Tal citação faz de um capítulo (capítulo 13 de "Parábolas de Jesus") em que Ellen G. White comenta a parábola do fariseu e do publicano. Em outros escritos, Ellen G. White fala que podemos ter uma certeza de salvação VERDADEIRA quando confiamos em Jesus e dependemos de Sua misericórdia e poder. Nesse trecho e capítulo de "Parábolas de Jesus", porém, ela condena uma certeza de salvação FALSA, demonstrada tanto pelo fariseu da parábola quanto por Pedro na primeira fase de sua vida. Essa certeza de salvação FALSA é baseada no orgulho que vem das próprias obras, e é presunçosa ao ponto de trocar a necessidade de orar e vigiar pela confiança na própria autossuficiência.
Fonte: As ideias acima foram baseadas na palestra "Are You Saved? Should You Say So? What Ellen White Taught about Assurance", de Jerry Moon, cuja leitura recomendamos.

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Os adventistas, Ellen G. White e a certeza de salvação (1)

Este post é parte de uma série apologética sobre erros comuns que as pessoas 
acreditam e ensinam sobre os adventistas, sua história, suas crenças e suas práticas.
Erro comum: Por causa de Ellen G. White, os adventistas são ensinados a não terem certeza de sua salvação em Cristo.
É preciso reconhecer, inicialmente, que muitos membros e mesmo alguns pastores adventistas alimentam ideias confusas sobre o plano da salvação e a relação entre fé e obras na vida cristã. Outros demoram a crer com o coração aquilo que já creem com a mente, sabendo intelectualmente mas não sentindo a paz de que são salvos em Jesus. Minha amizade com cristãos batistas, presbiterianos e pentecostais, contudo, me mostrou ao longo de 20 anos que esse problema existe em outras comunidades cristãs. 
Em todo caso, porém, a Igreja Adventista do Sétimo Dia exalta a graça de Deus oficialmente através de suas publicações e músicas e promove a certeza de salvação e o descanso na graça de Jesus. Neste post, citaremos alguns textos de Ellen G. White em que ela ensina seus leitores sobre a segurança que temos em Cristo.
Quem clamar a Jesus jamais se perderá "Não olheis para vós mesmos, mas para Cristo. Aquele que curava os doentes e expulsava os demônios, quando andava entre os homens, é ainda hoje o mesmo poderoso Redentor. A fé vem pela palavra de Deus. Apegai-vos, pois, a Sua promessa: 'O que vem a Mim de maneira nenhuma o lançarei fora'. João 6:37. Lançai-vos a Seus pés, com o clamor: 'Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade'. Marcos 9:24. Não podeis perecer nunca, enquanto assim fizerdes — nunca." — Ellen G. White, "O Desejado de Todas as Nações", pág. 302. Salvação total e completa em Jesus “Na cruz, Jesus comprou para nós uma salvação que é total e completa. […] Somos livres, realmente livres, e estamos eternamente livres, se tão-somente crermos.” – Ellen G. White, “Comentário Bíblico Adventista”, vol. 6, pág. 1113.
Quarteto adventista Arautos do Rei cantando a música "Graça".
A fé em Jesus dá certeza de salvação "A fé, a fé salvadora, deve ser ensinada. A definição dessa fé em Jesus Cristo pode ser dada em poucas palavras: é o ato da alma pelo qual o homem todo se entrega à guarda e controle de Jesus Cristo. Ele permanece em Cristo e Cristo habita na alma supremamente, pela fé. O crente confia alma e corpo a Deus, e com convicção pode dizer: Cristo é capaz de guardar aquilo que Lhe confiei, até aquele dia. Todos os que isso fizerem serão salvos para a vida eterna. Haverá a certeza de que a alma foi lavada no sangue de Cristo e revestida com a Sua justiça, sendo preciosa à vista de Jesus. Nossos pensamentos e nossas esperanças estão no segundo advento de nosso Senhor. Este é o dia em que o Juiz de toda a Terra recompensará a confiança de Seu povo." – Ellen G. White, "Mente, Caráter e Personalidade", vol. 2, pág. 531.
Seguros em Jesus como se já estivéssemos dentro da Cidade de Deus “A mensagem que Deus me enviou para ser dada a você [Lizzie Innes, uma mulher que estava deprimida por causa de uma doença que enfrentava] é: ‘O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora’ (João 6:37). Se você não tiver nada mais a pleitear diante de Deus a não ser esta única promessa de seu Senhor e Salvador, já tem aqui a garantia de que nunca, nunca será mandada embora. Pode lhe parecer que você está se agarrando a uma única promessa, mas aproprie-se dessa única promessa, e ela lhe abrirá o tesouro inteiro das riquezas da graça de Cristo. Apegue-se a essa promessa e você estará segura. ‘O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.’ Apresente esta certeza a Jesus, e você estará tão segura como se já estivesse dentro da Cidade de Deus”. – Ellen G. White, "Manuscript Releases", vol. 10, p. 175. [Fonte: http://text.egwwritings.org/publication.php?pubtype=Book&bookCode=10MR&lang=en&collection=2&section=9&pagenumber=175&QUERY=holy+city&resultId=29]
Com Jesus não há momento sem salvação "Pode dizer o pecador, a perecer: 'Sou um pecador perdido; mas Cristo veio buscar e salvar o que se havia perdido. Diz Ele: ‘Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.’ Marcos 2:17. Sou pecador, e Ele morreu na cruz do Calvário para me salvar. Nem um momento mais preciso ficar sem me salvar. Ele morreu e ressurgiu para minha justificação, e me salvará agora. Aceito o perdão que prometeu.'” — Ellen G. White, "Mensagens Escolhidas", vol. 1, pág. 392. Em comunhão com Jesus, Ele nunca nos soltará "Coisa alguma é aparentemente mais desamparada, e na realidade mais invencível, do que a alma que sente o seu nada, e confia inteiramente nos méritos do Salvador. Pela oração, pelo estudo de Sua Palavra, pela fé em Sua constante presença, a mais fraca das criaturas humanas pode viver em contato com o Cristo vivo, e Ele a segurará com mão que nunca a soltará.” — Ellen G. White, "A Ciência do Bom Viver", pág. 182 É essencial crer em Jesus e na certeza de salvação Ela disse de si mesma: “Jesus me salvou, embora eu não tivesse nada para apresentar a Ele." — Ellen G. White, "Review and Herald", 14 de julho de 1891.
“É essencial ter fé em Jesus e crer que você está salvo por meio dele." — Ellen G. White, "Review and Herald", 1º de novembro de 1892. Não demos duvidar de Jesus e da salvação"Ninguém pode tornar-se melhor, mas devemos vir a Jesus como estamos, desejando ardentemente ser purificados de cada mancha e mácula de pecado, e receber o dom do Espírito Santo. Não devemos duvidar de Sua misericórdia, e dizer: 'Não sei se eu serei salvo ou não.' Por meio de uma fé viva devemos tomar posse da sua promessa, pois ele disse: 'Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã." — Ellen G. White, "Sinais dos Tempos", 4 de abril de 1892.

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domingo, 14 de junho de 2015

É pecado ou errado ser rico?

"Cristo e o Jovem Rico" (1889), de Heinrich Hofmann. 
por Walter Mendes
O relato do jovem rico, narrado em três dos quatro evangelhos (Mateus 19: 16-26; Marcos 10:17-31 e; Lucas 18:18-30), talvez seja uma das histórias bíblicas mais conhecidas e mal-entendidas. Em resumo: um rapaz pergunta a Jesus o que deve fazer para ter a vida eterna, e o Salvador lhe diz, ao final do relato, para vender tudo o que tem e dar aos pobres.

Por causa dessa ordem dada ao jovem, muitos dentro e fora das igrejas acreditam que a riqueza é incompatível com o evangelho, que o rico não pode se salvar, que todo rico deveria entregar seus bens aos pobres etc. Mas será isso verdade? O pedido de Jesus ao jovem rico deve ser estendido a todas as pessoas abastadas que queiram seguir ao Salvador?

1) JESUS TINHA SEGUIDORES RICOS

Ao contrário do que muitos imaginam, Jesus contava com pessoas abastadas entre Seus adeptos. Foi o caso das mulheres ricas que seguiam a Jesus e financiavam Seu ministério:

"Depois disso Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens."
– Lucas 8:1-3, NVI

Foi o caso de José de Arimateia, que cedeu seu túmulo para enterrar o corpo de Jesus:

"Ao cair da tarde chegou um homem rico, de Arimatéia, chamado José, que se tornara discípulo de Jesus. Dirigindo-se a Pilatos, pediu o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo de linho e o colocou num sepulcro novo, que ele havia mandado cavar na rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro, retirou."
– Mateus 27:57-60, NVI

Também foi o caso de "um homem rico chamado Zaqueu, chefe dos publicanos", cujo relato de conversão pode ser lido em Lucas 19:1-10.

2) O CASO DO JOVEM RICO

Como explicar o relato do jovem rico e a ordem dada a ele para que vendesse tudo o que tinha e desse aos pobres?

Primeiro, o problema da riqueza, segundo Jesus, é que ela leva seu possuidor a confiar mais nos bens terrenos do que no poder de Deus, além de focar-se mais neste mundo provisório do que no futuro reino de Deus. Foi o que Ele ensinou em passagens como a seguinte:

“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração."
– Mateus 6:19-21, NVI

Segundo, o relato do jovem rico não pode nem deve ser usado para combater ou condenar os ricos ou a riqueza em si. Jesus pediu ao jovem que vendesse tudo o que tinha e desse aos pobres, é verdade. Mas em momento algum fez o mesmo pedido às mulheres ricas que o seguiam, ao rico José de Arimateia ou ao rico Zaqueu. O caso desses homens e mulheres abastados nos Evangelhos mostra que a riqueza não é impedimento para alguém abastado seguir a Jesus. O problema não é a riqueza, mas o valor atribuído a ela por seu possuidor.

Terceiro, Jesus disse que é impossível a um rico entrar nos Céus, sim. Mas também disse que Deus faz coisas impossíveis – o que inclui transformar o coração de um rico para ele entrar nos Céus. Tanto a impossibilidade humana quanto a onipotência divina encontram-se no final do mesmo relato:

"Então Jesus disse aos discípulos: 'Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus'. Ao ouvirem isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: 'Neste caso, quem pode ser salvo?' Jesus olhou para eles e respondeu: 'Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis'”.
– Mateus 19:23-26, NVI

3) O EVANGELHO NÃO CONDENA A RIQUEZA EM SI

Jesus contou a parábola dos talentos em Mateus 25:14-30. Nela, Ele se compara a um homem rico que viaja e entrega seus bens aos servos para administrá-los enquanto está fora. Nenhuma crítica direta ou indireta à riqueza é encontrada nessa parábola, na qual fica implícito o apoio de Jesus a coisas como poupança, investimento em ações ou títulos, além do comércio em geral.

Em outro trecho, Lucas 12:13-21, ele conta a parábola do rico insensato. O que ele critica ali não é a riqueza, mas a ganância que surge ao se confiar na riqueza e se esquecer de Deus. Riqueza que não terá nenhum valor quando todos, pobres e ricos, forem chamados a prestar contas de seus atos perante o Grande Juiz.

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sobre a ordenação de mulheres ao pastorado


por Walter Mendes

Em resposta a uma foto que publiquei no Facebook em favor da ordenação de mulheres ao pastorado adventista, um amigo me recomendou assistir a um vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube. Como quase todos os adventistas sabem, a ordenação de mulheres ao pastorado será votada em julho próximo no Texas (EUA) durante a 60ª Conferência Geral 2015 da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O que se segue abaixo são uma resposta aos argumentos apresentados no vídeo postado na página da TV Terceiro Anjo no YouTube.

Em primeiro lugar, o pastor cita o texto paulino de 1 Timóteo 2:12-13, em que lemos que a mulher não deve exercer autoridade sobre o homem:

"E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva."
– 1 Timóteo 2:12-13, ARA

Mulheres têm tido um papel fundamental no ensino da Bíblia e pregação do evangelho na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde sua fundação em 1863. A começar pelo ministério de uma de seus 3 fundadores, a saber a americana Ellen G. White. Elas ensinam crianças, jovens e adultos nas Escolas Bíblicas Sabatinas, além de pregarem regularmente nos púlpitos de diversas igrejas locais.

Há mulheres anciãs (presbíteras, conforme a nomenclatura de outras igrejas) em diversas igrejas locais mundo afora, incluindo no Brasil. Há mulheres pastoras em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China, mas elas (ainda) não são ordenadas oficialmente dentro do Adventismo. Contudo, diaconisas são ordenadas oficialmente na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde 2010.

Se a interpretação bíblica do pastor do vídeo está correta, devemos então rejeitar o ministério e as publicações de Ellen G. White, uma mulher que exerceu e exerce autoridade sobre os homens adventistas desde 1844. E isso não é força de expressão: a história do Adventismo mostra que ela já confrontou presidentes de associações locais e da Conferência Geral em seus dias para que abandonassem erros pessoais e administrativos.

Igualmente deveríamos ser coerentes como outras igrejas evangélicas fazem ao interpretar literalmente esse texto, não permitindo que a mulher tenha qualquer cargo na Igreja exceto o de professora de crianças na Escola Bíblica. Uma mulher que pregue na igreja local, tenha qualquer cargo de liderança em qualquer departamento ou seja professora de qualquer classe de Escola Sabatina está exercendo autoridade sobre os homens debaixo dela.

Segundo ponto: é verdade que Paulo diz que os anciãos e pastores devem ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3:12; Tito 1:5-9), outro argumento bíblico usado pelo pastor do vídeo. Mas o assunto em questão é que o líder cristão não deve ser polígamo – algo comum nos tempos do Novo Testamento. Não se trata de uma qualificação 'sine qua non' que exclua a liderança feminina, permitindo o ancionato ou pastorado apenas para homens cristãos. Do contrário, devemos ser coerentes e descartar a prática adventista de separar homens solteiros e viúvos para o ancionato ou o pastorado – pois essa é a leitura mais literal do texto.

Terceiro, Deus não criou Adão e Eva para que um dominasse sobre o outro, como sugere o pastor no vídeo. O texto de Gênesis é bem claro ao dizer que ambos carregavam em si a imagem de Deus (1:26-27) e que a mulher seria uma auxiliadora do homem (2:18) – uma igual a ele. É muito bonito a forma como Ellen G. White explica esse texto no "Patriarcas e Profetas", págs. 18-19:

"O próprio Deus deu a Adão uma companheira. Proveu-lhe uma 'adjutora' — ajudadora esta que lhe correspondesse — a qual estava em condições de ser sua companheira, e que poderia ser um com ele, em amor e simpatia. Eva foi criada de uma costela tirada do lado de Adão, significando que não o deveria dominar, como a cabeça, nem ser pisada sob os pés como se fosse inferior, mas estar a seu lado como igual, e ser amada e protegida por ele. Como parte do homem, osso de seus ossos, e carne de sua carne, era ela o seu segundo eu, mostrando isto a íntima união e apego afetivo que deve existir nesta relação." 

A submissão da mulher ao homem veio apenas com a entrada do pecado em Genesis (3:16), não sendo parte do propósito original de Deus. Paulo diz em Gálatas 3:28 que na nova ordem trazida por Jesus não há diferença entre homem e mulher, entre judeus e gentios, entre escravos e livres. Defender o contrário é defender um machismo disfarçado em busca de respaldo na Palavra de Deus.

"Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus."
– Gálatas 3:26-28, NVI

Em quarto lugar, há certas coisas que podemos admitir sem que isso signifique reinterpretar a Bíblia ou deixar a ética de Deus num campo vago, como diz o pastor no vídeo. Primeiro fato negado pelo pastor no vídeo: a Bíblia foi influenciada pela cultura em que ela foi escrita sim e existe um ideal de Deus que não foi plenamente atingido no Novo Testamento. Por exemplo, os cristãos não devem aceitar hoje a poligamia (por mais que não houvesse um mandamento contra ela no AT) nem a escravidão (mesmo que ela não fosse combatida com todas as letras no NT). Tais práticas vão contra o ideal de Deus no Éden e contra o espírito do Evangelho, mesmo que não haja um mandamento expresso contra a poligamia e a escravidão.

Segundo fato negado pelo pastor no vídeo: certas normas foram dadas apenas a uma situação local do povo de Deus. Igualmente acreditamos que não são válidas para hoje ordens como aquelas para o uso do véu na igreja (1 Coríntios 11:3-16), para as mulheres ficarem caladas na igreja (1 Coríntios 14:34-35) ou para nos saudarmos com “ósculo santo” (Romanos 16:16; 1 Coríntios 13:12; 16:20; 1 Tessalonicenses 5:26; 1 Pedro 5:14). Esse “ósculo santo” seria um beijo no rosto de saudação entre homens e entre mulheres, tal como é feito na Argentina ou na França. Apesar de estarem em diversas cartas do Novo Testamento, tais ordens não são princípios universais a serem seguidos por todos os crentes de todas as épocas e todas as culturas.

Em quinto lugar, chega a ser intelectualmente desonesto e blasfemo à Palavra de Deus comparar um princípio moral, universal e explícito na Bíblia como a guarda do sábado com uma questão cultural, local e sem respaldo a favor ou contra nas Escrituras como a ordenação de mulheres, como faz o pastor desse vídeo. Além de ignorar princípios elementares de interpretação da Palavra de Deus, o pastor do vídeo ignora que os adventistas sempre fizeram a separação entre princípios e mandamentos de aplicação universal e ordens de aplicação restrita e cultural.

Por exemplo, os adventistas guardam o sábado conforme exigem os Dez Mandamentos (Êxodo 20:8-11), mas não apedrejamos nem condenamos quem acenda fogo nesse dia (Êxodo 35:3; Números 15:32-36) – a Bíblia manda fazer as duas coisas. Igualmente não deixamos de condenar o adultério (Êxodo 20:14) pelo fato de não apedrejarmos os adúlteros (Levítico 20:10) – a Bíblia ensina ambas as coisas. Também não deixamos de ensinar o dízimo aos membros em nossos estudos bíblicos (um princípio que cremos ser universal) apesar de a Bíblia descrever que o dízimo era entregue em 90% dos casos na forma de animais, vegetais e vinho (Levítico 27:30-33; Deuteronômio 12:17-18; 14:22-27; 2 Crônicas 31:4-7) levados ao sacerdote no templo – uma ordem local e temporal.

Sexto, é completamente desonesta a forma como o pastor do vídeo associa um possível voto a favor da ordenação de mulheres ao risco de uma futura ordenação de pastores gays ou pastoras lésbicas. Primeiro, não há relação alguma entre uma coisa e outra, como se uma levasse necessaria ou inevitavelmente à outra. Numa lista de 21 igrejas citadas por nome num site contra a ordenação de mulheres, podem ser contadas 11 igrejas que ordenam mulheres, mas não ordenam pastores gays ou pastoras lésbicas.

Além disso, podemos mencionar no mesmo caminho de ordenar mulheres mas não GLBT as igrejas batistas da Alemanha e da Suíça (Bund Evangelisch-Freikirchlicher Gemeinden e Bund Schweizer Baptistengemeinden), bem como diversas igrejas batistas americanas filiadas à Southern Baptist Convention (algumas apenas), à American Baptist Churches USA, à North American Baptist Conference, à Alliance of Baptists, à Cooperative Baptist Fellowship (CBF) National Baptist Convention e à Progressive National Baptist Convention. Sem contar diversas igrejas como as menonitas, morávias, presbiterianas (exceto a PCUSA), pentecostais e reformadas nos EUA e Europa que também ordenam mulheres sem ordenar ou querer ordenar pastores gays ou pastoras lésbicas.
Para encerrar esse ponto e partir para a conclusão, lembro que a IASD ordena pastores homens e pastoras mulheres em algumas regiões dos Estados Unidos, na Holanda, partes da Alemanha e em toda a China sem defender ou discutir a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.

Finalmente, a IASD possui doutrinas bíblicas fundamentais estabelecidas (entre as 28) sobre matrimônio e família e sobre a criação. Além de uma declaração oficial clara contra a prática do homossexualismo. Isso não acontece com as denominações citadas no vídeo que apoiam/defendem a agenda ligada aos direitos dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis.
Ao contrário dos anglicanos, luteranos evangélicos, episcopais e metodistas unidos dos EUA, citados no vídeo, os adventistas do sétimo dia não somos uma denominação com um histórico de décadas de liberalismo teológico nem menosprezo ao método gramático-histórico – a abordagem adotada por nós e outras igrejas conservadoras na interpretação da Bíblia. (As denominacões citadas no vídeo e abertas a pastores gays e lésbicas usam o método histórico-crítico.)

As Divisões Norte-Americana e Trans-Europeia citadas no vídeo não reinventaram a roda ao fazer sua interpretação pró-ordenação, nem estão se desviando da interpretação correta ou tradicional da IASD. Elas apenas estão seguindo o método de estudo e interpretação das Escrituras segundo a declaração aprovada e votada pela Comissão Executiva da Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, na sessão do Concílio Anual no Rio de Janeiro, Brasil, 12 de outubro de 1986.

O que está em jogo na votação a favor ou contra a ordenação de mulheres não é uma divisão entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Querem os Adventistas Rebeldes, mas entre o Assim Diz o Senhor versus o Assim Defende nosso Costume e Tradição Humana.
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Não confunda o evangelho com a política

por Walter Dos Santos* 

Quando o pastor da 1ª Igreja Batista de Curitiba Paschoal Piragibe Jr. ligou a tese da "iniquidade institucionalizada" com a aprovação legal do aborto e do casamento gay, muitos cristãos evangélicos progressistas levantaram-se contra essa associação. Segundo vários desses oponentes, o pastor foi omisso e limitado ao não reconhecer pecados profundamente enraizados no Brasil como a questão previdenciária, a criação da CPMF, o sistema público de saúde, o acúmulo de terras etc. 

Como podemos identificar facilmente, tais críticos afirmam que tanto essas questões sociais citadas quanto aqueles temas morais listadas pelo pastor contribuem para a iniquidade em nosso país. Neste artigo pretendemos apresentar um breve panorama do cristianismo engajado por trás dessa visão e analisar o ensino bíblico sobre a responsabilidade social da Igreja. 

Evangelho Social e Teologia da Prosperidade 


As críticas levantadas contra o pronunciamento do Pr. Piragibe Jr. por esse setor da igreja evangélica brasileira refletem o ideário do Evangelho Social, movimento protestante surgido e desenvolvido nos Estados Unidos de 1880 a 1930. Devido à crise urbana ocasionada pelo crescimento econômico pós Guerra Civil, muitos trabalhadores e imigrantes viviam nos cortiços das grandes cidades e sofriam uma grave situação de abandono e exclusão. Em resposta, vários crentes americanos moveram compaixão e esforços em favor deles e formularam conceitos como “a implantação do reino de Deus na Terra”, a importância de uma “sociedade redimida” e o papel da ação social como parte da missão da Igreja. 

O pastor e professor de seminário batista Walter Rauschenbusch (1861-1918) foi o principal articulador teórico do movimento, com livros como O Cristianismo e a Crise Social, Cristianizando a Ordem Social e Uma Teologia para o Evangelho Social. Mas o Evangelho Social alcançou popularidade e expansão sem precedentes com a publicação do livro Em Seus Passos que Faria Jesus? (1897), best-seller escrito pelo pastor congregacional Charles Sheldon. Na obra, um pastor vive uma vida confortável e sem contratempos até o dia em que um homem pobre e necessitado aparece na sua igreja e o leva a rever seus valores, modo de vida e prioridades a partir da questão "O que Jesus faria?". A partir disso, decide propor aos fiéis de sua igreja que se comprometam durante um ano a não fazer nada sem antes perguntar o que Jesus faria na mesma situação. A experiência traz reavivamento e alegria a vários dos paroquianos, bem como renúncias pessoais, conflitos de interesse e choques sociais ao aplicarem o compromisso. 

Nas fileiras católicas, por outro lado, encontraremos a Teologia da Libertação, desenvolvida na América Latina em meados do século 20. Como a região enfrentava um período de grandes tensões políticas, injustiças econômicas e exclusão social, os pensadores católicos articularam uma nova teologia centrada no conceito bíblico de Deus como libertador. Entre as ênfases da Teologia da Libertação podemos citar a visão do reino de Deus numa perspectiva de libertação política e social neste mundo e um forte menosprezo à reflexão e prática cristãs tradicionais devido a seu suposto caráter "alienante" e reacionário.

Igualmente devemos apontar o uso nesse movimento de categorias do pensamento marxista para entender as mazelas da América Latina e o apoio ora ímplicito ora escancarado a movimentos esquerdistas radicais no continente. Embora tenha havido pensadores protestantes na sua formulação, a Teologia da Libertação foi uma iniciativa predominantemente católico-romana. Contudo, setores evangélicos formularam uma alternativa à Teologia da Libertação no conceito de “missão integral” – em que a igreja inclui a ação social como aspecto indispensável de seus esforços missionários. 

Atos não foi um Woodstock comunista 

De onde vêm as bases do discurso dos cristãos que lutam por justiça social? Além do ministério de Cristo em favor dos pobres, os adeptos do cristianismo engajado recorrem ao modelo da igreja primitiva e ao discurso social dos profetas. Alguns leem a vida em comunidade e partilha de bens apresentada em At 2:44-47 e gostam de idealizar a Igreja Primitiva como uma sociedade alternativa, “metade-hippie” e “metade-crente”. Muitos vão ao extremo de afirmar que essa foi uma experiência socialista/marxista na História da Igreja. Nada mais distante dos fatos. A comunidade cristã primeva era tão complexa em sua dinâmica interna quanto a igreja moderna: extremamente liberal para os conservadores, extremamente conservadora para os liberais. Peço a licença de citar dois parágrafos do livro Cristianismo Puro e Simples, de C.S. Lewis, pág. 31:
"Do mesmo modo, o Novo Testamento, sem entrar em detalhes, nos pinta um quadro bastante claro do que seria uma sociedade plenamente cristã. Talvez exija de nós mais do que estamos dispostos a dar. Informa-nos que, nessa sociedade, não há lugar para parasitas ou passageiros clandestinos: aquele que não trabalhar não deve comer. Cada qual deve trabalhar com suas próprias mãos e, mais ainda, o trabalho de cada qual deve dar frutos bons: não se devem produzir artigos tolos e supérfluos, nem, muito menos, uma publicidade ainda mais tola para nos persuadir a adquiri-los. Não há lugar para a ostentação, pata a fanfarronice nem para quem queira empinar o nariz. Nesse sentido, uma sociedade crista seria o que se chama hoje em dia "de esquerda". 
"Por outro lado, ela insiste na obediência — na obediência (acompanhada de sinais exteriores de reverência) de todos nós para com os magistrados legitimamente constituídos, dos filhos para com os pais e (acho que esta parte não será muito popular) das esposas para com os maridos. (...) Se existisse uma sociedade assim e nós a visitássemos, creio que sairíamos de lá com uma impressão curiosa. Teríamos a sensação de que sua vida econômica seria bastante socialista e, nesse sentido, "avançada", mas sua vida familiar e seu código de boas maneiras seriam, ao contrário, bastante antiquados — talvez até cerimoniosos e aristocráticos. Cada um de nós apreciaria um aspecto dela, mas poucos a apreciariam por inteiro. Isso é o que se deve esperar de um cristianismo como projeto integral para o mecanismo da sociedade humana."
O Antigo Israel não é a Igreja 

Outra pretensa base para os adeptos e simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Libertação é o discurso social dos profetas do Antigo Testamento contra a acumulação de terras, a justiça corrompida e a opressão social. Mas essa leitura ignora completamente o contexto histórico e o propósito original das mensagens dos profetas do do Antigo Testamento. 

Primeiramente, o Antigo Israel não pode ser confundido com a Igreja. Os israelitas eram um povo nacional distinto que vivia sob uma teocracia, com instituições e leis civis direta ou indiretamente apontadas por Deus na lei mosaica. Quando os profetas condenavam os abusos sociais do povo eleito, eles condenavam desvios de uma “constituição” outorgada por Deus e entregue a governantes, juízes e sacerdotes responsáveis por fazer cumpri-la. 

O Senhor Jeová havia concedido à nação israelita tanto os mandamentos contra o adultério e assassinato (morais) quanto as leis contra o acúmulo de terras e a opressão do estrangeiro e do órfão (sociais). Quebrar tanto estas quanto aquelas era pecado, pois constituía rebelião contra uma ordem moral e social expressamente revelada por Deus. Não é este o caso dos cristãos do Novo Testamento em diante, um grupo multicultural e multi-étnico que vive em regimes políticos e sociais os mais diferentes, com governo, instituições e leis criados sem uma revelação direta da parte de Deus. 

Dois fatos comprovam essa tese, retirando o embasamento dos cristãos modernos que se apoiam no discurso social do Antigo Testamento. Primeiro, os profetas condenavam tanto os crimes sociais quanto os morais do povo judeu, mas apenas os desvios morais dos povos pagãos ao redor de Israel. Nenhum profeta maior ou menor condena a acumulação de terras, a justiça corrompida e a opressão social dos assírios, egípcios, babilônios ou filisteus. 

Segundo, o mesmo padrão de dupla moralidade se repete nas páginas do Novo Testamento. Paulo condena a devassidão moral de pagãos, judeus e cristãos igualmente (Rm 1-3; 1Co 5, 10); mas propõe normas de ética social apenas à comunidade dos crentes (Rm 12-14; 1Co 6-8). Tiago é, sem sombra de dúvidas, o escritor com o discurso social mais enfático do Novo Testamento. Suas reprovações, porém, contra a discriminação social (Tg 2) e o enriquecimento ilícito pela opressão dos trabalhadores são dirigidas aos crentes em Jesus (Tg 5). Pedro ordena a todos os crentes que se submetam às autoridades e, fazendo o bem, suportem as provações e calem os adversários pela prática do bem (1Pe 2-3). 

Quatro verdades esquecidas 

Isso significa então que a Igreja deve ignorar o sofrimento e a desigualdade no mundo, sem nada fazer para melhorar a condição das pessoas? Não, de maneira nenhuma! Os defensores e simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Libertação incluem cristãos sinceros e comprometidos com a melhoria e ascensão das classes menos favorecidas. Contudo, o ensino de ambos os Testamentos apresenta conceitos e ênfases diferentes das formuladas pelos assim chamados Evangelho Social e Teologia da Libertação.

Primeiramente, a Palavra de Deus coloca uma forte ênfase nas questões morais e não nas sociais. Usando jargões esquerdistas, podemos atrever a dizer que ela é bastante "direitista, conservadora, burguesa, retrógrada e reacionária", para o desgosto de muitos dos partidários do Evangelho Social e da Teologia da Libertação – dentro e fora da Igreja. Com isso não queremos dizer que a mensagem bíblica é elitista ou que defenda as propostas daqueles que se encaixam nesses rótulos. Apenas queremos enfatizar que os valores bíblicos identificam-se mais com os ditos valores burgueses do que com os valores normalmente defendidos por socialistas e comunistas.

Se lermos ainda que superficialmente os Dez Mandamentos (Ex 20), o Sermão do Monte (Mt 5), a profecia sobre a condição social nos últimos dias (2Tm 3:1-9) e as listas de vícios no Novo Testamento (1Co 6:9-11; Gl 5:19-21; Ap 22:14-15), observaremos rapidamente que a Lei Moral de Deus condena explicita, demorada e repetidamente os crimes e pecados contra a honestidade, a vida humana, a propriedade privada, a moderação pessoal, a ordem social e o casamento heterosssexual.

Em segundo lugar, a Bíblia é enfática ao apresentar a natureza má e pecaminosa do ser humano, não necessariamente do sistema sócio-político em que ele vive (Jó 14:4; Pv 20:9; Sl 51:5; Is 64:6; Je 17:9; Mt 15:19; Rm 7:14-20; 8:5-8). Desta maneira, qualquer tentativa de melhorar as condições de uma determinada sociedade precisa passar necessariamente pelo chamado individual ao arrependimento (At 3:19; 5:30-31; Rm 2:4) e conversão a Jesus Cristo (Ez 18:30-32; At 17:30-31). A menos que haja a regeneração sobrenatural do coração por meio da reconciliação com Deus em Cristo (Jo 3:3-8; 8:34-36; Ef 2:1-5; 2Co 5:17), qualquer tentativa de eliminar a o egoísmo, a corrupção, a desigualdade e o conflito no interior de uma sociedade será provisória e inútil.

Terceiro, a ação de Jesus e Seus apóstolos contraria radicalmente o plano de trabalho proposto pelos simpatizantes do Evangelho Social e da Teologia da Prosperidade. Na tentativa de implementar o Reino de Deus na Terra anunciado pelo Salvador, os defensores de tais propostas apresentam um discurso de mobilização sócio-política em defesa dos excluídos, combate ao sistema institucional opressor e denúncia das injustiças sociais. Escravidão, idolatria, jogos violentos e sanguinários, opressão política, ganância, impostos abusivos, execucões em massa em caso de rebeliões e golpes de Estado eram abusos frequentes dentro das fronteiras do Império Romano. Contudo, nem Jesus nem os Doze empenharam bandeiras, fizeram discursos ou promoveram mobilizações contra as injustiças sociais do Império Romano, embora elas existissem – e existissem numa proporção alarmante. 

Na parábola dos bodes e ovelhas, Jesus elogiou e prometeu entrada no Céu aos que discretamente visitavam os presos, alimentavam os famintos e vestiam os nus (Mt 25:31-46), não aos que usavam a voz em favor deles. Jesus nunca fez nenhuma mobilização ou propôs leis em favor dos excluídos, nem das vítimas dos impostos abusivos dos publicanos, do sistema de saúde precário da Palestina ou da dominação estrangeira feita por Roma. 

Isso não significa, é claro, que a Igreja no Novo Testamento não tivesse preocupação com os infortúnios dos mais frágeis e menos favorecidos na sociedade. Mas isso nos leva ao último ponto de nossa revisão sobre o ensino da Palavra de Deus a esse respeito: em vez de elaborar e proclamar um discurso social, a Igreja é chamada a oferecer uma ação alternativa ao modelo social externo. Os evangelhos mostram que Jesus recebeu, chamou, curou, abençoou e elogiou viúvas e crianças pobres, estrangeiros discriminados e pescadores desassistidos. E mandou Seus seguidores fazerem o mesmo. Ele ilustrou a natureza da verdadeira religião cristã ao contar a parábola do bom samaritano (Lc 10:30-37): não consiste em sistemas, credos ou ritos, mas no cumprimento de atos de amor e genuína bondade, sem distinção de raça, classe social ou confissão religiosa. 

Com ensinos como esse, a comunidade cristã primeva lutou contra a injustiça social no Império Romano durante e depois dos tempos do Novo Testamento diferentemente do que os cristãos de “direita”, “esquerda” ou “centro” fazem hoje. Sem muita teoria e com muita prática. Os primeiros cristãos ofereciam um modelo de sociedade em que os excluídos eram aceitos e bem-recebidos, as diferenças sociais eram apagadas nas interações da comunidade interna e onde escravos e senhores eram irmãos na vida da Igreja. Mais tarde, foram os cristãos que fundaram os primeiros orfanatos, lares para idosos e hospitais no mundo ocidental por valorizarem e acolherem os membros mais frágeis da sociedade. 

O Reino de Deus não é deste mundo 

Voltando ao caso do Pr. Piragibe Jr., ele tem a Palavra de Deus a seu favor ao defender como "iniquidade institucionalizada" a possível aprovação legal de questões morais contrárias à Lei de Deus revelada na Bíblia. A tarefa da Igreja é defender os valores atemporais e transnacionais ensinados na Palavra de Deus.

Verdade seja dita, nada impede que cristãos sinceros e consagrados lutem contra as mazelas e problemas sociais e políticos do país em que vivem, exercendo suas atividades para a glória de Deus e o bem do próximo. Mas ele ou ela deve ter a consciência de que a agenda sócio-política não deve nem pode ser confundida com a agenda do Reino de Deus. Não existe uma ação sócio-política cristã, nem um candidato do coração de Deus, muito menos uma causa partidária a serviço do evangelho. Da mesma maneira que não existe uma medicina cristã, ou um mecânico do coração de Deus ou uma ação contábil a serviço do evangelho. Portanto, não confunda o evangelho com a política.

*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Deus amou o mundo. Não tente fazer o mesmo

por Marco Aurelio Brasil

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único filho..." Deus amou o mundo. O mundo inteiro. Com suas imperfeições todas. Com sua multiplicidade interminável. Com seus africanos e seus escandinavos, seus orientais e seus caucasianos; com budistas e cristãos, satanistas, muçulmanos e espíritas; com altos e baixos, ricos e pobres, cultos e incultos. Deus amou o mundo todo. E, embora Ele tenha vivido entre nós e solicitado que O imitássemos em tudo, nesse quesito específico Ele pediu uma outra coisa. Ele não quer que amemos o mundo. Ele quer que amemos o próximo.

Nós temos abusado da palavra amor. Você diz para alguém que o ama, e dez minutos depois diz que ama cocada ou um par de sapatos. Quando Deus diz que amou o mundo Ele está empregando o primeiro sentido da palavra, ou provavelmente bem mais que isso, porque mesmo para pessoas usamos a palavra amor de forma trivial. O amor de Deus não é trivial. É do tipo que renega a tudo o mais em nome do objeto amado. É do tipo que se diminui, se deixa torturar, cuspir, ridicularizar, xingar e matar.

Portanto, o amor segundo Deus não é algo que se possa reduzir a um mero sentimento. O amor segundo Deus não pode ser "platônico". O amor segundo Deus não é algo abstrato, que pode ser encapsulado na subjetividade do amante, sem reflexo em suas ações, suas prioridades, sua atitude.

Raiz Coral - A Caridade

Acho que é exatamente por isso que Ele não nos pede para amar o mundo. Ele sabe que isso nos é impossível. Não conseguimos exercitar amor pelo mundo todo, porque somos finitos, somos limitados em tempo e em espaço. Só Deus pode amar o mundo.

O que uma criatura finita que foi muito amada pode, sim, fazer, é amar o próximo. Na verdade, é o que ele deve fazer, é a resposta lógica ao amor recebido. Perguntaram a Jesus quem era o próximo e sua resposta, através da parábola do bom samaritano, foi a mais trivial possível. Próximo, é a conclusão, é quem está próximo. É quem está perto de você. Quem quer que seja. Próximo é qualquer pessoa a quem você possa demonstrar amor. É qualquer pessoa que pode ser atingida pela exteriorização de algo que está dentro de você. É toda pessoa a quem você possa tocar, que possa ser impactada pelo seu sorriso, pela sua atenção. É qualquer pessoa a quem a sua preocupação e sua ação possa beneficiar de fato.

Olhe ao seu redor e imite a Deus.

Feliz sábado, @migos!

*Marco Aurelio Brasil é advogado e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Unasp Campus 1, em São Paulo/Capital.

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quarta-feira, 14 de abril de 2010

O que fazem os adventistas do sétimo dia?

Conheça as ações solidárias e projetos sociais da Igreja Adventista do Sétimo Dia na América do Sul, bem como suas iniciativas em prol da educação, saúde e liberdade religiosa. Nossa missão é servir!

OBS.: Para maior conforto ao ler a revista abaixo, clique em View in Fullscreen.
Igreja Adventista do Sétimo Dia – Revista Esperança Viva 

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Verdades sobre a mentira

por Rubem M. Scheffel*

Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo. Levítico 19:11
Você tem certeza de que nunca mentiu? Nem mesmo para agradar à dona-de-casa, jurando que a sopa de jiló e a salada de berinjela estavam uma delícia? Ou afirmando a um doente terminal que a aparência dele está ótima e que ele logo vai ficar bom? Ou escondendo suas verdadeiras intenções?
Meias-verdades também são mentiras? E exagerar ou diminuir uma verdade? É lícito mentir para salvar a própria vida ou a de outra pessoa? E o que dizer da hipocrisia? Como se pode ver, a mentira tem muitas facetas, e as respostas nem sempre são fáceis. Vejamos alguns casos bíblicos.
Grandes homens de Deus, como Abraão, Isaque, Jacó, Davi, mentiram. E todos eles colheram nesta vida os seus frutos amargos. Ananias e Safira cometeram um delito mais grave, mentindo ao Espírito Santo. E “perderam esta vida e a futura” (Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 76).
Raabe, a meretriz de Jericó, mentiu para salvar os espias israelitas, e com isso salvou também a própria vida e a de seus familiares. Ela teve a honra de ser ancestral do Salvador do mundo, o seu nome figura na galeria da fé em Hebreus 11. No entanto, a Bíblia não a elogia porque mentiu; apenas relata o que aconteceu. Ela foi elogiada, não por sua mentira, mas por ter acolhido os espias israelitas, fazendo-os partir por outro caminho (Tiago 2:25).
Um episódio curioso é o do profeta Samuel, que por ordem divina deveria ir a Belém com a missão primordial de ungir Davi como rei de Israel, enquanto Saul ainda era rei (1 Samuel 16). Samuel, entretanto, objetou, dizendo a Deus que Saul o mataria quando soubesse disso. Então Deus aliviou-lhe os temores, esclarecendo que a unção de Davi não seria pública, para não enraivecer Saul. Seria um ato doméstico, que não chamaria tanto a atenção. Para isso, Samuel deveria tomar um novilho para ser oferecido como sacrifício, mas sem revelar que, juntamente com o sacrifício, também ocorreria a unção de um novo rei. Não havia nada de errado em agir secretamente, pois Samuel não devia explicações a Saul, nem Deus lhe pediu que contasse a todos sobre a unção de Davi.
Jesus Cristo fez a mesma coisa com os discípulos ao recusar-Se a revelar tudo o que sabia: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12).
Podemos adotar aqui o seguinte princípio: “Mas, embora a verdade não possa ser dita inteiramente em todas as ocasiões, nunca é necessário nem justificável enganar” (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 245).
Hoje é o Dia da Mentira, um dia para não ser comemorado pelos que amam a verdade.
*Rubem M. Scheffel é pastor adventista do sétimo dia e ex-editor da Casa Publicadora Brasileira (CPB). O presente texto foi extraído do devocional Com a Eternidade no Coração (Meditações Diárias 2010), escrito por ele e publicado pela CPB.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Escrava, de Florbela Espanca

Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas de amor!

Que te seja propício o astro e a flor,
Que a teus pés se incline a Terra e o Mar,
P’los séculos dos séculos sem par,
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor!

Eu, doce e humilde escrava, te saúdo,
E, de mãos postas, em sentida prece,
Canto teus olhos de oiro e de veludo.

Ah! esse verso imenso de ansiedade,
Esse verso de amor que te fizesse
Ser eterno por toda a Eternidade!...

O poema acima foi extraído da Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, organizada por Sammis Reachers. O livro contem textos de 80 autores das literaturas brasileira, portuguesa e luso-africana. São alguns dos mais belos poemas de teor religioso de nomes como Gil Vicente, Gregório de Matos, Olavo Bilac, Machado de Assis, Antero de Quental, Cecília Meireles e Floberla Espanca. Você pode baixar o livro gratuitamente clicando aqui.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Magnificat, de Murilo Mendes

Meu espírito anseia pela vinda da Esposa,
Meu espírito anseia pela glória da Igreja,
Meu espírito anseia pelas núpcias eternas
Com a musa preparada por mil gerações.

Eu hei de me precipitar em Deus como um rio,
Porque não me contenho nos limites do mundo.
Dai-me pão em excesso e eu ficarei triste,
Dai-me luxo, palácios, ficarei mais triste.
Para que resolver o problema da máquina
Se minha alma sobrevoa a própria poesia?
Só quero repousar na imensidade de Deus!

O poema acima foi extraído da Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, organizada por Sammis Reachers. O livro contem textos de 80 autores das literaturas brasileira, portuguesa e luso-africana. São alguns dos mais belos poemas de teor religioso de nomes como Gil Vicente, Gregório de Matos, Olavo Bilac, Machado de Assis, Antero de Quental, Cecília Meireles e Floberla Espanca. Você pode baixar o livro gratuitamente clicando aqui.

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O lado duro da graça

por Marco Aurelio Brasil*

Acho que hoje entendi mais amplamente o que Jesus quis dizer ao referir que não veio trazer paz, mas espada (Mateus 10:34). É que até um fato que por si mesmo é mais do que bom pode ser uma má notícia para algumas pessoas.

Considere a mensagem da graça, por exemplo. Você sabe, "pela graça somos salvos e isso não vem de nós, é dom de Deus" (Efésios 2:5, 8, levemente parafraseado) . Para metade da população deste planeta esta é uma mensagem espetacular, é a única saída, é a válvula de escape, a tábua de salvação. Para essa metade da humanidade, ouvir que ela não precisa fazer nada para ser salva, que só lhe compete crer para que todo seu histórico de pecados seja coberto pela justiça de Cristo é tudo o que ela precisava ouvir e é tudo que ela não imaginava ser possível chegar a ouvir...

Mas há a outra metade.

Ezequiel 33:13 fala dela: "quando eu disser ao justo que certamente viverá, e ele, confiando na sua justiça, praticar iniquidade, nenhuma das suas obras de justiça será lembrada; mas na sua iniquidade, que praticou, nessa morrerá". Deus nos garante que o justo viverá, o justo não morrerá. O que essa outra metade da humanidade faz é passar a confiar em sua própria justiça. Deus diz que quando isso acontece, essa justiça não vai ser "lembrada". Ela não vai subir na balança.

O Medidor de Bondade (The Good-O-Meter)


Veja, então, que até a mensagem da graça pode ser indigesta para o homem. Ela diz que todas aquelas coisas das quais você se orgulha no seu íntimo não são dignas de mover uma palha em seu favor quando a questão é seu destino eterno. Não importa se você é um marido ou esposa carinhoso; se você, diferentemente dos outros, dedica tempo a ajudar alguém; nada importa se você paga todos os seus impostos; não importa se você é voluntário numa ONG que cuida de crianças carentes, se você tem consciência ecológica, se você perdoa os que lhe ofendem, se você não deixa o preconceito criar raízes em seu coração, não importa nenhuma das coisas que dão a você uma aparência de mais justiça que alguns outros ou que todos os demais. A mensagem da graça diz que isso tudo pode ser esquecido se tão somente você se apegar a isso em lugar de se apegar à mão estendida de quem morreu por você.

A graça é dura e por isso rejeitada por milhões de cristãos hoje mesmo, porque eles precisam fazer alguma coisa para sentirem que merecem ou que fazem jus à salvação, mas com isso eles estão diminuindo o tamanho do real precipício que o pecado cavou entre eles e Deus.

Jesus Cristo trouxe uma espada e separou a humanidade em duas partes (não necessariamente do mesmo tamanho; aliás, certamente uma delas é bem menor que a outra). Você hoje pode escolher estar do lado daquela que "certamente viverá". Basta, para tanto, reconhecer sua indignidade para estar lá. O resto Ele faz.

Feliz sábado, @migos!
19/06/09


*Marco Aurelio Brasil
é advogado e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Unasp Campus 1, em São Paulo/Capital.
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quinta-feira, 18 de junho de 2009

Aceitos, amados, queridos e acariciados nos braços de Deus

por Walter Dos Santos*

Uma das maravilhas do Orkut é poder ser avisado do aniversário dos seus amigos e conhecidos. Devido a um defeito de nascença — o cromossomo Y —, eu e todos os homens temos dificuldade de guardar e lembrar datas importantes, o que nos faz precisar de recursos como esse. Para ser ainda mais útil, creio que Orkut deveria lembrar também dos aniversários de primeiro encontro, namoro e casamento...

Pois bem, um de meus contatos nesse site de relacionamentos fez aniversário e, é claro, recebeu várias mensagens de parabéns e votos de felicidades. Ao agradecer as pessoas, contudo, ele lamentou que muitos amigos simplesmente surgiram do nada e que ele não havia feito nada digno no ano anterior para merecer aqueles votos. Sozinho em casa, tendo de estudar para uma prova da faculdade no dia seguinte, tudo o que ele tinha eram as mensagens do Orkut.

Por um lado, entendo o que ele enfrentava. Já passei por isso: havia chegado o meu aniversário e, com ele, os scraps no Orkut. Eu estava nos meus primeiros meses em São Paulo, trabalhando num domingo, longe da família, sem amigos por perto. Tudo o que eu tinha eram os scraps, mas vi nos meus o contrário do que o que meu colega viu nos dele. Eu percebi que pessoas se importavam comigo, que se davam ao trabalho de gastar parte do seu tempo para me desejar parabéns. Algumas eu não conhecia muito bem, mas de alguma maneira eu fiz algo bom ou fui alguém especial na vida delas. Ao ponto de elas me dedicarem parte de seu tempo e demonstrarem seu carinho por mim. Os scraps delas me lembravam disto: do valor da amizade e dos relacionamentos, da importância de imprimir uma marca especial nas pessoas ao nosso redor.

Por outro lado, percebo que também estou no grupo de pessoas medíocres e inúteis, tais quais meu colega apontou. Graças a Deus, beiro os 30 anos certo de que alcancei oportunidades e experiências muito boas em minha vida. Mesmo assim, porém, sou uma das pessoas comuns e ordinárias que nada fazem ou fizeram de especial, pelo menos não ao ponto de serem felicitadas e lembradas pelo mundo. Não estou fazendo apologia da medianidade, nem me referindo a participar de um reality show ou ser a celebridade do momento. Estou pensando em nomes como o neurocirurgião Ben Carson, o missionário na Índia Willian Carrey, o líder Martin Luther King Jr., o pregador Charles Spurgeon e outros grandes homens de Deus que impactaram o mundo ao seu redor.

Estou muito longe deles, e sou nada mais que um medíocre comparado a eles. E não só no aspecto profissional. Eu tenho meus defeitos, pecados e vícios. Há muita coisa em mim que ainda precisa ser melhorada e transformada. Acredite, faço minhas as palavras de Paulo: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, do quais eu sou o principal" (1 Timóteo 1:15). Mas a boa notícia é que a graça de Deus alcança pessoas ordinárias e comuns, como bem escreveu o pastor Ricardo Barbosa de Souza em texto neste portal. Não há razão para Ele nos amar, mas ainda assim Ele estende Seus braços sobre nós com bênção e proteção em nosso dia a dia. Deus me ama, mesmo sendo eu medíocre e inútil! No alto de meus 29 anos, sei que não preciso esperar fazer grandes realizações para ser feliz. Preciso apenas das grandes realizações de Quem realmente importa. Porque sei muito bem em Quem tenho crido e sei que sou aceito no Amado de Deus.

Wagner Pereira (Dida) & Riane Junqueira - Não há Razão


Ao pensar nisso, lembro de um sábado memorável este ano, em minha igreja local, a Igreja Adventista do Sétimo Dia de Moema, em São Paulo/Capital. O sermão do Culto de Adoração naquela manhã foi muito inspirador para mim e, creio também, para toda a congregação. Usando a genealogia de Jesus em Mateus 1, o pastor de jovens pregou sobre como a misericórdia brota dos ramos da árvore familiar de Jesus. Se você quiser desfrutar dessa mensagem, visite o site da TV Moema, clique em SERMÕES e procure o vídeo "Misericórdia de Deus", do Pr. Alberto Nery.

O pregador mencionou vários antepassados da família de Cristo alcançados pela graça. Tamar, a mulher que, tendo passado duas vezes pela dor da viuvez, engana o sogro e engravida dele numa medida desesperada para superar a rejeição da família (Gênesis 38). Raabe, a prostituta pagã que, num ato de fé, abriga os espias inimigos e invoca misericórdia para ela e sua casa (Josué 2 e 3). Rute, avó do mais querido rei de Israel, outrora estrangeira condenada pelas lei do Pentateuco a jamais entrar na assembléia do Senhor (Rute). Davi, o homem que cometeu adultério e assassinato premeditado, mas se arrependeu e foi totalmente perdoado (2 Samuel 11 e 12; Salmo 51 e 32).

Manassés, o rei que se envolveu na idolatria e paganismo ao ponto de sacrificar os próprios filhos em rituais de prostituição cultual, mas recebu segunda chance e foi inteiramente aceito e transformado por Deus (2 Crônicas 33:1-20). Maria, a adolescente interiorana que decidiu submeter-se ao plano de Deus, a despeito da infâmia, do preconceito e da vergonha envolvidos na gestação sobrenatural de Jesus (Mateus 1:18-25 e Lucas 1:26-56). Homens e mulheres comuns e ordinários, dos quais não teríamos orgulho de apontar como nossos antepassados ou mesmo de mencionar seus erros. Homens e mulheres comuns e ordinários, nos quais reconhecemos a operação de um Deus que é infinita misericórdia, poderoso para salvar, restaurar vidas e preencher o coração de todos os que a Ele Se achegam por meio de Jesus.

Esta é a graça de nosso Deus, para mim e para você. A mesma misericórdia que foi estendida à família de Jesus no passado é estendida a nós hoje. Quando somos adotados na família de Deus, segundo Romanos 8:15-17, podemos chamar o Deus Soberano e Santo carinhosamente de Aba, a palavra usada na boca das crianças da Palestina do primeiro século para dizer "Paizinho"! O texto prossegue: mais do que filhos, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo.

O que isto significa? Se podemos chamar a Deus carinhosamente de Aba, ou Paizinho, devemos ir a Deus não com medo, mas com a confiança de uma criancinha ao colo do nosso Pai. Se somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, Deus nos trata não como merecem os nossos erros e mediocridade, mas como merece o perfeito e honorável Jesus de Nazaré. Temos a garantia de que o Pai Celeste está a nosso favor e, como diz Romanos 8:31, "se Deus é por nós, quem será contra nós?" Isto já seria por si só ótimas notícias, mas a Bíblia acrescenta que Jesus não Se envergonha de nos chamar de irmãos dEle(Hebreus 2:11)!

Os que aceitam a Cristo como Salvador pessoal, podemos ter a convicção na mente e a segurança no coração de que Deus existe, cuida de nós e é nosso Amigo, Pai e Confortador. "De longe se me deixou ver o SENHOR, dizendo: Com amor eterno eu te amei; por isso, com benignidade te atraí" (Jeremias 31:3). Se cremos no Jesus que sofreu na cruz por nós e depositamos nossa confiança nEle, podemos descansar na certeza de que somos aceitos, amados, queridos, acariciados nos braços do nosso Deus. Você tem esta certeza em sua vida?

*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009

O que significa a Graça de Deus



por Phillip Yancey*

Sei como reajo às cartas de rejeição dos editores das revistas e às cartas de crítica dos leitores. Sei até onde meu espírito sobe quando chega um cheque de direitos autorais mais alto do que eu esperava, e como ele desce quando o valor é pequeno. Sei que minha auto-imagem no final do dia depende grandemente do tipo de mensagens que recebo das outras pessoas. Será que gostam de mim? Será que me amam? Espero as manifestações de meus amigos, de meus vizinhos, de minha família — como um homem faminto, aguardo as respostas.

Ocasionalmente, muito ocasionalmente, sinto a verdade da graça. Há momentos em que estudo as parábolas e percebo que elas estão falando a meu respeito. Eu sou a ovelha que o pastor foi procurar deixando o aprisco, o filho pródigo por quem o pai perscruta o horizonte, o servo cuja dívida foi perdoada. Eu sou o amado de Deus.

Não faz muito tempo recebi pelo correio um cartão postal de um amigo que continha apenas seis palavras: "Eu sou aquele a quem Jesus ama". Eu sorri quando olhei para o endereço do remetente, pois meu estranho amigo se especializa nesses dizeres piedosos. Quando lhe telefonei, entretanto, ele me disse que as palavras vinham do escritor e orador Brennan Manning. Em um seminário, Manning referiu-se ao amigo mais íntimo de Jesus na terra, o discípulo chamado João, identificado nos evangelhos como "aquele a quem Jesus amava". Manning disse: "Se perguntassem a João: 'Qual é a sua identidade principal na vida?', ele não responderia: 'Eu sou um discípulo, um apóstolo, um evangelista, o autor do quarto evangelho', mas sim: 'Eu sou aquele a quem Jesus ama'".

O que significaria, perguntei a mim mesmo, se eu também pudesse considerar como minha identidade principal na vida ser "aquele a quem Jesus ama"? Como eu me veria diferente no final de um dia!

Os sociólogos têm uma teoria do ego de lente de aumento: você se torna o que a pessoa mais importante de sua vida (esposa, pai, chefe, etc.) acha que você é. Como minha vida se modificaria se eu verdadeiramente cresse nas espantosas palavras da Bíblia a respeito do amor de Deus por mim, se eu olhasse no espelho e visse o que Deus vê?

Brennan Manning conta a história de um padre irlandês que, em uma viagem por uma paróquia rural, vê um velho camponês ajoelhado ao lado da estrada, orando. Impressionado, o padre diz ao homem: "Você deve ter muita intimidade com Deus". O camponês levanta os olhos, pensa um momento, e então sorri: "Sim, ele gosta muito de mim".

Deus não é limitado ao tempo, dizem-nos os teólogos. Deus criou o tempo assim como um artista escolhe um meio de trabalho, e fica solto dele. Ele vê o futuro e o passado em uma espécie de eterno presente. Se for correta essa teoria a respeito de Deus, os teólogos ajudaram a explicar como Deus pode chamar de "amada" uma pessoa inconstante, volúvel e temperamental como eu. Quando Deus olha para o gráfico da minha vida, não vê grandes mudanças de direção para o bem ou para o mal, mas, antes, uma linha firme no bem; a bondade do Filho de Deus capturada em um momento do tempo e aplicada por toda a eternidade.



Como disse John Donne, o poeta do século XVII:

Pois no Livro da Vida, o nome de Maria Madalena foi tão logo registrado, por toda a sua incontinência, como o da Virgem bendita, por toda a sua integridade; e o nome de Paulo, que brandiu sua espada contra Cristo, como o de Pedro, que brandiu a sua em defesa dele; pois o Livro da Vida não foi escrito sucessivamente, palavra após palavra, linha após linha, mas foi entregue como um Livro, tudo junto.

Cresci com a imagem de um Deus matemático que pesava meus atos bons e maus em um conjunto de balanças e sempre me considerava em falta. Não sei como me esqueci do Deus dos evangelhos, um Deus de misericórdia e generosidade que continua encontrando maneiras de despedaçar as leis implacáveis da não-graça. Deus rasga as tabuadas e apresenta a nova matemática da graça, a palavra mais surpreendente, mais assustadora, mais inesperada da nossa língua.

A graça surge de tantas formas diferentes que tenho dificuldade em defini-la. Estou pronto, contudo, a tentar alguma coisa como uma definição da graça divina. Graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais — nenhuma quantida de renúncia, nenhuma quantidade de conhecimento recebido em seminários e faculdades de teologia, nenhuma quantidade de cruzadas em benefício de causas justas. E a graça significa que não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos — nenhuma quantidade de racismo ou orgulho, pornografia ou adultério, ou até mesmo homicídio. A graça significa que Deus já nos ama tanto quanto é possível um Deus infinito nos amar.


Há uma cura simples para pessoas que duvidam do amor de Deus e questionam a graça divina: voltar para a Bíblia e examinar o tipo de pessoas que Deus ama. Jacó, que se atreveu a se envolver em uma luta física com Deus e mesmo depois que fora ferido nessa luta tornou-se o epônimo do povo de Deus, os "filhos de Israel". A Bíblia fala de um homicida e um adúltero que ganhou reputação como o maior rei do Antigo Testamento, um "homem segundo o coração de Deus". E de uma igreja dirigida por um discípulo que praguejou e jurou que não conhecia Jesus. E de um missionário sendo recrutado das fileiras dos torturadores de cristãos. Eu recebo correspondência da Anistia Internacional e, quando examino as fotos de homens e mulheres que foram espancados, pisoteados, espetados, cuspidos e eletrocutados, pergunto a mim mesmo: "Que espécie de ser humano poderia fazer isso a outro ser humano?". Então, leio o livro de Atos e encontro o tipo de pessoa que poderia fazer uma coisa dessas — agora um apóstolo da graça, um servo de Jesus Cristo, o maior missionário da história. Se Deus pode amar esse tipo de pessoa, talvez, apenas talvez, Ele também possa amar pessoas como eu.

Não posso moderar minha definição de graça porque a Bíblia me força a torná-la o mais abrangente possível. Deus é "o Deus de toda a graça", nas palavras do apóstolo Pedro (1 Pedro 5:10). E graça significa que não há nada que eu possa fazer para Deus me amar mais, e nada que eu possa fazer para Deus me amar menos. Significa que eu, até mesmo eu que mereço o contrário, sou convidado a tomar o meu lugar à mesa da família de Deus.

Alessandra Samadello - Tomou o meu lugar


Por instinto, sinto que devo fazer alguma coisa para ser aceito. A graça soa como uma surpreendente nota de contradição, de liberação e, todos os dias, eu devo orar de novo para ter a capacidade de ouvir sua mensagem.

Eugene Peterson traça um contraste entre Agostinho e Pelágio, dois oponentes teológicos do século IV. Pelágio era educado, convincente e todos gostavam dele. Agostinho desperdiçou sua juventude na imoralidade, tinha um estranho relacionamento com sua mãe e fez muitos inimigos. Mas Agostinho começou com a graça de Deus e acertou, enquanto Pelágio partiu dos esforços humanos e errou. Agostinho buscou apaixonadamente a Deus; Pelágio trabalhou metodicamente para agradar a Deus. Peterson continua dizendo que os cristãos tendem a ser agostinianos na teoria e pelagianos na prática. Trabalham obsessivamente para agradar outras pessoas e até mesmo a Deus.

Todos os anos, na primavera, eu me torno vítima do que os noticiários esportivos diagnosticam de "Loucura de Março". Não consigo resistir à tentação de ligar a TV no jogo final de basquete, no qual as duas únicas sobreviventes de um torneio de sessenta e quatro equipes se encontram para a final do campeonato universitário. Esse importantíssimo jogo sempre parece terminar com um garoto de dezoito anos de idade pronto para fazer um arremesso, com apenas um segundo para terminar o jogo.

Ele dribla nervosamente. Se ele perder essa jogada, sabe que será o bode expiatório do campus, o bode expiatório do seu Estado. Daqui a vinte anos estará se aconselhando para se libertar desse momento. Se fizer os dois pontos, será um herói. Sua foto estará na primeira página dos jornais. Provavelmente poderá candidatar-se a governador.

Ele dribla novamente e a outra equipe pede tempo, para confundi-lo. Ele está na lateral, avaliando todo o seu futuro. Tudo depende dele. Seus colegas olham para ele encorajando-o, mas não dizem nada. Um ano, eu me lembro, deixei a sala para atender o telefone exatamente na hora em que o garoto se preparava para arremessar a bola. Rugas de preocupação vincavam sua testa. Ele mordiscava seu lábio inferior. Sua perna esquerda tremia na altura do joelho. Vinte mil torcedores estavam gritando, sacudindo bandeiras e lenços para distraí-lo.

O telefonema foi mais longo do que eu esperava e, quando voltei, tive uma nova visão. O mesmo garoto, o cabelo encharcado com Gatorade, estava cavalgando nos ombros dos colegas, cortando a rede de um cesto de basquete. Ele não tinha mais nenhuma preocupação no mundo. Seu sorriso enchia a tela toda.

Essas duas imagens congeladas — o mesmo garoto se encolhendo na linha lateral e, depois, celebrando sobre os ombros dos amigos — vieram a simbolizar para mim a diferença entre a não-graça e a graça.

O mundo é governado pela ausência de graça. Tudo depende do que eu faço. Tenho de fazer os pontos.

O reino de Jesus nos chama para trilhar outro caminho, um caminho que não depende de nossas realizações, mas, sim, da realização dele. Nós não temos de realizar, mas apenas seguir. Ele já ganhou para nós a preciosa vitória da aceitação de Deus.

Quando penso naquelas duas imagens, uma pergunta perturbadora penetra em minha mente: Qual dessas duas cenas se parece mais com a minha vida espiritual?

*Phillip Yancey é um jornalista e escritor evangélico americano. O trecho acima foi extraído do livro Maravilhosa Graça, publicado no Brasil pela Editora Vida, págs. 29-31.
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Buscando a felicidade, buscamos o Céu



por C. S. Lewis*

A maioria de nós acha muito difícil desejar o "Pa­raíso" - a não ser que por esse nome queiramos dizer o encontro com os amigos que já morreram. Uma das ra­zões dessa dificuldade é que não tivemos uma boa forma­ção: toda a educação atual tende a fixar nossa atenção neste mundo. Outra razão é que, quando o verdadeiro anseio pelo Paraíso está presente em nós, não o reconhe­cemos. A maior parte das pessoas, se tivesse aprendido a examinar profundamente seus corações, saberia que querem, e querem com veemência, algo que não pode ser alcançado neste mundo. Existem aqui coisas prazerosas de todo tipo que nos prometem isso que queremos, mas que nunca cumprem o prometido.

Aquele anseio que nasce em nós quando nos apaixonamos pela primei­ra vez, quando pela primeira vez pensamos numa terra estrangeira, quando começamos a estudar um assunto que nos entusiasma, é um anseio que nenhum casamen­to, viagem ou estudo pode realmente satisfazer. Não es­tou falando aqui do que costumam chamar de casa­mentos infelizes, férias frustradas e carreiras fracassadas, mas sim das melhores possibilidades em cada um des­ses campos. Havia algo que vislumbramos no primeiro instante de encantamento e que simplesmente desapa­rece quando o anseio se torna realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser uma boa esposa, os hotéis e a paisagem podem ter sido excelen­tes, e talvez a Química seja uma bela profissão: algo, po­rém, nos escapou. Ora, existem duas maneiras erradas, e uma certa, de lidar com esse fato.

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Você sabia que o Céu é um lugar real com pessoas igualmente reais? E que o Céu te espera com prazer? Aprenda mais sobre isso lendo o estudo Os Braços Abertos de Deus.


(1) A Via do Tolo — Ele põe a culpa nas próprias coisas. Passa a vida toda a conjectutar que, se arranjasse outra mulher, fizesse uma viagem mais cara, ou seja lá o que for, conseguiria dessa vez capturar essa coisa mis­teriosa que todos nós procuramos. A maior parte dos ri­cos entediados e descontentes do nosso mundo são des­se tipo. Eles passam a vida toda pulando de uma mulher para outra (com a ajuda dos tribunais), de continente para continente, de passatempo para passatempo, sempre na esperança de que o último será, enfim, "a coisa certa", e sempre decepcionados.

(2) A Via do "Homem Sensato" Desiludido — Logo ele conclui que tudo não passava de conversa fiada. "E bem verdade", diz ele, "que, quando é jovem, a pessoa se sente assim. Quando chega à minha idade, porém, você desiste de buscar o fim do arco-íris." Então, ele se acomoda, aprende a não esperar muito da vida e repri­me a parte de si mesmo que, nas suas palavras, costuma­va "uivar para a lua". Essa é, sem dúvida, uma via bem melhor que a primeira; torna o homem mais feliz e não faz dele um problema para a sociedade. Tende a torná-lo um chato (sempre pronto a se achar superior diante dos que julga "adolescentes"), mas, de maneira geral, faz com que ele leve uma vida sem grandes sobressaltos. Seria a melhor opção se o homem não tivesse uma vida eter­na. Mas suponha que a felicidade infinita realmente exis­ta e esteja logo ali, à nossa espera. Suponha que real­mente seja possível alcançar o fim do arco-íris — nesse caso, seria uma pena descobrir tarde demais (imediata­mente após a morte) que, por causa do nosso suposto "bom senso", sufocamos em nós mesmos a faculdade de gozar dessa felicidade.

(3) A Via Cristã — Dizem os cristãos: "As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um pati­nho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o de­sejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo. Se nenhum dos prazeres terrenos satis­faz esse desejo, isso não prova que o universo é uma tre­menda enganação. Provavelmente, esses prazeres não existem para satisfazer esse desejo, mas só para desper­tá-lo e sugerir a verdadeira satisfação. Se assim for, tenho de tomar cuidado, por um lado, para nunca desprezar as bênçãos terrenas nem deixar de ser grato por elas; por outro, para nunca tomá-las pelo 'algo a mais' do qual são apenas a cópia, o eco ou a miragem, Tenho de man­ter viva em mim a chama do desejo pela minha verda­deira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esque­cimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também."

*C. S. Lewis (1898-1963) foi um ex-ateu irlandês, professor universitário em Oxford e Cambridge que se converteu a Cristo, tornando-se membro da Igreja Anglicana. O texto acima faz parte do seu livro Cristianismo Puro e Simples, publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes, págs. 48 e 49.
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domingo, 17 de maio de 2009

A Graça do Ordinário


Embora o texto abaixo tenha pouco mais de 10 anos, é de uma atualidade incrível. Ele nos relembra que o Reino de Deus não é um programa de auditório nas tardes de domingo, com celebridades convidadas, quadros mirabolantes e histórias sensacionais.

Muitos congregações, músicas, pregações e livros hoje se esqueceram disso e estão contaminados pela teologia da prosperidade, pela confissão positiva e pelas técnicas de crescimento de igrejas. Os mantras da religião "evangel-wicca" (isto é, magia evangélica ou bruxaria crente)são repetidos à exaustão: proclama-se a vitória, profetiza-se a libertação, exige-se a restituição, libera-se a unção ou anuncia-se o milagre.

Creio num Deus vivo que é capaz de realizar quaisquer milagres, num Salvador vitorioso sobre as forças do mal, num evangelho que tem poder para transformar qualquer pessoa e numa igreja que congrega pessoas renascidas e santificadas. Mas creio também no que todos sabem (ou deveriam saber) por experiência pessoal: o reino de Deus não é semelhante a uma máquina de capuccino — milagres, por definição, são extraordinários e raros, as forças do mal ainda estão operando em nosso mundo, a transformação da vida não é generalizada nem instantânea, nem todos os assim chamados cristãos nasceram de novo e a igreja neste mundo não experimentará a perfeição antes do Advento.

O evangelho é extremamente simples, mas ao mesmo tempo profundo: Deus está restaurando um grupo à imagem do Criador, preparando este povo para o Segundo Advento de Cristo, manifestando neles o Seu poder de salvar e reservando para eles um lar na Nova Terra. Nosso lar, onde se realizarão os melhores e maiores sonhos — nossos e os de Deus — não é aqui. Se nossas expectativas forem direcionadas apenas para esta vida, parafraseando Paulo e Jesus, somos os mais infelizes de todos os homens e receberemos toda a nossa recompensa neste mundo. — Walter Dos Santos


por Ricardo Barbosa de Souza*

Em algumas das minhas viagens, é comum ouvir pessoas me perguntarem: “Como é sua igreja?” A expectativa delas é ouvir relatos de fórmulas infalíveis de sucesso, mecanismos de crescimento, estrutura de gerenciamento, funcionalidade etc. Minha resposta tem sido: “Minha igreja é uma igreja bíblica, como a maioria das igrejas que conheço: há nela maledicência, intrigas, gente que adultera e muitos que insistem em não obedecer Deus e Sua Palavra, como há aqueles que oram, buscam uma vida de obediência e serviço, se arrependem, confessam, tornam-se ministros de reconciliação. É tão bíblica como era a de Corinto ou de Éfeso. Ela não é diferente. As pessoas que ali se congregam, seus líderes e pregadores, todos vivem a mesma vida comum, com seus conflitos conjugais, crises pessoais, indefinições profissionais e dilemas espirituais.”

Certamente, temos na igreja e na vida dos seus membros histórias, fatos e experiências que chamariam a atenção por sua grandeza e beleza. Mas são situações extraordinárias. Elas não compõem o universo comum e ordinário da vida. Temos que aprender a olhar e reconhecer aquilo que Deus está fazendo na vida comum das pessoas. A graça do ordinário.

Igreja infantil, que precisa do entretenimento religioso para fugir da realidade da vida

O problema que muitos cristãos enfrentam hoje é que estamos mais interessados em conhecer a vida das pessoas através das biografias narradas na revista “Caras” do que nas biografias narradas na Bíblia. A citada revista e muitos livros e periódicos evangélicos se ocupam com o que é clamoroso, extraordinário, fantástico. Mostram uma parte da realidade, certamente uma parte insignificante. São biografias de casamentos perfeitos, paixões intermináveis, sorrisos que atestam uma felicidade invejável, igrejas bem-sucedidas, ministérios glamurosos, estratégias de crescimento dignas de exportação, cultos arrebatadores, igrejas maravilhosas.

Essas mesmas pessoas que lêem este tipo de biografia não conseguem, quando entram na igreja ou lêem a Bíblia, ver além do glamuroso, do extraordinário e do fantástico. São “jornalistas espirituais”. Admiram a fé de Abraão, mas ignoram sua covardia; pregam sobre a determinação de Jacó no vale de Jaboque em ser abençoado por Deus, mas negam seu espírito manipulador e enganoso; lembram sempre de Davi, o homem segundo o coração de Deus, mas não se importam com o adúltero, mentiroso e assassino. Se olharmos para a genealogia de Jesus, veremos nela muitos cuja vida não seria digna de aparecer em nossos livros e revistas que narram as biografias glamurizadas e testemunhos poderosos de sucesso.

Esta fascinação pelo extraordinário nos leva a criar os heróis, a exaltar o forte, a glorificar o vencedor. Os vemos sempre de longe, nos palcos e púlpitos, os aplaudimos, admiramos. Não fazem parte do nosso mundo simples, comum e ordinário. Não admitimos seus erros e pecados e eles, por sua vez, passam a ocultá-los, ou pior, negá-los. São sujeitos e vítimas do mundo fantasioso que criamos, precisam cultivar a ilusão para preservar o ídolo. Ao não admitir sua humanidade comum e ordinária, experimentamos uma espiritualidade infantil e imatura, dependente do sucesso deles, da ilusão de uma vida irreal. Tomamo-nos imaturos em relação aos nossos problemas e imaturos em relação aos problemas dos nossos irmãos. Igreja infantil, que precisa do entretenimento religioso para fugir da realidade da vida.

A Bíblia, ao contrário, nunca negou a realidade. Mesmo que não queiramos enxergá-la, ela está lá, rica em detalhes, para ninguém duvidar. Isto porque a vida cristã não consiste em negar a realidade, mas em trazer para dentro do comum e ordinário dos homens a presença salvadora de Jesus Cristo. Foi isto que aconteceu com Jacó, Davi, Jó e Daniel. Em meio aos conflitos próprios do seu tempo e cultura, das lutas e tensões diárias que experimentavam, provaram a salvação; não negaram seus pecados e dilemas - ao contrário, enfrentaram com honestidade e humildade sua natureza caída e provaram o poder da reconciliação.

Davi, Abraão, Jacó, lsaque e muitos outros tiveram problemas, como todos temos, em seus casamentos, na criação de seus filhos, na vida profissional e na sua relação com Deus. Se olharmos para a igreja primitiva, tão idealizada por muitos em suas pregações, encontraremos o mesmo cenário: adultério, mentiras, heresias, injustiças, brigas eclesiásticas, conflitos conjugais e pais lutando para compreender, amar e educar seus filhos.


A fé não é, necessariamente, um atestado de competência


Às vezes me pergunto: que diferença havia, ou há, entre aqueles que professam sua fé em Cristo e os que a negam? A diferença é que os primeiros trouxeram para dentro de suas vidas comuns e ordinárias a presença de Cristo, buscaram experimentar a conversão de caminhos maus e encontraram o lugar da oração e comunhão. Nem sempre a diferença está no comportamento visível. Conheço muitas famílias e profissionais que, embora não professem a fé em Cristo, demonstram uma compreensão relacional e um desempenho profissional muito melhor do que muitos cristãos. A fé não é, necessariamente, um atestado de competência. É o caminho a Cristo e à comunhão com Ele. A Igreja sempre foi, e continua sendo, uma comunidade de pecadores buscando reconciliação e paz com Deus.


Não se deixe seduzir por aqueles que prometem uma igreja melhor


A Igreja faz parte do que há de mais ordinário, mais comum e rotineiro na vida dos homens. Quando lemos a Bíblia, encontrarmos Deus agindo e transformando o homem dentro desta realidade comum e ordinária. São histórias de festas, pescarias, conversas e encontros que faziam parte da rotina das pessoas. Certamente havia lugar para o extraordinário, o incomum. Há milagres, muitos deles na caminhada da fé, mas a maioria dos milagres na vida cristã não tem a forma das grandes intervenções divinas. Estão escondidos nos episódios comuns, nas situações onde experimentamos o medo, a rejeição, o abandono e a traição; nos amigos que nos desapontam; no filho adolescente que desafia e protesta; no casal antigo de longos anos que enfrenta a amargura do divórcio.

Encontrar a vida em Cristo nestes lugares e cenas comuns e ser transformado por Ele é provar o milagre de ser reconciliado à sua imagem e semelhança. Quando aprendermos a aceitar o comum, a viver a realidade de quem somos e do que Deus fez e está fazendo em nós por meio do seu Filho Jesus Cristo; quando deixarmos de valorizar o extraordinário e cultuar nossas celebridades para reconhecer que, diante de Deus, somos todos pecadores que carecem da graça; quando olharmos mais para a Bíblia e suas histórias e menos para “Caras” e congêneres evangélicos — então começaremos a dar os primeiros passos em direção a um crescimento espiritual e pessoal que fará de nós cristãos com uma humanidade mais robusta e verdadeira.

Para que isto aconteça, mantenha seus olhos voltados para Cristo. Não se deixe seduzir por aqueles que prometem uma igreja melhor, um ministério mais poderoso, um lugar onde todos os seus problemas serão solucionados. Não acredite neles, são mentirosos. Para crescer na fé não precisamos de shows, nem de igrejas espetaculares, muito menos de líderes e pastores que não compartilham de nossa vida comum. Precisamos aprender a orar, ouvir e obedecer Deus e Sua Palavra, participar juntos da ceia do Senhor e servir nossos irmãos e irmãs no amor de Cristo. Essas coisas só acontecem dentro da rotina ordinária da vida.

*Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília/DF. Este texto foi publicado originalmente na revista Vinde, de março de 1999.
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