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segunda-feira, 23 de março de 2009

Como lidar com o aluno-cliente

As exigências, a arrogância e os abusos do aluno que paga




A matéria abaixo foi publicada em 06/04/2006 no site Universia Brasil, um portal voltado para universitários. É um texto antigo na data (mas atual no problema que aborda) que recebi de um colega da Usp, após conversarmos sobre a situação do professor no ensino superior. Para quem não conhece o mundo acadêmico, a situação apresentada pode parecer terrível. Contudo, o quadro apresentado é frequente em muitas universidades brasileiras. Mais até do que se imagina.

E antes que alguém me acuse injustamente, alguns esclarecimentos.

Não, eu não acredito que todas as faculdades particulares do país ofereçam um ensino ruim, nem que todas as universidades públicas sejam automaticamente centros de bom ensino. Não se pode negar, porém, que o ensino superior no Brasil está se tornando cada vez mais mercantilizado. Mais do que nunca, o aluno tem se tornado não um futuro profissional ou cidadão, mas apenas um mero cliente que deve ser conquistado e fidelizado a qualquer custo. Mesmo que isto custe a educação pela qual ele paga.

Sim, eu acredito que é melhor aumentar a qualidade da educação e não o mero acesso à ela. Questiono radicalmente propostas de acesso ao ensino superior que não passem pela avaliação do mérito do aluno. As medidas de inclusão universitária que menosprezam ou dispensam este critério são equivocadas, oferecendo ao aluno uma falsa mobilidade social. Leia, a propósito, minha experiência com o vestibular em Quem sou, de onde vim e porque estou. Estamos vivendo no ensino superior o mesmo processo hoje que há décadas: a massificação dos ensinos fundamental e médio provocou a sua desvalorização. Se não é possível que todos tenham um bom ensino, então não se ofereça um ensino ruim à maioria e um bom a poucos. — Walter Dos Santos


Cena 1 - Primeiro dia de aula de uma professora em uma faculdade particular em Brasília. Às 19h10, horário marcado para começar, a sala está vazia. Ela espera. Alunos começam a chegar. Ela faz a chamada às 19h30. Um aluno chega mais tarde e "manda" a professora colocar um pontinho de presença pra ele. Ela não o "obedece". O aluno diz: "Você é nova aqui, né? Não sabe que no noturno todo mundo trabalha e chega atrasado mesmo?".

Cena 2 - Aluno tira nota abaixo da média, é reprovado. Vai até a professora tentar negociar. Professora não aceita negociações. Aluno ameaça: "Será que vou precisar falar com a diretora para você mudar de idéia?".

Essas não são cenas de filme. É um cenário real e muito comum em faculdades particulares de todo o país. "Os alunos acham que, porque estão pagando, mandam no esquema da aula", diz a professora de Jornalismo vítima dos casos relatados acima."A lógica deles é invertida. É ótimo eles exigirem seus direitos como consumidores. Mas eles têm que entender que o direito deles é ter um ensino de qualidade, e não um ensino mais fácil e fraco", alega um professor de Sociologia que dá aula em duas faculdades particulares de Brasília.

Mas a verdade é que, assim como a professora das cenas 1 e 2, a maioria dos docentes de faculdades particulares sente-se pressionada, tanto pelos alunos quanto pela Instituição de Ensino Superior (IES), a ter muita tolerância com faltas, prazos para entrega de trabalho, atrasos e até mesmo com o nível acadêmico deles. "Na Comunicação Social, muitos alunos escrevem mal, não conseguem alcançar o nível de eficiência que o mercado exige. Mas, se ele freqüenta todas as aulas e faz as tarefas, a gente não reprova", diz outro professor de uma faculdade particular de Brasília.

Uma professora que dá aula em três IES em São Paulo atribui a postura abusiva dos alunos não só ao fato de serem pagantes, mas a uma característica da geração: a falta de responsabilidade e de noção de limites. "Eles têm uma atitude passiva: esperam que o professor faça tudo por eles, acham que devemos agir como se fôssemos mãe deles. Têm dificuldade de assumir as rédeas da própria vida, bancar as conseqüências de suas atitudes."

A pró-reitora do Centro Universitário UniSant"Anna, Maria Betânia Placucci Bari, acredita que esse comportamento está também relacionado a uma postura do adolescente rebelde sem causa, que reclama sem ter informação sobre os seus reais direitos e deveres, sem saber o seu papel e o do professor.


Pacto de mediocridade


Mas a responsabilidade por posturas arrogantes ou exigências descabidas não é só do aluno. "Isso só acontece porque várias faculdades - principalmente as que têm uma postura mais mercadológica - dão respaldo a essas atitudes", opina um professor de Sociologia que dá aula em duas faculdades particulares de Brasília. "É o pacto de mediocridade", diz.

"Há uma pressão coletiva, tanto por parte dos alunos, quanto por parte da direção das faculdades e até do MEC, para que tenhamos muita tolerância, flexibilidade e façamos tudo para agradar o aluno de forma a mantê-lo na faculdade, com medidas e legislação que tornem o estudo mais fácil e menos rigoroso", diz um professor de Direito que dá aula em duas faculdades particulares de Campo Grande, e percebe que a coordenação dá uma imensa liberdade aos alunos e prejudica a autonomia dos docentes, que são obrigados a compor as notas com trabalho e provas de múltipla escolha, para facilitar. Além disso, a instituição estabelece notas mínimas que podem ser dadas ao estudante.

Muitas vezes, as situações extrapolam questões éticas e legais: tem professor que reprova o aluno e, no semestre seguinte, percebe que ele foi "misteriosamente" aprovado pela faculdade. É a reprovação acadêmica à aprovação administrativa. Ou então, o docente dá uma nota X e recebe orientações vindas "de cima" para que aumente "mais dois pontinhos" naquela nota. Esses também são casos reais, que aconteceram com um professor de jornalismo de uma instituição brasiliense. "Não vemos outra alternativa se não ficarmos quietos. Afinal, é uma empresa particular e podemos ser demitidos a qualquer momento", diz.

Em algumas faculdades, os alunos têm uma arma poderosa para "mandar e desmandar" no professor: a avaliação semestral do docente, logo após a entrega das notas. "Há uma clara política interna da Instituição de que a reclamação do aluno vale o seu emprego. Numa das faculdades onde trabalho, se algum docente recebe nota abaixo da média em dois semestres consecutivos, ele está fora, é demitido. E, em geral, os aprovados são os do tipo showman, aquele que dá só aulas alegres e festivas. Quem tem um estilo mais sisudo, por mais que dê o conteúdo com eficácia, é reprovado", diz um professor. Outra docente acrescenta: "o pior é que os estudantes não são obrigados a avaliar. Em geral, os que fazem, são aqueles que querem ferrar o professor porque não gostam dele".


O outro lado


Exageros antiéticos a parte, existe uma questão que vai além da relação mercadológica que a faculdade-empresa estabelece com o aluno-cliente: o fato de adaptar a realidade da sala de aula à realidade do estudante. "No Brasil, muitos alunos precisam trabalhar além de estudar, e acabam deixando a faculdade em segundo plano", diz Ryon Braga, consultor de gestão de instituições de ensino, e presidente da Hoper, empresa especializada em pesquisa e análise de mercado no setor educacional.

"No mundo de hoje, ninguém tem mais o seu tempo dedicado a uma única coisa. O ser humano está sobrecarregado. Isso vai interferir em qualquer relação. Não adianta ficar cobrando. Tem que aprender a construir uma relação levando o contexto social em conta", diz Luciana Wiss, psicóloga responsável pelo Núcleo de Apóio Psicopedagógico e Profissional da UniSant"Anna, que foi criado justamente para dar suporte à essa complicada relação aluno-professor-istituição."É preciso compreender que hoje em dia todos nós somos influenciados a estabelecer uma relação de consumo com a vida em geral, não só com a faculdade", explica.

Segundo Ryon, alguns professores têm dificuldades de se adequar à realidade do aluno, principalmente professores que saem de universidades públicas e vão dar aula em particular. "Muitos têm dificuldade de entender que o aluno da instiuição particular tem um nível bem diferente do aluno da pública. É outra realidade. Claro que ele tem que aprender o máximo possível, mas dentro do contexto dele. Hoje os alunos do Ensino Superior são muito heterogênios. Antes, fazer uma faculdade era privilégio da elite. Hoje as classes C e D estão no Ensino Superior. E essas pessoas precisam trabalhar e pagam com esforço a faculdade. Então, tem que ter flexibilidade, sim", acrescenta.

Além disso, há também pontos positivo nessa relação de consumidor com relação à faculdade. Há, por parte tanto dos alunos quanto da instituição, uma cobrança maior com relação à pontualidade do professor, o planejamento das aulas, e a estrutura física das faculdades. "Isso nos incentiva a ampliar a dedicação", diz um professor.

Soluções

Docentes e gestores dão algumas dicas para melhor lidar com a questão:

- Desde o primeiro dia de aula, tanto a instituição, quanto o professor, devem esclarecer suas regras e o motivo delas. Na UniSant"Anna, por exemplo, é realizada a Semana de Ambientação à Vida Universitária, na qual a faculdade apresenta os órgãos regulamentadores da instituição, os processos acadêmicos, as leis que regem a Educação, a composição de valores do semestre, o conceito de participação do aluno, o conceito de Educação Superior.

- Logo no início das classes, o professor deve dar uma liação do que é Ética, e reforçar principalmente a ética em sala de aula.

- Diante de uma exigência abusiva ou ameaça, o professor deve ser firme, e não demonstrar medo ou insegurança. Para tanto, é preciso estar bem claro para si próprio os direitos, deveres e a filosofia da faculdade.

- As Instituições deveriam avaliar o professor por diversos ângulos, não só pelo do aluno. Seria interessante ter, por exemplo, um corpo colegiado misto com professores, coordenadores de curso e um representante da associação de pais - que pagam a faculdade para seus filhos -, para analisar o professor. Seria interessante também, haver uma instância formal responsável por receber reclamações dos alunos, que não seja constituída apenas por quem tem interesse no lucro da instituição.

- Ter uma separação clara entre diretor acadêmico e diretor administrativo. "As duas coisas têm que funcionar independentemente", acredita um professor.

- Estimular os alunos a tomar iniciativa, mostrar que o papel do professor é orientar, mas não determinar o caminho. E que faz parte do crescimento do aluno como cidadão ir buscar respaldo para o seu ensino em leituras, para ter subsídios até para questionar o professor em sala de aula.

- Diante de uma postura arrogante do aluno, o professor deve ser diplomático. "Não dá para descarregar de volta. Tem que saber negociar, ouvir. Porque muitas vezes o aluno só quer desabafar", diz uma professora.

- Explicar para o aluno, que cabe a uma instituição de Educação preocupar-se com a formação dele como cidadão, não só ser uma mera transmissora de informação.

*Os nomes dos professores e das IES foram omitidos para resguardar sua integridade.
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terça-feira, 10 de março de 2009

Como escrever a tese certa e vencer


O texto abaixo é a reprodução de um artigo do historiador José Murilo de Carvalho, publicado pelo jornal O Globo em 16/12/99, pág. 7. Trata-se de um divertido e revelador artigo sobre os meandros e sutilezas necesários para o sucesso no mundo acadêmico. Não basta entrar no jogo, é preciso saber as regras. — Walter Dos Santos


por José Murilo de Carvalho

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira a um hipotético doutoranda, ou doutorando, sobretudo das áreas de humanidade e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese ou na redação de trabalhos posteriores são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores... A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. No momento, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Entre os franceses, estão no alto Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Chartier, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasados, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citações obrigatórias. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm. P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis, R. Dahl, ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e H. White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ou africanos, asiáticos, etc). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico.

Brasileiros não ajudarão muito, mas também não causarão estrago se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa de tese, mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele. Se o orientador não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.

O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam, elas têm um olhar); descentrar (descentre sobretudo o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, Deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois); polissêmico (nada de “mono”); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a imaginação), cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro.

Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.

Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.

Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda apreender a escrever como um intelectual acadêmico (note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S. T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é “crítica” mas “criticismo”. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: “é provável” deve ser substituído por “a evidência disponível sugere não ser improvável”. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: “os mendigos devem ter seus direitos respeitados”. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: “o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua”.

Boa sorte.
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