"Cristo e o Jovem Rico" (1889), de Heinrich Hofmann.
por Walter Mendes O relato do jovem rico, narrado em três dos quatro evangelhos (Mateus 19: 16-26; Marcos 10:17-31 e; Lucas 18:18-30), talvez seja uma das histórias bíblicas mais conhecidas e mal-entendidas. Em resumo: um rapaz pergunta a Jesus o que deve fazer para ter a vida eterna, e o Salvador lhe diz, ao final do relato, para vender tudo o que tem e dar aos pobres.
Por causa dessa ordem dada ao jovem, muitos dentro e fora das igrejas acreditam que a riqueza é incompatível com o evangelho, que o rico não pode se salvar, que todo rico deveria entregar seus bens aos pobres etc. Mas será isso verdade? O pedido de Jesus ao jovem rico deve ser estendido a todas as pessoas abastadas que queiram seguir ao Salvador?
1) JESUS TINHA SEGUIDORES RICOS
Ao contrário do que muitos imaginam, Jesus contava com pessoas abastadas entre Seus adeptos. Foi o caso das mulheres ricas que seguiam a Jesus e financiavam Seu ministério:
"Depois disso Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens." – Lucas 8:1-3, NVI
Foi o caso de José de Arimateia, que cedeu seu túmulo para enterrar o corpo de Jesus:
"Ao cair da tarde chegou um homem rico, de Arimatéia, chamado José, que se tornara discípulo de Jesus. Dirigindo-se a Pilatos, pediu o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo de linho e o colocou num sepulcro novo, que ele havia mandado cavar na rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro, retirou." – Mateus 27:57-60, NVI
Também foi o caso de "um homem rico chamado Zaqueu, chefe dos publicanos", cujo relato de conversão pode ser lido em Lucas 19:1-10.
2) O CASO DO JOVEM RICO
Como explicar o relato do jovem rico e a ordem dada a ele para que vendesse tudo o que tinha e desse aos pobres?
Primeiro, o problema da riqueza, segundo Jesus, é que ela leva seu possuidor a confiar mais nos bens terrenos do que no poder de Deus, além de focar-se mais neste mundo provisório do que no futuro reino de Deus. Foi o que Ele ensinou em passagens como a seguinte:
“Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração." – Mateus 6:19-21, NVI
Segundo, o relato do jovem rico não pode nem deve ser usado para combater ou condenar os ricos ou a riqueza em si. Jesus pediu ao jovem que vendesse tudo o que tinha e desse aos pobres, é verdade. Mas em momento algum fez o mesmo pedido às mulheres ricas que o seguiam, ao rico José de Arimateia ou ao rico Zaqueu. O caso desses homens e mulheres abastados nos Evangelhos mostra que a riqueza não é impedimento para alguém abastado seguir a Jesus. O problema não é a riqueza, mas o valor atribuído a ela por seu possuidor.
Terceiro, Jesus disse que é impossível a um rico entrar nos Céus, sim. Mas também disse que Deus faz coisas impossíveis – o que inclui transformar o coração de um rico para ele entrar nos Céus. Tanto a impossibilidade humana quanto a onipotência divina encontram-se no final do mesmo relato:
"Então Jesus disse aos discípulos: 'Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus'. Ao ouvirem isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: 'Neste caso, quem pode ser salvo?' Jesus olhou para eles e respondeu: 'Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis'”. – Mateus 19:23-26, NVI
3) O EVANGELHO NÃO CONDENA A RIQUEZA EM SI
Jesus contou a parábola dos talentos em Mateus 25:14-30. Nela, Ele se compara a um homem rico que viaja e entrega seus bens aos servos para administrá-los enquanto está fora. Nenhuma crítica direta ou indireta à riqueza é encontrada nessa parábola, na qual fica implícito o apoio de Jesus a coisas como poupança, investimento em ações ou títulos, além do comércio em geral.
Em outro trecho, Lucas 12:13-21, ele conta a parábola do rico insensato. O que ele critica ali não é a riqueza, mas a ganância que surge ao se confiar na riqueza e se esquecer de Deus. Riqueza que não terá nenhum valor quando todos, pobres e ricos, forem chamados a prestar contas de seus atos perante o Grande Juiz.
Notícias sobre crises políticas e corrupções governamentais acabam polarizando a opinião pública dos países afetados. É curioso ver, de um lado, políticos questionáveis se fazendo de vítimas para continuar recebendo o apoio popular e, do outro lado, oposicionistas que aproveitando a situação para se autoproclamarem os únicos salvadores da pátria. Ao mesmo tempo em que vários políticos tradicionais vão perdendo a credibilidade, algumas denominações evangélicas têm-se mobilizado politicamente, a ponte de montarem sua próprias bancadas em câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas na Câmara dos Deputados e mesmo no Senado Federal, sob o pretexto de que os políticos evangélicos são mais honestos e confiáveis.
A crescente militância política evangélica tem suscitado algumas indagações importantes entre os próprios adventistas:
1ª) Deveriam os adventistas continuar politicamente passivos ou assumir uma postura mais agressiva diante das crises governamentais?
2ª) Como a Igreja Adventista do Sétimo Dia encara a candidatura de alguns de seus membros a cargos políticos através de eleições públicas?
3ª) Que critérios devem ser usados na escolha dos candidatos em quem votar?
No capítulo "Nossa Atitude Quanto à Política” do livro Obreiros Evangélicos, págs. 391-396 (ver também Fundamentos da Educação Cristã, págs. 475-484), podem ser encontradas importantes orientações sobre o não envolvimento de obreiros denominacionais em questões políticas. Já o presente artigo menciona alguns conceitos básicos sobre a posição dos adventistas como cidadãos, candidatos e eleitores políticos.
Organização apolítica
Existem pelo menos três princípios fundamentais que regem a posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre a política. Um deles é o princípio da separação entre Igreja e Estado, levando cada uma dessas entidades a cumprir suas respectivas funções sem interferir nos negócios da outra. A Igreja crê que só poderá preservar esse princípio por meio de uma postura denominacional apolítica, não se posicionando nem a favor e nem contra quaisquer regimes ou partidos políticos. Essa postura deve caracterizar, não apenas a organização adventista em todos os seus níveis, mas também todas as instituições por ela mantidas, todas as congregações adventistas locais, bem como todos os obreiros assalariados pela organização.
A Igreja encontra nos ensinos de Cristo e dos apóstolos base suficiente para evitar qualquer militância política institucional. O cristianismo apostólico cumpria sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O próprio Cristo afirmou que o Seu reino "não é deste mundo" e que, por conseguinte, os Seus "ministros" não empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qualquer com promisso político ou partidário por parte da denominação dificultaria a pregação do "evangelho eterno" a todos os seres humanos indistintamente (Mat. 24:14; Apoc. 14:6).
Outro princípio fundamental é que o nível de justiça social de um país é diretamente proporcional ao nível de justiça individual de cada um dos seus cidadãos, e que esta justiça individual, por sua vez, deriva do interior da própria pessoa. Reconhecendo as dimensões sociais do pecado, a Igreja apóia e mesmo participa de projetos so ciais e educacionais que beneficiam a vida comunitária sem conflitarem com os princípios bíblicos. Muitos desses projetos são levados a efeito em nome da ADRA - Agência de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais. No entanto, a Igreja não participa de quaisquer greves e passeatas de índole política e partidária que acabariam com prometendo sua postura apolítica.
A validade de uma perspectiva que parta do interior para o exterior do ser humano é destacada por Cristo ao afirmar que "de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura" (Mar. 7:21, 22). Consequentemente, a solução cabal para esses problemas não está na mera formulação de novas leis ou no ativismo revolucionário, e sim, na conversão interior do ser humano. Nas palavras de Cristo, "limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!" Mat. 23:26.
Um terceiro princípio fundamental é que cada cristão adventista possui uma dupla cidadania ele é, acima de tudo, cidadão do reino de Deus e, em segundo plano, cidadão do país em que nasceu ou do qual obteve a cidadania. Consequentemente, deve exercer sua cidadania terrestre com base nos princípios cristãos de respeito ao próximo. Mesmo desaprovando situações de injustiça e exploração social, a Igreja Adventista do Sétimo Dia procura se relacionar respeitosamente com o governo civil e os partidos políticos de cada país em que exerce suas atividades, sem com isso comprometer os princípios bíblicos.
Que o cristianismo não isenta os cristãos dos seus deveres civis é evidente na ordem de Cristo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Mar. 12: 17. O Novo Testamento apresenta várias orientações a respeito do dever cristão de honrar os governos civis como instituídos por Deus (ver Rom. 13:1-7; Tito 3:1 e 2; I Pedro 2:13 17). Somente quando tais governos obrigam seus súditos a transgredirem as leis divinas é que o cristão deve assumir a postura de que "antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Candidatos adventistas
Entre os direitos do cristão adventista no exercício de sua cidadania, está o de ocupar cargos políticos. O Antigo Testamento menciona vários membros do povo de Deus que exerceram funções de grande projeção no governo de importantes nações pagãs da época. Por exemplo, José foi por muitos anos primeiro-ministro do Egito, a mais importante nação da época (Gên. 41:38-45). Colocado por Deus sobre o trono daquele país (Gên. 45:7, 8), José se manteve "puro e imaculado na corte do rei"; e foi "um representante de Cristo" aos egípcios (Medicina e Salvação, pág. 36; Patriarcas e Profetas, págs. 368-369). Daniel exerceu importantes cargos governamentais em Babilônia sob o reinado de Nabucodonosor, Belsazar, Dario e Ciro (Dan. 2:48, 49; 5:11,12,29; 6:1-3, 28; 8:27). Com um apego incondicional aos princípios divinos, Daniel e seus companheiros foram embaixadores do verdadeiro Deus na corte desses reis (ver Dan. caps. 1, 3 e 6).
A postura de José e Daniel nas cortes pagãs do Egito e de Babilônia, respectivamente, corrobora o fato de que é possível ser cristão sob governos não comprometidos com a religião bíblica. Mas o aprisionamento de José (Gên. 39:7-23), o teste alimentar de Daniel e seus três companheiros (Dan. 1), a passagem desses três companheiros na fornalha de fogo (Dan. 3) e a experiência de Daniel na cova dos leões (Dan. 6) comprovam que há um preço elevado a ser pago por aqueles que ocupam cargos públicos em ambientes hostis à verdadeira religião. O exemplo do rei Salomão deixa claro que boas intenções iniciais (II Crôn. 1:1-13) podem ser corrompidas pela influência de ambientes vulgares (I Reis 11:1-15). Já a atitude do rei Ezequias para com a embaixada de Babilônia comprova que governantes tementes a Deus correm o risco de se orgulharem de suas próprias consecuções (II Reis 20:12-19).
É interessante notarmos que José e Daniel foram nomeados para suas funções públicas pelos próprios monarcas da época. Mas hoje, na maioria das democracias modernas, as pessoas precisam se candidatar e concorrer a tais funções em um processo bem mais competitivo. O fato de existirem políticos corruptos não significa que todo político seja corrupto. Embora a Igreja Adventista do Sétimo Dia, normalmente, não encoraje e nem desestimule a candidatura política dos seus membros, ela também reconhece que a sociedade contemporânea tem sido beneficiada pelo bom exemplo de alguns políticos adventistas que concorrem honestamente a determinados cargos públicos e os exercem dignamente, sem comprometerem com isso os princípios bíblicos. A influência positiva de políticos adventistas tem sido decisiva, em vários países, para o estabelecimento de legislações que facilitem a observância do sábado.
A Igreja espera que os adventistas que se candidatam a cargos políticos elegíveis sejam honestos em sua campanha e, se eleitos, também no exercício de suas funções políticas. Cada candidato deve conduzir o seu processo eleitoral-político:
(1) sem assumir posturas ideológicas e partidárias contrárias aos princípios cristãos;
(2) sem se valer de recursos financeiros ina propriados;
(3) sem prometer o que não possa cumprir;
(4) sem denegrir a reputação de outros candidatos igualmente honestos;
(5) sem se envolver com coligações não condizentes com a fé cristã-adventista;
(6) sem jamais comprometer a observância do sábado em suas campanhas; e
(7) sem minimizar seu compromisso pessoal com o estilo de vida adventista em coquetéis e confraternizações sociais.
Conheço igrejas locais que enfrentaram sérias desavenças internas pelo fato de alguns dos seus membros se candidatarem a vereadores por partidos rivais. É certo que os membros da igreja têm o direito, como cidadãos, de se candidatarem e concorrerem a cargos elegíveis, bem como de procurarem convencer outros a neles votarem. Mas nenhuma programação oficial de qualquer congregação adventista deve ser usada como plataforma política que comprometa a postura apolítica da denominação. Candidatos adventistas que usam eventualmente o púlpito devem pregar o evangelho, sem jamais falar sobre política. Deus poderá abençoar ricamente os candidatos que exercerem honestamente sua cidadania, respeitando a posição apolítica da igreja e de seus obreiros, e promoverem a cordialidade e a unidade de nossas congregações.
Eleitores adventistas
Os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia devem reconhecer ser seu dever individual escolher cons cientemente em quem votar. O princípio básico é sempre votar em candidatos cuja ideologia, crenças, estilo de vida e propostas políticas estejam mais próximos dos princípios adventistas. Entre os princípios mais importantes estão:
(1) liberdade religiosa,
(2) separação entre Igreja e Estado,
(3) observância do sábado,
(4) conduta moral,
(5) temperança cristã,
(6) apoio ao sistema educacional privado mantido pela Igreja, e a
(6) tentativa de melhorar a qualidade de vida das classes moral e economicamente desfavorecidas.
A posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre algumas dessas questões é enunciada no livro Declarações da Igreja (Tatuí, SP: CPB, 2003).
Ellen White adverte contra votar em candidatos sem compromisso com a liberdade religiosa:
"Não podemos, com segurança, votar por partidos políticos; pois não sabemos em quem votamos. Não podemos, com segurança, tomar parte em nenhum plano político. Não podemos trabalhar para agradar a homens que irão empregar sua influência para reprimir a liberdade religiosa, e pôr em execução medidas opressivas para levar ou compelir seus semelhantes a observar o domingo como sábado. O primeiro dia da semana não é um dia para ser reverenciado. É um falso sábado, e os membros da família do Senhor não podem ter parte com os homens que o exaltam, e violam a lei de Deus, pisando Seu sábado. O povo de Deus não deve votar para colocar tais homens em cargos oficiais; pois assim fazendo, são participantes nos pecados que eles co metem enquanto investidos desses cargos". – Fundamentos da Educação Cristã, pág. 475.
Um dos maiores problemas na escolha de candidatos é a teoria de que "os fins justificam os meios". Se determinado candidato, mesmo sem compromisso com os princípios acima mencionados, promete beneficiar financeira ou politicamente a Igreja, alguns líderes julgam pertinente apoiar tal candidato em troca desses favores. Mas esse tipo de barganha política jamais deveria ser tolerado nos meios adventistas. Acima de quais quer benefícios coletivos ou individuais, deve estar o compromisso com os princípios adventistas.
Outro aspecto de especial interesse para os eleitores adventistas é a votação ou não em candidatos adventistas. Alguns creem equivocadamente que, votando em candidatos adventistas, estariam ao mesmo tempo promovendo a liberdade religiosa e postergando os eventos finais. Mas é dever de todo cristão adventista exercer sua influência em favor da liberdade religiosa (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 375; Testemunhos para Ministros, págs. 200-203), contribuir positivamente para a finalização da pregação do evangelho (Mat. 24:14; 28:18-20), e deixar os eventos finais por conta de Deus (Atos 1:6-8).
Como membros do corpo de Cristo (I Cor. 12:12-31), deveríamos acabar com a falsa teoria de que "adventista não deve votar em adventista". Essa teoria só é aplicável a candidatos que não vivem uma vida condizente com os princípios adventistas ou cuja candidatura visa apenas a obter benefícios pessoais, sem uma proposta política adequada. Mas, por outro lado, se os candidatos adventistas são os que mais próximo se encontram dos princípios que sustentamos e se eles possuem boa proposta política, então, não existe qualquer justificativa plausível para se descartar tais candidatos simplesmente por serem adventistas.
Deveria ser considerada também a questão das eleições no sábado em países onde a votação é obrigatória. Este assunto foi tratado por Mário Veloso em seu artigo "Os adventistas e a eleição no sábado" na Revista Adventista (Brasil), julho de 1986, págs. 19-20. Embora a Igreja Adventista do Sétimo Dia não discipline os membros que, por iniciativa pessoal, votem durante as horas do sábado, a recomendação é que isso seja evitado. O referido artigo foi escrito como um apelo aos políticos brasileiros para que houvesse um "prolongamento das horas para o exercício do voto, de tal maneira que os adventistas possam votar depois do pôr-do-sol do sábado". A declaração de que Ellen White votaria até mesmo "no sábado" diz respeito à causa da temperança, ou seja, à lei seca de proibição da venda de bebidas alcoólicas, em Des Moines, Iowa, em 1881 (ver Arthur L. White, Ellen G. White, vol. 3, págs. 158-161). Mas essa declaração não provê qualquer endosso a votação política em dia de sábado.
Conclusão
A Igreja Adventista do Sétimo Dia sempre manteve uma posição oficial apolítica de não se posicionar a favor ou contra qualquer regime ou partido político. Essa posição é mantida em todos os níveis organizacionais e institucionais da denominação, inclusive em suas congregações locais. Os obreiros assalariados pela denominação devem manter a mesma postura. Consequentemente, nenhum púlpito adventista e nenhuma reunião promovida oficialmente pela denominação jamais deveria desfraldar qualquer bandeira política. Ele é um lugar onde o evangelho eterno deve ser proclamado com o propósito de conduzir à salvação em Cristo pessoas de todas as etnias e de todos os partidos políticos, sem preferências e discriminações.
Por contraste, a Igreja faculta aos seus membros o direito individual de exercer sua cidadania, inclusive a de se candidatar a cargos políticos e de exercê-los dignamente. Tanto no processo eleitoral como no exercício da função, espera-se que cada adventista engajado em tais atividades mantenha uma postura digna de verdadeiro cristão adventista. Todos os políticos adventistas deveriam considerar a José e Daniel como seus modelos políticos. Deveriam sentir ser seu dever zelar pessoal e publicamente pela liberdade religiosa e pelos princípios cristãos em um mundo carente dos valores absolutos da verdadeira religião bíblica.
Todos os membros da igreja deveriam votar conscientemente nos candidatos que melhor refletem os ideais adventistas. A escolha dos candidatos não deveria ser tanto por partido político, mas pela ideologia e os valores pessoais de cada um. Candidatos adventistas não deveriam ser discriminados simplesmente por serem adventistas, exceto se não demonstram uma conduta digna ou não possuam um plano de governo adequado. O voto de cada adventista deveria ser um testemunho autêntico a favor da liberdade religiosa que facilite o cumprimento da missão adventista nestes dias finais da história humana.
*O Pr. Alberto Ronald Timm, Ph.D, é professor de Teologia Histórica do Centro Universitário Adventista de São Paulo, Campus Engenheiro Coelho, e diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White. Artigo publicado originalmente no site Advir.com, com o título "Os Adventistas e a Política".
Desde o nascimento da igreja cristã, estas questões têm sido debatidas vez após vez: Qual é o papel do cristão na política? Pode um membro ou a própria igreja envolver-se em política? Como deviam se relacionar com o governo e com as autoridades políticas?
Alguns adventistas do sétimo dia acham que a igreja não desempenha nenhum papel político, e o cristão individual, no máximo, uma parte minúscula. Esta opinião funda-se sobre o conceito de que o reino de Cristo não é deste mundo. Outros adventistas insistem que tanto indivíduos como a igreja têm responsabilidades sociopolíticas incontestáveis para melhorar as condições de vida. Alguns cristãos vão mais longe e pretendem que a tarefa principal do cristianismo é trabalhar para criar uma ordem política cristã que resulte no estabelecimento do reino de Deus na Terra. Entre uma e outra, há todo uma gama de opiniões.
O exemplo de Cristo
Jesus raramente mencionou o tipo de sociedade política à qual Seus discípulos deviam aspirar. Ele não pretendeu ser um reformador sociopolítico. Ele não enunciou nenhuma plataforma política. As tentações no deserto tinham uma dimensão claramente política e Ele as resistiu. Embora Ele tivesse mais de uma oportunidade para apoderar-Se do governo da sociedade por uma espécie de golpe de estado (ex.: o alimentar a multidão e a entrada triunfal em Jerusalém), Ele não escolheu esta opção.
Ao mesmo tempo, os ensinos de Jesus não podiam deixar de ter uma influência sociopolítica ao serem observados pela comunidade cristã. Ele ofereceu boas novas aos pobres, liberdade para os oprimidos e vida abundante (João 10:10). Portanto, os adventistas, seguindo o exemplo de cristãos através dos séculos, precisam reconhecer sua responsabilidade social. Os pioneiros adventistas pregavam não só o evangelho de salvação individual, mas também se preocupavam com alcoólatras, escravos, mulheres oprimidas e as necessidades educacionais de crianças e jovens.
A base bíblica de responsabilidade socio-política
A responsabilidae socio-política cristã baseia-se sobre dois fundamentos bíblicos. Primeiro, a doutrina da Criação. Deus criou ex nihilo o Universo e nos designou como os mordomos deste mundo. Mordomia implica tanto em responsabilidade como prestação de contas pelo domínio sobre o qual tem jurisdição.
Segundo, a doutrina do homem. Os seres humanos são criados à imagem de Deus. Os parâmetros da responsabilidade humana de servir jazem dentro deste conceito bíblico da natureza humana. A visão cristã é que homens e mulheres não são uma espuma sobre o mar da vida, mas pessoas com um papel responsável a desempenhar e com um futuro promissor. O potencial humano confere propósito, direção e otimismo a cristãos a serviço de outros num contexto comunitário.
Assim, o cristianismo não é uma religião de individualismo isolado ou de introversão; é uma religião de comunidade. Os dons e as virtudes cristãs têm implicações sociais. Devoção a Jesus Cristo significa devoção a todos os filhos de Deus, e devoção gera responsabilidade pelo bem-estar de outros.
O dilema de uma dupla cidadania
Cristãos sinceros confrontam o dilema de uma dupla cidadania. De um lado eles pertencem ao reino de Deus, e do outro, a sua terra natal. São parte da “nova humanidade” e vivem no meio da “velha humanidade”. Há aqui um conflito inerente? Precisa a juventude adventista do sétimo dia escolher uma cidadania e renunciar à outra? Não há dúvida de que ocasionalmente possa haver conflito quando as exigências ou deveres de uma cidadania colidem com os da outra. Em tais casos as Escrituras são claras: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29).
Não obstante, o reino de Deus não se encontra isolado deste mundo; “está entre vós” (Lucas 17:21). Em outras palavras, o reino de Deus é uma esfera, um comprometimento, uma atitude e um modo de vida e pensar que permeia a toda nossa existência e que dá um sentido especial à cidadania nacional. É a soberania de Deus invadindo o viver humano.
Nada fazer é ação política
A organização política da sociedade é a provisão divina para a humanidade caída. Deus não pede que as pessoas corretas se distanciem do processo político de governo e deixem o controle sociopolítico e econômico nas mãos dos “malfeitores”. Os cristãos devem ser o sal e a luz do mundo social, e portanto não podem simplesmente se afastar do processo político. Com efeito, tal abdicação é em si mesma uma ação política que abre o caminho para o controle político para aqueles que não apóiam valores cristãos. “Nada fazer” é uma receita certa para o pecado ficar senhor da situação. Os adventistas têm tanto o direito como o dever de usar a cidadania terrestre para manter a igreja livre para cumprir seu mandato divino e ajudar como indivíduos a atender às necessidades sociais gritantes.
Deveres de cidadania política
Os adventistas do sétimo dia confrontam pelo menos quatro deveres da cidadania política.
Primeiro, o dever de orar a favor dos que exercem autoridade governamental. Precisamos orar por auxílio divino para resolver alguns dos problemas sociopolíticos que afetam negativamente a vida humana e a proclamação do evangelho. As orações e súplicas dos fiéis ascendem muito mais alto do que as declarações e ações políticas que enchem montanhas de papel reciclável.
Segundo, o dever de votar e de fazer petições às autoridades no poder. Os adventistas devem votar mesmo quando a escolha seja entre o menor de dois males. Em conexão com isto, a obtenção do título de eleitor é o primeiro passo.
Terceiro, o dever de educar-se e informar-se. Os adventistas, não menos que outros cidadãos, devem instruir-se continuamente quanto a questões que afetam a vida presente e futura. Ignorância política não aumenta a felicidade espiritual.
Quarto, o dever de candidatar-se e ocupar cargos públicos. Os adventistas têm este direito constitucional. Há também designação para cargos governamentais que não envolvem campanha eleitoral. Ellen White afirma que não há nada errado na aspiração de “sentar em conselhos deliberativos e legislativos e ajudar votar leis para a nação” (Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, pág. 36). Contudo, ela aconselha que ministros e professores empregados pela igreja se abstenham de atividades políticas partidárias (Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, págs. 391-395). A razão que ela dá é bem clara: política partidária pode criar divisões. Um pastor poderia facilmente dividir uma congregação e enfraquecer grandemente sua habilidade de servir como pastor de todo o rebanho, tomando partido.
Perigo de envolvimento político
Tendo salientado a responsabilidade e privilégios da cidadania, torna-se necessário advertir contra o perigo de envolvimento político tanto do indivíduo como da igreja. Os adventistas, como outros cristãos, podem ser enganados por César. Sucesso na política envolve compromisso, exaltação própria, ocultar fraquezas e desempenhar papéis partidários. Às vezes torna-se necessário aceitar expedientes que não se enquadram com as melhores convicções morais. A política é um patrão exigente e absorvente. Os políticos cristãos caminham sobre uma corda bamba. Devem evitar contaminar-se com a qualidade irônica e absorvente do ativismo político que pode rebaixar seus esforços a um nível em que Deus parece não envolver-Se nos assuntos humanos.
Há um perigo crescente de as igrejas se envolverem em política. Isto leva à interpretação da fé e do evangelho cristãos em termos de valores políticos. O interesse em muitas igrejas parece ter-se transferido da moralidade individual à moralidade social. O resultado é que, em certos segmentos da sociedade eclesiástica, idéias seculares começam a moldar os valores cristãos de modo a haver pouca diferença entre o secular e o sagrado. É triste constatar que amiúde as atitudes de cristãos são as mesmas da sociedade em geral.
Envolvimento circunspecto da igreja
O que acabamos de dizer aponta à necessidade de um envolvimento político judicioso. Uma igreja mundial, com milhares de instituições, dez milhões de membros adultos e muitos interessados, não pode evitar contato com o Estado e o envolvimento político. Não somente pessoas, mas também organizações eclesiásticas, têm direitos e responsabilidades. A igreja tem o direito de intervir no caso de legislação ou ações regulatórias, tanto positivas como negativas, que afetem a missão da igreja.
A igreja não deve jamais (e jamais é um termo forte) identificar-se com um partido político particular ou com um sistema político. Uma identificação tal pode de início trazer um privilégio temporário rápido, mas inevitavelmente arrastará a igreja pela rampa descendente que leva a uma paralisia de sua ação evangelística e profética. Em suma, “a igreja deve ser a igreja”, e não uma agência social. Sua iniciativa mais prometedora para mudar a sociedade é transformar indivíduos, gente. Os adventistas do sétimo dia cumprem, numa estrada de mão dupla a missão de Deus no mundo: evangelismo e serviço.
*Bert B. Beach (Ph.D., Universidade de Paris, Sorbonne) é o diretor de relações entre igrejas da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Este artigo foi publicado originalmente na revista Diálogo Universitário.
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único filho..." Deus amou o mundo. O mundo inteiro. Com suas imperfeições todas. Com sua multiplicidade interminável. Com seus africanos e seus escandinavos, seus orientais e seus caucasianos; com budistas e cristãos, satanistas, muçulmanos e espíritas; com altos e baixos, ricos e pobres, cultos e incultos. Deus amou o mundo todo. E, embora Ele tenha vivido entre nós e solicitado que O imitássemos em tudo, nesse quesito específico Ele pediu uma outra coisa. Ele não quer que amemos o mundo. Ele quer que amemos o próximo.
Nós temos abusado da palavra amor. Você diz para alguém que o ama, e dez minutos depois diz que ama cocada ou um par de sapatos. Quando Deus diz que amou o mundo Ele está empregando o primeiro sentido da palavra, ou provavelmente bem mais que isso, porque mesmo para pessoas usamos a palavra amor de forma trivial. O amor de Deus não é trivial. É do tipo que renega a tudo o mais em nome do objeto amado. É do tipo que se diminui, se deixa torturar, cuspir, ridicularizar, xingar e matar.
Portanto, o amor segundo Deus não é algo que se possa reduzir a um mero sentimento. O amor segundo Deus não pode ser "platônico". O amor segundo Deus não é algo abstrato, que pode ser encapsulado na subjetividade do amante, sem reflexo em suas ações, suas prioridades, sua atitude.
Raiz Coral - A Caridade
Acho que é exatamente por isso que Ele não nos pede para amar o mundo. Ele sabe que isso nos é impossível. Não conseguimos exercitar amor pelo mundo todo, porque somos finitos, somos limitados em tempo e em espaço. Só Deus pode amar o mundo.
O que uma criatura finita que foi muito amada pode, sim, fazer, é amar o próximo. Na verdade, é o que ele deve fazer, é a resposta lógica ao amor recebido. Perguntaram a Jesus quem era o próximo e sua resposta, através da parábola do bom samaritano, foi a mais trivial possível. Próximo, é a conclusão, é quem está próximo. É quem está perto de você. Quem quer que seja. Próximo é qualquer pessoa a quem você possa demonstrar amor. É qualquer pessoa que pode ser atingida pela exteriorização de algo que está dentro de você. É toda pessoa a quem você possa tocar, que possa ser impactada pelo seu sorriso, pela sua atenção. É qualquer pessoa a quem a sua preocupação e sua ação possa beneficiar de fato.
Olhe ao seu redor e imite a Deus.
Feliz sábado, @migos!
*Marco Aurelio Brasil é advogado e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Unasp Campus 1, em São Paulo/Capital.
Na reação petista ao vídeo do pastor presidente da 1ª Igreja Batista de Curitiba Pr. Paschoal Piragibe Jr, o presidente do PT no Paraná e deputado estadual Ênio Verri chamou o pastor de mentiroso por declarar que parlamentares petistas tinham sido expulsos do partido por votarem contra o aborto. Na entrevista à Rádio CBN Curitiba, Ênio Verri disse que os deputados citados pelo ministros batistasaíram por vontade própria e tinham liberdade para votarem conforme sua consciência nessa questão. Os fatos, porém, estão do lado do pastor batista, e não do parlamentar petista.
Queiramos admitir ou não, partidos de esquerda como o PT abrigam e estimulam em seus quadros militantes e movimentos sociais que lutam por bandeiras contrárias a alguns valores cristãos. Antes de prosseguirmos, queremos lembrar o que a Palavra de Deus ensina sobre a questão do aborto, bem como a posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia a respeito.
Posição bíblica, adventista e legal
Ao contrário do que o governo brasileiro, entidades pró-escolha e a Igreja Universal do Reino de Deus (pró-aborto) ensinam, a Palavra de Deus afirma a dignidade da vida humana intra-uterina (Ex 20:13; 21:22-24), a vida humana como criada por Deus desde a concepção (Sl 139:13-16; Is 44:24) e o valor da pessoa humana desde o estado fetal (Jr 1:4-5; Lc 1:39-44).
Baseada nessas e em outras passagens bíblicas, a posição oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia é que a Igreja não tolera a prática do aborto "por razões de controle de natalidade, seleção de sexo ou conveniência". Contudo, ela reconhece que "às vezes as mulheres podem ter de enfrentar circunstâncias excepcionais, que apresentam sérios dilemas morais ou médicos, tais como ameaças significativas para a saúde ou para a vida da gestante, graves defeitos congênitos no feto e gravidez resultante de estupro ou incesto". Nesses casos, a orientação da Igreja é que a decisão final quanto a interromper ou não a gravidez deva ser feita pela mulher grávida após o devido aconselhamento médico e espiritual por meio de "informação precisa, princípios bíblicos e a orientação do Espírito Santo".
O Código Penal brasileiro encara o aborto como crime contra a vida e pune com detenção quem o pratica ou autoriza (artigos 124 a 128), salvo se há risco de vida para a mãe ou a gravidez resulta de estupro. Autorização para aborto em casos de grave deformação fetal (como bebês sem cérebro) tem sido dada por alguns juízes desde 1993, mas ainda é um ponto controverso entre os magistrados.
Os defensores da descriminalização do aborto, caso de setores do PT, querem que a prática seja autorizada para todos os casos como um direito da mulher sobre o seu próprio corpo.
Deputados do PT contrários ao aborto
Voltando ao aborto na vida interna do PT, devemos lembrar que o texto do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), que inclui a descriminalização do aborto, é fruto de reuniões e discussões de diversos setores sociais sob o guarda-chuva do partido. Segundo matéria da Folha de São Paulo de 19/02/2010, os delegados presentes ao Congresso Nacional do PT entenderam que o partido deve manifestar "apoio incondicional ao programa" por considerar que ele é "fruto de intenso processo de participação social". O documento "Resoluções do 3º Congresso do PT", elaborado em 2007 e disponível na página do partido, declara:
"O PT, através de sua secretaria defende e reafirma seu compromisso com políticas e ações, hoje incorporadas pelo governo federal, que representam as principais bandeiras de lutas dos movimentos de mulheres e feministas, e que são extremamente significativas para a melhoria da qualidade de vida das mulheres:
(...)
• defesa do Plano Nacional de Planejamento Familiar, contribuindo para a autonomia das mulheres sobre seu corpo e sua sexualidade;
• defesa da autodeterminação das mulheres, da discriminalização do aborto e regulamentação do atendimento à todos os casos no serviço público evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto clandestino e da falta de responsabilidade do Estado no atendimento adequado às mulheres que assim optarem".
Resoluções do 3° Congresso Partido dos Trabalhadores, 30 de agosto a 2 de setembro de 2007, São Paulo, Brasil. – Porto Alegre: Partido dos Trabalhadores, 2007, pág. 82.
Uma simples pesquisa na web mostra que o Pr. Paschoal Piragibe Jr está correto ao apontar a expulsão de parlamentares petistas por sua posição contrária ao aborto. Quem falta com a verdade é o presidente do PT no Paraná e deputado estadual Ênio Verri.
Luis Bassuma
Documento do próprio diretório do PT e disponível na web mostra que os deputados federais Luiz Bassuma (PT-BA) e Henrique Afonso (PT-AC) tiveram os direitos de votar e discursar em nome do partido retirados (por 1 ano e por 3 meses, respectivamente) ao infrigir "a ética-partidária ao 'militarem' contra resolução do 3º Congresso Nacional do PT a respeito da descriminalização do aborto". O voto da Comissão de Ética do partido foi dado por unanimidade em setembro de 2009. Segundo o site de notícias políticas Congresso em Foco, a expulsão dos parlamentares era uma das opções cogitadas antes da voto, tomando posição a favor das mulheres petistas defensoras do aborto.
Segundo a revista Bahia em Foco, o deputado baiano Luis Bassuma foi EXPULSO do partido por ser contra o aborto "num processo deflagrado pelas mulheres da militância partidária por sua pregação nacional contra o aborto". Espírita, Luis Bassuma entrou para o PV após a expulsão e hoje concorre ao governo da Bahia.
Henrique Afonso
Membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, o deputado acriano Henrique Afonso decidiu sair do PT ANTES QUE O EXPULSASSEM. Segundo entrevista ao Sistema Juruá de Comunicação, Afonso disse estar numa posição insustentável por condenar o aborto dentro do PT. Como era contrário a outras resoluções do partido por questões religiosas, ele poderia ser expulso por reincidência mais tarde e por isso preferiu deixar o partido antes de uma nova retaliação.
*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
Caso Pr. Piragibe Jr 2: o aborto e deputados petistas
Um vídeo extremamente polêmico, reunindo temas espinhosos como aborto, política e religião, está alcançando quase 1 milhão de exibições no Youtube. Durante um sermão no fim de agosto passado, o pastor presidente da 1ª Igreja Batista de Curitiba (PR) Paschoal Piragine Jr mostrou uma gravação com cenas fortes sobre aborto e casamento homossexual, dois temas incluídos no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) aprovado no governo Lula. O religioso condenou o conteúdo do PNDH e orientou os fiéis a não votarem nos candidatos que estejam comprometidos na defesa do Plano ou que o apóiem, citando por nome o Partido dos Trabalhadores (PT).
Youtube - Posicionamento do Pr. Paschoal Piragine Jr sobre as eleições 2010
A reação petista veio rápida. Em reportagem da Rádio CBN Curitiba, o presidente do PT no Paraná e deputado estadual Ênio Verri reagiu às declarações do ministro batista. O líder político chamou o pastor de mentiroso, mandou-o para o inferno ("o céu não é o destino futuro desse pastor", segundo ele) e ameaçou processá-lo na Justiça. Ênio Verri disse que os deputados citados pelo Pr. Paschoal Piragine Jrnão foram expulsos do partido por votarem contra o aborto. Segundo ele, eles saíram por vontade própria e tinham liberdade para votarem conforme sua consciência nessa questão. Numa outra postagem, mostraremos que os fatos estão do lado do pastor batista, e não do parlamentar petista.
O religioso está em viagem para a Argentina e não foi encontrado pela CBN Curitiba para comentar as declarações do presidente do PT. Também não informado o motivo da viagem, se pessoal ou a serviço da igreja. Mas redes sociais e blogs na internet têm especulado que o pastor Paschoal Piragine Jr. teve de fugir por causa de ameaças recebidas contra ele e sua família desde que proferiu o sermão. Embora tenha recebido muita aprovação de setores conservadores dentro e fora da sua denominação, muitos têm se posicionado contra o pronunciamento do pastor batista. Mas o que a Palavra de Deus ensina sobre a delicada relação entre política e religião?
Batistas e a separação Igreja–Estado
Jesus defendeu a separação dos poderes eclesiástico e governamental em Mt 22:17-21, atribuindo esferas de poder e submissão próprias a César e a Deus. Em Rm 13:1-7 e 1Pe 2:13-17, os apóstolos do Salvador foram bem claros ao ordenar os cristãos a serem submissos ao Estado como instituição ordenada por Deus, ensinando-nos que ele existe para recompensar o bem e refrear o mal.
Respaldados por passagens como essas, a tradição batista em que se insere o Pr. Piragibe Jr tem defendido a separação Igreja–Estado e a liberdade religiosa ao longo dos séculos. Seus antepassados espirituais, os anabatistas já propunham esse princípio em meio à perseguição religiosa provocada pela junção dos poderes civis e religiosos na Europa católica e protestante dos séculos XVI e XVII. Os primeiros dois pastores da primeira igreja batista no mundo, fundada na Inglaterra em 1611, defendiam a separação Igreja–Estado e morreram na prisão por causa de suas crenças. Era um tempo em que a Igreja Anglicana havia trocado o Papa de Roma pelo Rei da Inglaterra como chefe espiritual, mantendo a mesma intolerância herdada do catolicismo e perseguindo os dissidentes: especialmente os católicos, puritanos e batistas.
Com o desejo de liberdade de consciência, os puritanos enfrentaram os perigos de um longa jornada através do mar em direção às praias da América do Norte. Mas embora desejassem "um Estado sem rei e uma Igreja sem papa", os tripulantes do navio Mayflower logo começaram a ser tão intolerantes quanto os seus inimigos na colônia americana de Massachusetts. Eles cruzaram o Atlântico, fugindo da perseguição da igreja oficial da Inglaterra. Contudo, para criar uma igreja oficial deles mesmos na Nova Inglaterra, exigia-se que todos os cidadãos sustentassem o clero, magistrados declararam guerra contra a heresia e a filiação à igreja era critério de admissão em cargos públicos. A liberdade de consciência era sufocada por essa mistura de religião e governo que lembrava o velho mundo.
O pastor Roger Williams, perseguido pelos anglicanos na Inglaterra, chegou à colônia de Massachusetts em 1631. Ele viveu por algum tempo na fazenda Plymouth, um museu vivo do primeiro povoado permanente inglês na América. Apesar de ter tido uma recepção calorosa e ser convidado a pastorear a única igreja existente em Boston, Williams logo se tornou um pregador exilado e fugitivo. Ele lera os escritos dos primeiros pastores batistas citados anteriormente e ensinava que a união Igreja–Estado era insustentável, que o poder civil não pode legislar sobre questões religiosas e que o salário pastoral deve ser pago pelos membros que o contratam e não por impostos governamentais.
Os líderes puritanos de Massachusetts não podiam tolerar aquelas novas e perigosas opiniões. Durante um julgamento formal, eles condenaram Williams e ordenaram que fosse exilado. Banido de Boston, ele vagou pela neve por 14 semanas floresta adentro, mal conseguindo sobreviver até que encontrou refúgio com os índios. Comprando terra deles, Roger Williams fundou a colônia de Providence, onde agora fica Rhode Island. Ali o pastor estabeleceu o primeiro governo moderno, oferecendo total liberdade de consciência. Williams convidou todos os oprimidos e perseguidos a buscarem refúgio em Providence, qualquer que fosse a sua fé. Mesmo que não tivessem qualquer fé, eles seriam bem-vindos. E nesse reduto de liberdade, foi fundada em 1638 a primeira Igreja Batista em terras americanas. Providence se tornou a capital da liberdade no Novo Mundo e o esboço da Constituição Americana um século e meio depois, defendendo a liberdade religiosa e a separação Igreja–Estado.
Graças a pioneiros batistas do começo de sua história, a Igreja Adventista do Sétimo Dia herdou a defesa desses dois grandes princípios. Organizada por líderes adventistas no ano de 1893, a Associação Internacional de Liberdade Religiosa (IRLA, em inglês) trabalha para defender, proteger e promover a liberdade religiosa em todos os lugares para todas as pessoas. Seu foco primário é organizar congressos, simpósios, conferências e seminários, e atuar junto a legisladores, governos e líderes religiosos, estimulando a liberdade religiosa e ajudando as vítimas de intolerância religiosa. Afiliada a parceiros em 80 países, a IRLA recebeu em 2000 status de ONG consultiva na Organização das Nações Unidas.
Implicações da separação Igreja–Estado
Voltando ao caso do Pr. Piragibe Jr: ao contrário de muitos ministros populares (no pior sentido do termo), ele não vendeu o voto da sua denominação para este ou aquele candidato, nem promoveu qualquer candidato como "o homem escolhido por Deus, ou do sonho de Deus, o homem de Deus para este cargo etc". Ele apenas valeu-se do seu direito bíblico e constitucional de orientar espiritualmente sua congregação conforme uma legítima preocupação sua sobre questões sociais e morais.
A separação Igreja–Estado não significa que as duas esferas jamais possam interagir de quaisquer formas ou por quaisquer meios. Igrejas são entidades civis e jurídicas submetidas a algumas leis específicas do governo civil, compostas por membros que são cidadãos do país em que residem e que desfrutam de direitos e deveres políticos assegurados pelo mesmo Estado. Este por sua vez decreta feriados baseados em comemorações religiosas, concede liberdade de crença e reunião, protege os locais de culto e suas liturgias e permite capelania religiosa em presídios e quartéis, entre outras garantias.
A separação Igreja–Estado significa que o Estado não deve favorecer nem prejudicar nenhuma organização religiosa em detrimento de outra, e a Igreja não deve interferir nos negócios do Estado nem (idealmente) se envolver na política partidária como uma organização coletiva. Uma coisa é o membro ou o ministro evangélico expor sua opinião sobre o momento político, outra diferente é a Igreja local ou a denominação apoiar ou condenar oficialmente este ou aquele candidato ou projeto político.
Uma das consequências lógicas da separação Igreja–Estado defendida pela Bíblia é que a Igreja não deve impor sua moralidade aos não-cristãos, muito menos usar a força de lei para forçar as pessoas a seguir suas normas e crenças. Contudo, a Palavra de Deus aconselha os cristãos a não se conformarem aos padrões corrompidos deste mundo hostil a Deus e à Sua vontade (Mt 5:13; Jo 17:14-16; Rm 12:1-2; Fp 2:14-16; Tg 4:4; 1Pe 2:11-12; 1Jo 2:15-17). Nas sociedades democráticas ocidentais, os diferentes grupos sociais usam o espaço do debate público e a arena política para defender seus interesses e promover seus valores. Nesse caso, a Igreja pode e deve usar os meios ao seu alcance e ao seu dispor para defender e promover um padrão moral mínimo para o bem-estar dela mesma e do resto da sociedade.
Cristãos protestantes trabalharam com sucesso nesse caminho ao lutar pelo fim da escravidão e em favor das crianças órfãs na Inglaterra, contra o estímulo aos vícios do álcool e do fumo, a escravatura e a segregação racial nos EUA e contra o infanticídio e o enterro de viúvas com seus maridos na Índia. Batistas como o missionário à Índia William Carrey e o pastor Martin Luther King não violaram a separação Igreja–Estado defendida por sua denominação ao apoiarem essas bandeiras pelo exemplo e pela voz, embora tenham confrontado interesses partidários e leis estabelecidas pelo Estado de então.
Portanto, o Pr. Piragibe apenas coloca-se numa lista de ministros cristãos a usar sua influência contra questões morais de repercussão social.
*Walter Dos Santos é um jornalista apaixonado por Cristo e pela literatura que mantém o Portal Escrivão Caminha (escrivaocaminha.blogspot.com). A reprodução deste texto é autorizada desde que seja mencionado este crédito.
Não furtareis, nem mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo. Levítico 19:11
Você tem certeza de que nunca mentiu? Nem mesmo para agradar à dona-de-casa, jurando que a sopa de jiló e a salada de berinjela estavam uma delícia? Ou afirmando a um doente terminal que a aparência dele está ótima e que ele logo vai ficar bom? Ou escondendo suas verdadeiras intenções?
Meias-verdades também são mentiras? E exagerar ou diminuir uma verdade? É lícito mentir para salvar a própria vida ou a de outra pessoa? E o que dizer da hipocrisia? Como se pode ver, a mentira tem muitas facetas, e as respostas nem sempre são fáceis. Vejamos alguns casos bíblicos.
Grandes homens de Deus, como Abraão, Isaque, Jacó, Davi, mentiram. E todos eles colheram nesta vida os seus frutos amargos. Ananias e Safira cometeram um delito mais grave, mentindo ao Espírito Santo. E “perderam esta vida e a futura” (Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 76).
Raabe, a meretriz de Jericó, mentiu para salvar os espias israelitas, e com isso salvou também a própria vida e a de seus familiares. Ela teve a honra de ser ancestral do Salvador do mundo, o seu nome figura na galeria da fé em Hebreus 11. No entanto, a Bíblia não a elogia porque mentiu; apenas relata o que aconteceu. Ela foi elogiada, não por sua mentira, mas por ter acolhido os espias israelitas, fazendo-os partir por outro caminho (Tiago 2:25).
Um episódio curioso é o do profeta Samuel, que por ordem divina deveria ir a Belém com a missão primordial de ungir Davi como rei de Israel, enquanto Saul ainda era rei (1 Samuel 16). Samuel, entretanto, objetou, dizendo a Deus que Saul o mataria quando soubesse disso. Então Deus aliviou-lhe os temores, esclarecendo que a unção de Davi não seria pública, para não enraivecer Saul. Seria um ato doméstico, que não chamaria tanto a atenção. Para isso, Samuel deveria tomar um novilho para ser oferecido como sacrifício, mas sem revelar que, juntamente com o sacrifício, também ocorreria a unção de um novo rei. Não havia nada de errado em agir secretamente, pois Samuel não devia explicações a Saul, nem Deus lhe pediu que contasse a todos sobre a unção de Davi.
Jesus Cristo fez a mesma coisa com os discípulos ao recusar-Se a revelar tudo o que sabia: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12).
Podemos adotar aqui o seguinte princípio: “Mas, embora a verdade não possa ser dita inteiramente em todas as ocasiões, nunca é necessário nem justificável enganar” (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 245).
Hoje é o Dia da Mentira, um dia para não ser comemorado pelos que amam a verdade.
*Rubem M. Scheffel é pastor adventista do sétimo dia e ex-editor da Casa Publicadora Brasileira (CPB). O presente texto foi extraído do devocional Com a Eternidade no Coração (Meditações Diárias 2010), escrito por ele e publicado pela CPB.
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor, Eu te saúdo, olhar do meu olhar, Fala da minha boca a palpitar, Gesto das minhas mãos tontas de amor!
Que te seja propício o astro e a flor, Que a teus pés se incline a Terra e o Mar, P’los séculos dos séculos sem par, Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu Senhor!
Eu, doce e humilde escrava, te saúdo, E, de mãos postas, em sentida prece, Canto teus olhos de oiro e de veludo.
Ah! esse verso imenso de ansiedade, Esse verso de amor que te fizesse Ser eterno por toda a Eternidade!...
O poema acima foi extraído da Antologia de Poesia Cristã em Língua Portuguesa, organizada por Sammis Reachers. O livro contem textos de 80 autores das literaturas brasileira, portuguesa e luso-africana. São alguns dos mais belos poemas de teor religioso de nomes como Gil Vicente, Gregório de Matos, Olavo Bilac, Machado de Assis, Antero de Quental, Cecília Meireles e Floberla Espanca. Você pode baixar o livro gratuitamente clicando aqui.
Acho que hoje entendi mais amplamente o que Jesus quis dizer ao referir que não veio trazer paz, mas espada (Mateus 10:34). É que até um fato que por si mesmo é mais do que bom pode ser uma má notícia para algumas pessoas.
Considere a mensagem da graça, por exemplo. Você sabe, "pela graça somos salvos e isso não vem de nós, é dom de Deus" (Efésios 2:5, 8, levemente parafraseado) . Para metade da população deste planeta esta é uma mensagem espetacular, é a única saída, é a válvula de escape, a tábua de salvação. Para essa metade da humanidade, ouvir que ela não precisa fazer nada para ser salva, que só lhe compete crer para que todo seu histórico de pecados seja coberto pela justiça de Cristo é tudo o que ela precisava ouvir e é tudo que ela não imaginava ser possível chegar a ouvir...
Mas há a outra metade.
Ezequiel 33:13 fala dela: "quando eu disser ao justo que certamente viverá, e ele, confiando na sua justiça, praticar iniquidade, nenhuma das suas obras de justiça será lembrada; mas na sua iniquidade, que praticou, nessa morrerá". Deus nos garante que o justo viverá, o justo não morrerá. O que essa outra metade da humanidade faz é passar a confiar em sua própria justiça. Deus diz que quando isso acontece, essa justiça não vai ser "lembrada". Ela não vai subir na balança.
O Medidor de Bondade (The Good-O-Meter)
Veja, então, que até a mensagem da graça pode ser indigesta para o homem. Ela diz que todas aquelas coisas das quais você se orgulha no seu íntimo não são dignas de mover uma palha em seu favor quando a questão é seu destino eterno. Não importa se você é um marido ou esposa carinhoso; se você, diferentemente dos outros, dedica tempo a ajudar alguém; nada importa se você paga todos os seus impostos; não importa se você é voluntário numa ONG que cuida de crianças carentes, se você tem consciência ecológica, se você perdoa os que lhe ofendem, se você não deixa o preconceito criar raízes em seu coração, não importa nenhuma das coisas que dão a você uma aparência de mais justiça que alguns outros ou que todos os demais. A mensagem da graça diz que isso tudo pode ser esquecido se tão somente você se apegar a isso em lugar de se apegar à mão estendida de quem morreu por você.
A graça é dura e por isso rejeitada por milhões de cristãos hoje mesmo, porque eles precisam fazer alguma coisa para sentirem que merecem ou que fazem jus à salvação, mas com isso eles estão diminuindo o tamanho do real precipício que o pecado cavou entre eles e Deus.
Jesus Cristo trouxe uma espada e separou a humanidade em duas partes (não necessariamente do mesmo tamanho; aliás, certamente uma delas é bem menor que a outra). Você hoje pode escolher estar do lado daquela que "certamente viverá". Basta, para tanto, reconhecer sua indignidade para estar lá. O resto Ele faz.
Feliz sábado, @migos! 19/06/09
*Marco Aurelio Brasil é advogado e membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Unasp Campus 1, em São Paulo/Capital.
A maioria de nós acha muito difícil desejar o "Paraíso" - a não ser que por esse nome queiramos dizer o encontro com os amigos que já morreram. Uma das razões dessa dificuldade é que não tivemos uma boa formação: toda a educação atual tende a fixar nossa atenção neste mundo. Outra razão é que, quando o verdadeiro anseio pelo Paraíso está presente em nós, não o reconhecemos. A maior parte das pessoas, se tivesse aprendido a examinar profundamente seus corações, saberia que querem, e querem com veemência, algo que não pode ser alcançado neste mundo. Existem aqui coisas prazerosas de todo tipo que nos prometem isso que queremos, mas que nunca cumprem o prometido.
Aquele anseio que nasce em nós quando nos apaixonamos pela primeira vez, quando pela primeira vez pensamos numa terra estrangeira, quando começamos a estudar um assunto que nos entusiasma, é um anseio que nenhum casamento, viagem ou estudo pode realmente satisfazer. Não estou falando aqui do que costumam chamar de casamentos infelizes, férias frustradas e carreiras fracassadas, mas sim das melhores possibilidades em cada um desses campos. Havia algo que vislumbramos no primeiro instante de encantamento e que simplesmente desaparece quando o anseio se torna realidade. Acho que todos sabem do que estou falando. A esposa pode ser uma boa esposa, os hotéis e a paisagem podem ter sido excelentes, e talvez a Química seja uma bela profissão: algo, porém, nos escapou. Ora, existem duas maneiras erradas, e uma certa, de lidar com esse fato.
VEJA EM NOSSO PORTAL Você sabia que o Céu é um lugar real com pessoas igualmente reais? E que o Céu te espera com prazer? Aprenda mais sobre isso lendo o estudo Os Braços Abertos de Deus.
(1) A Via do Tolo — Ele põe a culpa nas próprias coisas. Passa a vida toda a conjectutar que, se arranjasse outra mulher, fizesse uma viagem mais cara, ou seja lá o que for, conseguiria dessa vez capturar essa coisa misteriosa que todos nós procuramos. A maior parte dos ricos entediados e descontentes do nosso mundo são desse tipo. Eles passam a vida toda pulando de uma mulher para outra (com a ajuda dos tribunais), de continente para continente, de passatempo para passatempo, sempre na esperança de que o último será, enfim, "a coisa certa", e sempre decepcionados.
(2) A Via do "Homem Sensato" Desiludido — Logo ele conclui que tudo não passava de conversa fiada. "E bem verdade", diz ele, "que, quando é jovem, a pessoa se sente assim. Quando chega à minha idade, porém, você desiste de buscar o fim do arco-íris." Então, ele se acomoda, aprende a não esperar muito da vida e reprime a parte de si mesmo que, nas suas palavras, costumava "uivar para a lua". Essa é, sem dúvida, uma via bem melhor que a primeira; torna o homem mais feliz e não faz dele um problema para a sociedade. Tende a torná-lo um chato (sempre pronto a se achar superior diante dos que julga "adolescentes"), mas, de maneira geral, faz com que ele leve uma vida sem grandes sobressaltos. Seria a melhor opção se o homem não tivesse uma vida eterna. Mas suponha que a felicidade infinita realmente exista e esteja logo ali, à nossa espera. Suponha que realmente seja possível alcançar o fim do arco-íris — nesse caso, seria uma pena descobrir tarde demais (imediatamente após a morte) que, por causa do nosso suposto "bom senso", sufocamos em nós mesmos a faculdade de gozar dessa felicidade.
(3) A Via Cristã — Dizem os cristãos: "As criaturas não nascem com desejos que não podem ser satisfeitos. Um bebê sente fome: bem, existe o alimento. Um patinho gosta de nadar: existe a água. O homem sente o desejo sexual: existe o sexo. Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo. Se nenhum dos prazeres terrenos satisfaz esse desejo, isso não prova que o universo é uma tremenda enganação. Provavelmente, esses prazeres não existem para satisfazer esse desejo, mas só para despertá-lo e sugerir a verdadeira satisfação. Se assim for, tenho de tomar cuidado, por um lado, para nunca desprezar as bênçãos terrenas nem deixar de ser grato por elas; por outro, para nunca tomá-las pelo 'algo a mais' do qual são apenas a cópia, o eco ou a miragem, Tenho de manter viva em mim a chama do desejo pela minha verdadeira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esquecimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também."
*C. S. Lewis (1898-1963) foi um ex-ateu irlandês, professor universitário em Oxford e Cambridge que se converteu a Cristo, tornando-se membro da Igreja Anglicana. O texto acima faz parte do seu livro Cristianismo Puro e Simples, publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes, págs. 48 e 49.
O trabalho social dos adventistas do sétimo dia foi destaque no Jornal Nacional (Rede Globo) desta quinta-feira 28 de maio. Parte de uma série de reportagens sobre ação social das igrejas evangélicas, a matéria apresentou o atendimento a crinaças e jovens realizado pelo Centro Adventista de Desenvolvimento Comunitário (Cadec), no Rio de Janeiro.
Há quatro anos em atividade, os trabalhos do Cadec atendem mais de 500 pessoas e se concentram nas áreas de educação, reforço alimentar, geração de renda e inclusão digital. Na mesma matéria foi apresentado também o trabalho dos batistas brasileiros à frente do Projeto Reame, em São Gonçalo (RJ). No projeto Reame, crianças encaminhadas pelos conselhos tutelares são acolhidas e, com a ajuda de mães sociais, são levadas para escolas da comunidade, participam de aulas de música e esporte.
Assista a seguir ao vídeo da matéria exibida no Jornal Nacional.
"[Ao contrário do que se pensa hoje,] o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ganhará a Terra 'de lambuja'; se aspirar à Terra, perderá ambos.
"Essa regra parece esquisita, mas pode-se observar algo semelhante em outros assuntos. A saúde é uma grande bênção, mas, no momento em que fazemos dela um dos nossos principais objetivos, nos tornamos hipocondríacos e passamos a imaginar que há algo de errado conosco. Só nos mantemos saudáveis na medida em que queremos outras coisas além da saúde: comida, jogos, trabalho, lazer, a vida ao ar livre. Do mesmo modo, nunca conseguiremos salvar a civilização enquanto for esse o nosso principal objetivo. Temos de aprender a querer outra coisa ainda mais do que queremos isso." — C.S.Lewis. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2005, pág. 48.
Embora o texto abaixo tenha pouco mais de 10 anos, é de uma atualidade incrível. Ele nos relembra que o Reino de Deus não é um programa de auditório nas tardes de domingo, com celebridades convidadas, quadros mirabolantes e histórias sensacionais.
Muitos congregações, músicas, pregações e livros hoje se esqueceram disso e estão contaminados pela teologia da prosperidade, pela confissão positiva e pelas técnicas de crescimento de igrejas. Os mantras da religião "evangel-wicca" (isto é, magia evangélica ou bruxaria crente)são repetidos à exaustão: proclama-se a vitória, profetiza-se a libertação, exige-se a restituição, libera-se a unção ou anuncia-se o milagre.
Creio num Deus vivo que é capaz de realizar quaisquer milagres, num Salvador vitorioso sobre as forças do mal, num evangelho que tem poder para transformar qualquer pessoa e numa igreja que congrega pessoas renascidas e santificadas. Mas creio também no que todos sabem (ou deveriam saber) por experiência pessoal: o reino de Deus não é semelhante a uma máquina de capuccino — milagres, por definição, são extraordinários e raros, as forças do mal ainda estão operando em nosso mundo, a transformação da vida não é generalizada nem instantânea, nem todos os assim chamados cristãos nasceram de novo e a igreja neste mundo não experimentará a perfeição antes do Advento.
O evangelho é extremamente simples, mas ao mesmo tempo profundo: Deus está restaurando um grupo à imagem do Criador, preparando este povo para o Segundo Advento de Cristo, manifestando neles o Seu poder de salvar e reservando para eles um lar na Nova Terra. Nosso lar, onde se realizarão os melhores e maiores sonhos — nossos e os de Deus — não é aqui. Se nossas expectativas forem direcionadas apenas para esta vida, parafraseando Paulo e Jesus, somos os mais infelizes de todos os homens e receberemos toda a nossa recompensa neste mundo. — Walter Dos Santos
por Ricardo Barbosa de Souza*
Em algumas das minhas viagens, é comum ouvir pessoas me perguntarem: “Como é sua igreja?” A expectativa delas é ouvir relatos de fórmulas infalíveis de sucesso, mecanismos de crescimento, estrutura de gerenciamento, funcionalidade etc. Minha resposta tem sido: “Minha igreja é uma igreja bíblica, como a maioria das igrejas que conheço: há nela maledicência, intrigas, gente que adultera e muitos que insistem em não obedecer Deus e Sua Palavra, como há aqueles que oram, buscam uma vida de obediência e serviço, se arrependem, confessam, tornam-se ministros de reconciliação. É tão bíblica como era a de Corinto ou de Éfeso. Ela não é diferente. As pessoas que ali se congregam, seus líderes e pregadores, todos vivem a mesma vida comum, com seus conflitos conjugais, crises pessoais, indefinições profissionais e dilemas espirituais.”
Certamente, temos na igreja e na vida dos seus membros histórias, fatos e experiências que chamariam a atenção por sua grandeza e beleza. Mas são situações extraordinárias. Elas não compõem o universo comum e ordinário da vida. Temos que aprender a olhar e reconhecer aquilo que Deus está fazendo na vida comum das pessoas. A graça do ordinário.
Igreja infantil, que precisa do entretenimento religioso para fugir da realidade da vida
O problema que muitos cristãos enfrentam hoje é que estamos mais interessados em conhecer a vida das pessoas através das biografias narradas na revista “Caras” do que nas biografias narradas na Bíblia. A citada revista e muitos livros e periódicos evangélicos se ocupam com o que é clamoroso, extraordinário, fantástico. Mostram uma parte da realidade, certamente uma parte insignificante. São biografias de casamentos perfeitos, paixões intermináveis, sorrisos que atestam uma felicidade invejável, igrejas bem-sucedidas, ministérios glamurosos, estratégias de crescimento dignas de exportação, cultos arrebatadores, igrejas maravilhosas.
Essas mesmas pessoas que lêem este tipo de biografia não conseguem, quando entram na igreja ou lêem a Bíblia, ver além do glamuroso, do extraordinário e do fantástico. São “jornalistas espirituais”. Admiram a fé de Abraão, mas ignoram sua covardia; pregam sobre a determinação de Jacó no vale de Jaboque em ser abençoado por Deus, mas negam seu espírito manipulador e enganoso; lembram sempre de Davi, o homem segundo o coração de Deus, mas não se importam com o adúltero, mentiroso e assassino. Se olharmos para a genealogia de Jesus, veremos nela muitos cuja vida não seria digna de aparecer em nossos livros e revistas que narram as biografias glamurizadas e testemunhos poderosos de sucesso.
Esta fascinação pelo extraordinário nos leva a criar os heróis, a exaltar o forte, a glorificar o vencedor. Os vemos sempre de longe, nos palcos e púlpitos, os aplaudimos, admiramos. Não fazem parte do nosso mundo simples, comum e ordinário. Não admitimos seus erros e pecados e eles, por sua vez, passam a ocultá-los, ou pior, negá-los. São sujeitos e vítimas do mundo fantasioso que criamos, precisam cultivar a ilusão para preservar o ídolo. Ao não admitir sua humanidade comum e ordinária, experimentamos uma espiritualidade infantil e imatura, dependente do sucesso deles, da ilusão de uma vida irreal. Tomamo-nos imaturos em relação aos nossos problemas e imaturos em relação aos problemas dos nossos irmãos. Igreja infantil, que precisa do entretenimento religioso para fugir da realidade da vida.
A Bíblia, ao contrário, nunca negou a realidade. Mesmo que não queiramos enxergá-la, ela está lá, rica em detalhes, para ninguém duvidar. Isto porque a vida cristã não consiste em negar a realidade, mas em trazer para dentro do comum e ordinário dos homens a presença salvadora de Jesus Cristo. Foi isto que aconteceu com Jacó, Davi, Jó e Daniel. Em meio aos conflitos próprios do seu tempo e cultura, das lutas e tensões diárias que experimentavam, provaram a salvação; não negaram seus pecados e dilemas - ao contrário, enfrentaram com honestidade e humildade sua natureza caída e provaram o poder da reconciliação.
Davi, Abraão, Jacó, lsaque e muitos outros tiveram problemas, como todos temos, em seus casamentos, na criação de seus filhos, na vida profissional e na sua relação com Deus. Se olharmos para a igreja primitiva, tão idealizada por muitos em suas pregações, encontraremos o mesmo cenário: adultério, mentiras, heresias, injustiças, brigas eclesiásticas, conflitos conjugais e pais lutando para compreender, amar e educar seus filhos.
A fé não é, necessariamente, um atestado de competência
Às vezes me pergunto: que diferença havia, ou há, entre aqueles que professam sua fé em Cristo e os que a negam? A diferença é que os primeiros trouxeram para dentro de suas vidas comuns e ordinárias a presença de Cristo, buscaram experimentar a conversão de caminhos maus e encontraram o lugar da oração e comunhão. Nem sempre a diferença está no comportamento visível. Conheço muitas famílias e profissionais que, embora não professem a fé em Cristo, demonstram uma compreensão relacional e um desempenho profissional muito melhor do que muitos cristãos. A fé não é, necessariamente, um atestado de competência. É o caminho a Cristo e à comunhão com Ele. A Igreja sempre foi, e continua sendo, uma comunidade de pecadores buscando reconciliação e paz com Deus.
Não se deixe seduzir por aqueles que prometem uma igreja melhor
A Igreja faz parte do que há de mais ordinário, mais comum e rotineiro na vida dos homens. Quando lemos a Bíblia, encontrarmos Deus agindo e transformando o homem dentro desta realidade comum e ordinária. São histórias de festas, pescarias, conversas e encontros que faziam parte da rotina das pessoas. Certamente havia lugar para o extraordinário, o incomum. Há milagres, muitos deles na caminhada da fé, mas a maioria dos milagres na vida cristã não tem a forma das grandes intervenções divinas. Estão escondidos nos episódios comuns, nas situações onde experimentamos o medo, a rejeição, o abandono e a traição; nos amigos que nos desapontam; no filho adolescente que desafia e protesta; no casal antigo de longos anos que enfrenta a amargura do divórcio.
Encontrar a vida em Cristo nestes lugares e cenas comuns e ser transformado por Ele é provar o milagre de ser reconciliado à sua imagem e semelhança. Quando aprendermos a aceitar o comum, a viver a realidade de quem somos e do que Deus fez e está fazendo em nós por meio do seu Filho Jesus Cristo; quando deixarmos de valorizar o extraordinário e cultuar nossas celebridades para reconhecer que, diante de Deus, somos todos pecadores que carecem da graça; quando olharmos mais para a Bíblia e suas histórias e menos para “Caras” e congêneres evangélicos — então começaremos a dar os primeiros passos em direção a um crescimento espiritual e pessoal que fará de nós cristãos com uma humanidade mais robusta e verdadeira.
Para que isto aconteça, mantenha seus olhos voltados para Cristo. Não se deixe seduzir por aqueles que prometem uma igreja melhor, um ministério mais poderoso, um lugar onde todos os seus problemas serão solucionados. Não acredite neles, são mentirosos. Para crescer na fé não precisamos de shows, nem de igrejas espetaculares, muito menos de líderes e pastores que não compartilham de nossa vida comum. Precisamos aprender a orar, ouvir e obedecer Deus e Sua Palavra, participar juntos da ceia do Senhor e servir nossos irmãos e irmãs no amor de Cristo. Essas coisas só acontecem dentro da rotina ordinária da vida.
*Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília/DF. Este texto foi publicado originalmente na revista Vinde, de março de 1999.
Quero compartilhar com vocês dois excelentes vídeos do Britain’s Got Talent 2009 (o Ídolos do Reino Unido). O primeiro é de Susan Boyle, a nova sensação da Inglaterra. A interiorana de meia-idade desperta o preconceito e os risos da platéia e dos jurados. Seu talento, porém, fala mais alto ao cantar uma música do espetáculo Les Miserables.
O caso lembra outro candidato e vencedor da edição 2007 do mesmo programa: Paul Potts. Este ex-vendedor de celular também não inspirava muita receptividade do júri e público, mas também quebrou o preconceito de todos ao se apresentar. Em ambos os casos, o júri e o público são arrebatados por sua voz e obrigados a rever suas atitude. Para assistir aos vídeos, ambos do Youtube e com legendas em português, basta clicar no nome dos calouros acima.
Eu o conheci o texto abaixo por meio de um amigo durante a Semana Santa. Embora ele esteja presente em diversas páginas da internet, desconheço a fonte original e a data em que foi publicado. Também aviso que procuro não discriminar nem ofender qualquer fé religiosa no blog Escrivão Caminha. As reflexões deste texto, porém, são extremamente pertinentes para todos os cristãos que se reportam à Reforma Protestante — um movimento que se levantou contra uma série de abusos e práticas que muitos dos herdeiros da Reforma hoje cometem. O vídeo anexo demonstra o desvio dos princípios defendidos pelos reformadores do século XVI. — Walter Dos Santos
por Wagner Antonio de Araújo
Ainda sou do tempo em que ser crente era motivo de criticas e perseguições. Nós não éramos muitos, e geralmente éramos considerados ignorantes, analfabetos, massa de manobra ou gente de segunda categoria. Os colegas da escola nos marginalizavam. Os patrões zombavam de nós. A sociedade criticava um povo que cria num Deus moral, ético, decente, que fazia de seus seguidores pessoas diferentes, amorosas, verdadeiras e puras. Não era fácil. Mas nós sobrevivemos e vencemos. Sinto falta daquela perseguição, pois ela denunciava que a nossa luz era de qualidade, e ofuscava a visão conturbada de quem não era liberto. E, por causa dessa luz, muitos incrédulos foram conduzidos ao arrependimento e à salvação. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que os crentes não tinham imagens em suas casas, em seus carros ou como adereços de seus corpos. Nós não tatuávamos os nossos corpos e nem colocávamos "piercings" em nossa pele. Criamos que os nossos corpos eram sacrifícios ao Senhor, e que não nos era lícito maculá-los com os sinais de um mundo decadente, um deus mundano e uma cultura corrompida. Dizíamos que tatuar o corpo era pecado. Não tínhamos objetos de culto em nossas igrejas. Aliás, esse era um de nossos diferenciais: nós éramos aqueles que não admitiam imagens em lugar algum. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que pornografia era pecado. Nós não considerávamos fotos eróticas ou filmes pornô um "trabalho profissional", mas uma prostituição do próprio corpo e uma corrupção moral. Ao nos convertermos, convertíamos também os nossos olhos, e abandonávamos as revistas pornográficas, os cinemas de prostituição e os teatros corrompidos. Os que eram adúlteros se arrependiam e pagavam o preço do que fizeram, e começavam vida nova. Os promíscuos mudavam seu comportamento e tornavam-se santos em todo o seu procedimento. Nós, os adolescentes, deixávamos os namoros e os relacionamentos orientados pelos filmes mundanos, e primávamos por ser como José do Egito, que foi puro, ou o apóstolo Paulo, que foi decente. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que nos vestíamos adequadamente para o culto. Aliás, além do nosso testemunho moral, nós nos identificávamos pelas roupas. Se pentecostais, usávamos roupas sociais bastante formais, e éramos conhecidos aonde quer que íamos, pois ninguém mais se vestia tão formalmente assim em pleno domingo à tarde. Se de outras denominações, como eu, não chegávamos a esse extremo, mas nos trajávamos socialmente, com o melhor que tínhamos, dentro de nossas possibilidades, porque críamos que, se íamos prestar um culto a Deus, a ocasião nos exigia o melhor, e buscávamos dar o melhor para Deus. Era a famosa "roupa de missa", "roupa de igreja". Mesmo pobres, tínhamos o melhor para Deus. E sempre algo decente: camisas sociais, calças bem passadas, um sapato melhor conservado, um blazer ou uma blusa bem alinhada. As mulheres usavam seus melhores vestidos, suas melhores saias e seus conjuntos mais femininos. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que nossos hinos falavam de Cristo e da salvação. Cantávamos muito, e nossas músicas não eram tão complexas como as de hoje. Mas todos acabávamos por decorá-las. Suas mensagens eram simples e evangelísticas: "foi na cruz, foi na cruz", "andam procurando a razão de viver"; "Porque Ele vive, posso crer no amanhã", "Feliz serás, jamais verás tua vida em pranto se findar", "O Senhor da ceifa está chamando"; "Jesus, Senhor, me achego a ti", "Santo Espírito, enche a minha vida", "Foi Cristo quem me salvou, quebrou as cadeias e me libertou", etc. Não copiávamos os "hits" estrangeiros, ou as danças mundanas, mas buscávamos algo clássico, alegre, porém, solene. E dançar o louvor? Jamais! Não ousávamos, nem queríamos; nunca soubéramos que o louvor era "dançante"; as danças deixamos em nossas velhas vidas mundanas. Porém, mesmo não as tendo, éramos alegres e motivados. Mas hoje é diferente.
Ainda sou do tempo em que as denominações e igrejas tinham personalidade. As denominações eram poucas e bastante homogêneas. Sabíamos que a Assembléia de Deus era pentecostal e usava indumentária formal; os presbiterianos eram os melhores coristas que existiam; os adventistas tinham uma fé estranha, numa profetiza semi-contemporânea, mas tinham os melhores quartetos masculinos; os melhores solistas eram batistas, etc. Nossas liturgias eram bastante diferentes: os conservadores eram formais, seus cultos silenciosos, enquanto um orava, os outros diziam amém. Já os pentecostais oravam todos ao mesmo tempo e cantavam a Harpa Cristã. Nós nos considerávamos irmãos, não há dúvida. Mas tínhamos personalidade. Hoje tudo é diferente.
E eu não sou velho! Isso tudo não tem 26 anos ainda! Na década de 80 ser crente era ser assim! Meu Deus, como o mundo mudou! Como a chamada Igreja evangélica se deteriorou! Hoje eu sinto vergonha de ser considerado evangélico!
Hoje é moda ser crente, ou melhor, "gospel". Você é artista pornô, mas é crente. Você é do forró pé-de-serra, mas é crente. Você é ladrão, mas é crente. Você é homossexual assumido, mas é crente. Não importa a profissão, o comportamento, a moral, a índole, ser crente é apenas um detalhe. Aliás, dá cartaz ser crente: hoje muitos cantores "viram crentes" pra vender seus cds encalhados, pois o "povo de Deus" compra qualquer coisa. Não há diferença entre o santo e o profano, o consagrado e o amaldiçoado, o lícito e o proibido, o justo e o injusto. Qualquer coisa serve. O púlpito pode ser uma prancha de surf; uma cama de motel ou um palanque eleitoral; a forma não importa. Ser crente é apenas um detalhe, uma simples nomenclatura religiosa.
Hoje os crentes tatuam as suas peles, mesmo sabendo que a Bíblia condena o uso de símbolos e marcas no corpo de quem se consagra a Deus. Criamos nossos próprios símbolos, nossos próprios estigmas e nossas próprias tribos. Hoje há denominações que dão opções de símbolos para que seus jovens se tatuem. O "piercing" deixou de ser pecado, e passou a ser "fashion", e está pendurado na pele flácida de roqueiros evangélicos e "levitas" das igrejas, maculando a pureza de um corpo dedicado ao Deus libertador. Mulheres há que enchem seus umbigos e outras partes de pequenas ferragens, repletas de vaidade e erotismo mundano, destruindo, assim, qualquer padrão cristão de consagração corporal. Meninos tingem seus cabelos de laranja, e mocinhas destroem seus rostos com produtos, pois agora todo mundo faz, e "Deus não olha a aparência". (Ainda bem, pois se olhasse, teria ânsia de vômito...)
Hoje ir á igreja é como ir ao mercado ou às barracas de feira e de artesanato: um evento efêmero, informal, meramente turístico. Não há mais cuidado algum no trajo cultuante. Rapazes vão de bermudas, calções (e, pasmem os senhores, de sungas!), até sem camisa, porque Deus não é "bitolado, babaca ou retrógrado". Garotas usam suas minissaias dos "rebeldes" e exibem umbigos cheios de "piercings", estrelinhas e purpurinas pingando dos cabelos e roupas, numa passarela contínua do modismo eclesiástico. Se alguém ainda vai modestamente ao culto, seja jovem, seja velho, ou é "novo convertido", ou é "beato". É típico encontrarmos pastores dizendo aos "engravatados": "pra que isso, irmão? Vai fazer exame laboratorial?" E, continuamente, vão demolindo qualquer alicerce de reverência e solenidade para o ato do culto.
Hoje as nossas músicas pouco falam de Cristo. Somos bitolados por um amontoado de "glórias", "aleluias", "no trono", "te exaltamos", "o teu poder", etc. Misturamos essas expressões, colocamos uma pitada de emoções, imitamos os ícones dos megaeventos de louvores, e gravamos o nosso próprio cd, que, de diferente, tem a capa e o timbre de algumas vozes, talvez alguns instrumentos, mas, no mais, não passam de cópias das cópias das cópias. E Jesus? Ah, quase nunca o mencionamos, e, quando o fazemos, não apresentamos qualquer noção do que Ele é ou representa para o nosso louvor. Não falamos mais que Ele é o caminho, a verdade e a vida, não o apresentamos como Senhor e Salvador, não informamos ao ouvinte o que se deve fazer para tê-lo no coração, apenas citamos seu nome ou dizemos um aleluia para Ele.
Hoje, entrar em uma igreja é como ter entrado em todas: é tudo igual. O mesmo sistema, as mesmas cantorias, a seqüência de eventos, os rituais emocionais, as pregações da prosperidade, de libertação de maldições ou de megassonhos "de Deus" (como se Deus precisasse sonhar, como se fosse impotente ou dependente da vontade humana). Transformamos nossas igrejas em filiais de uma matriz que não sabemos nem aonde fica, mas que se representa nas comunidades da moda. Não há mais corais, não há mais solistas, não há mais escolas dominicais fortes, não há mais denominações com características sólidas, não há mais nada. Tudo é a mesma coisa: uma hora e meia de "louvor", meia hora de "ofertas" e quinze minutos de "pregação", ou meia hora de "palavra profética e apostólica". Que desgraça!
Hoje trouxemos os ídolos de volta aos templos: são castiçais, bandeiras de Israel, candelabros, reproduções de peças do tabernáculo do Velho Testamento, bugigangas e quinquilharias que vendemos, similares aos escapulários católicos que tanto criticávamos. Hoje não nos atemos a uma cruz sem Cristo, simbólica apenas. Hoje temos anjinhos, Moisés abrindo o Mar Vermelho, Cristo no sermão da Montanha. O que nos falta ainda? Nossas Bíblias, para serem boas, têm que ser do "Pastor fulano", com dicas de moda, culinária, negócios e guia turístico. Hoje temos Bíblias para mulheres, para homens, para crianças, para jovens, para velhos, só falta inventarmos a bíblia gay, a bíblia erótica, a bíblia do ladrão, a bíblia do desviado. Bíblias puras não prestam mais. E, mesmo tendo essas Bíblias direcionadas, QUASE NINGUÉM AS LÊ! Trazemos rosas para consagrar, rosas murchas para abençoar e virar incenso em casa, sal groso para purificar, arruda para encantar, folhas de oliveira de Israel e água do Rio Jordão (Tietê?) para abençoar, vara de Arão, de Moisés, e sabe lá de quem mais! Voltamos às origem idólatras! Parece o povo de Israel, que, ao morrer um rei justo, emporcalhavam o país com suas idolatrias e prostitutas cultuais. E se alguém ousa ser autêntico, é taxado de retrógrado. Com isso, surgem os terríveis fundamentalistas, que abominam tudo, ou os neopentecostais, que são capazes de transformar a igreja num circo, fazendo o povo rir sem parar ou grunhir como animais.
Meu Deus, o que será daqui há alguns anos? Será que teremos que inventar um nome novo para ser evangélico à moda antiga? Parece que batista, assembleiano, presbiteriano, luterano ou metodista não define muita coisa mais! Será que ainda haverá púlpitos que prestem, pastores que pastoreiem, louvores que louvem a Deus? Será que seremos obrigados a usar "piercing" para nos filiarmos a alguma igreja? Será que nossos cultos serão naturistas? Será que ainda haverá Deus em nosso sistema religioso?
É CLARO QUE HÁ EXCEÇÕES! E eu bendigo a Deus porque tenho lutado para ser uma dessas exceções. É claro que o meu querido leitor, pastor, louvador, membro de igreja, missionário, também tem buscado ser exceção. Mas eu não podia deixar de denunciar essa bagunça toda, esse frenesi maligno, esse fogo estranho no altar de Deus! Quando vejo colegas cuspindo no povo, para abençoá-los, quando vejo pastores dizendo ao Espírito Santo "pega! pega! pega!", como se fosse um cachorrinho, quando vejo pastores arrancando miúdos de boi da barriga dos incautos doentes que a eles se submetem, quando vejo um evangelho podre arrastando milhões, quando vejo colegas cobrando dez mil reais mais o hotel, ou metade da oferta da noite, para pregar o evangelho, então eu me humilho diante de Deus, e digo: "Senhor, me protege, não me deixa ser assim!"
Olá! Este é um espaço para temas que conduzem à fé em Cristo e na Bíblia, promovem uma reflexão bíblica sobre atualidades e estimulam o aperfeiçoamento intelectual.
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